Todas as pequenas coisas

Autor Por laisizzle em 08/03/2010

O meu dia estava, se me permitem o vocabulário, uma merda. Eu tinha acabado de sair de um teste de física, a minha cabeça estava latejando e eu estava andando embaixo do sol usando calças compridas e uma blusa preta (tudo bem, tinha um “what’s my age again?” gigantesco escrito nela e um logo do Action também, mas o calor já estava insuportável). Meu humor não estava dos melhores e as minhas feições estavam tão fechadas que era perigoso alguém que passasse por mim na rua acabar me confundindo com um buldogue.

Então um garoto falou “Hey, você” e eu levantei o olhar para ver se era comigo que ele estava falando mesmo. Ele apontou para a minha blusa e disse “Olha, blusa do Blink! Legal”.

Bom, depois disso, meu dia melhorou bastante. Juro. Alguma pessoa reconhecer uma frase do Blink em uma blusa e ainda por cima comentar sobre isso quase me fez ter esperanças na humanidade outra vez. O buldogue que eu estava encarnando foi embora e em três segundos eu estava sorrindo que nem uma idiota (coisa que eu faço quase o tempo todo, mas enfim).

Antes que você feche essa página, se perguntando “Ok, e o que diabos eu tenho a ver com isso?”, calma! Foi só para puxar assunto mesmo. A questão é: Quem aí já notou que por causa de coisas simples, pequenas e inesperadas, o nosso humor melhora (ou piora) consideravelmente?

Sério. Ninguém espera sair de casa e se deparar, por exemplo, com um bando de borboletas voando majestosamente na sua direção e, oh, meu dia agora está muito mais colorido! Se você espera isso, ou é a Branca de Neve ou um integrante do Cine. Daí eu não me responsabilizo mais por você.

Brincadeiras à parte: devíamos, sim, aprender a valorizar coisas que podem parecer ínfimas, mas que nos afetam mais do que o esperado. Tipo um sorriso, um abraço, uma música que começa a tocar na rádio, uma flor que de repente nasceu na sua calçada, uma mensagem no celular, a reprise de algum programa que você goste, chuva no fim de tarde, uma barra de chocolate, uma carta, um sanduíche de bacon, mãos dadas. Ou uma lágrima, um palavrão ou uma frase. Tanto faz – uma vez que eles estão lá, já causaram um efeito irremediável em nós. Talvez uma faca você consiga retirar antes de chegar ao seu coração, mas não se consegue fazer o mesmo com uma palavra ou um gesto.

Então entra aquele papinho de “seja a mudança que você quer ver no mundo” e “faça aos outros o que você deseja que façam a ti” e blábláblá, que, convenhamos, é bem verdade. Igual o dia em que eu disse a um rapaz na academia que o all star dele era legal e ele ficou tão feliz que parecia que eu tinha dito que agora ele era imortal e nem precisava brilhar ao sol (piadinha infame, mal aí). Ignorar alguém às vezes é pior do que agredi-la fisicamente tanto quanto sorrir para alguma pessoa também pode ser mais eficaz do que qualquer palavra de conforto. Nós temos mais poder do que pensamos – ainda mais sobre os nossos iguais – e muitas vezes ignoramos isso ou deixamos passar despercebido.

Eu já quis defender a tese de que todas as “pequenas” (e importantíssimas) coisas deveriam ser consideradas, por questão de justiça, “grandes” coisas. Mas então viveríamos mais em função de notar esses detalhes do que o necessário e arruinaríamos a surpresa agradável que sentimos quando nos deparamos com um deles.

Isso seria banalizar o inevitável e tornar comum o raro. Então eu desisti de transformar o pequeno em algo grande, porque… Ah, porque daí todas as coisas pequenas perderiam a graça.

Laís Cerqueira Fernandes tem 16 anos, é estudante do Ensino Médio, futura estudante de Jornalismo, aspirante a escritora e pede sinceras desculpas pela falta de novas colunas, além de colocar a culpa disso no seu atual status de “vestibulanda”, razão pela qual ela também não anda esbanjando muita criatividade – vide o título da coluna de hoje.