Sobre velhos e crianças

Autor Por brunobld em 28/07/2009

A diferença entre um velho e uma criança reside somente na carteira de identidade – as datas não mentem. Todas as outras coisas são iguais: cabelos claros, boca sem dentes, corpo minguado, gosto pelo leite, não falam coisa com coisa e têm memória curta – nenhuma na maioria dos casos. Quanto mais velho fica o velho, mais se assemelha à criança. Até o ponto em que a vida se cansa desse martírio. Porque quem cansa é a vida, não o velho. O velho ainda acha que pode. Para ele, tudo continua o mesmo, tirando as ‘bolas murchas’ e o gosto pelos esportes – canastra e bingo.

Velho adora contar histórias. Quer uma dica? Nunca pareça desinteressado ouvindo seu avô. Faça cara de atento e olhe para o infinito. Não suspire. Se o velho estiver contando vantagem, não se aproxime. Aliás, caso se aproxime,  não discorde. Você vai desejar nunca ter entrado na conversa. Se o Brizola era o tal, e o Getúlio um semi-deus, não duvide. Nesses casos, mais do que nunca, concorde. Dizer que o Getúlio era populista pode ser o seu fim.

É claro que estar velho não é só tristezas. Depois de uma vida de trabalho, ele pode, enfim, ter o descanso merecido. Claro, isso se esse velho em questão mora no Canadá, na Alemanha… aqui no Brasil o velho perde 2/3 do seu tempo em alguma fila. Seja na fila do INSS ou na fila do SUS.

Mas, não tema. Assim como a criança deixa de ser criança, o velho também deixa de ser velho. Claro, um passa a ser adolescente enquanto o outro passa a ser indigente em algum cemitério qualquer desse nosso querido Brasil.

Entretanto, o meu objetivo hoje é outro. Não estou aqui para falar apenas dos nossos queridos velhinhos. Estou aqui para tomar uma posição, declarar algo para vocês. Vim dizer que sou infantil e que assim pretendo continuar, porque aqueles que “adultos” ficam só vêem a lua, não mais enxergam o luar.

Obviamente que não estou querendo passar um atestado de irresponsabilidade ou fazer uma ode à basbaquice. Todos devem, em determinado momento, assumir diversas responsabilidades – uns mais cedo, outros mais tarde. Isso é a vida, e a vida é um jogo duro.

Todavia, ninguém precisa deixar de lado o que há de melhor na infância – a paixão pela vida. E ninguém deve deixar seus sonhos de lado para se tornar uma pessoa chata e sem brilho. Não podemos esquecer que, embora sempre tenhamos a impressão de que a vida mudará para melhor, isso nunca acontece de verdade. O horizonte, por mais rápido que sejamos, sempre continuará intocável – apenas um longínquo e onipresente lembrete.

Então, já que dias melhores nunca virão, temos de nos resignar com nossa mísera condição de mortais. No entanto, embora sejamos apenas pó, ainda temos um coração pulsando dentro de nós. E, não nos resta nada senão seguir em frente. Mas, ainda assim, podemos escolher como viver nossas vidas: de mente aberta e espírito livre ou fechados como uma concha, cercados pelo  mundinho que criamos.

Espero e desejo que a maioria escolha a primeira opção. Entretanto, sei que isso é difícil de acontecer – as amarras são muitas. Mas, para aqueles que resolverem dar uma chance a si, quero que leiam com muita atenção as próximas linhas.

Não sei o que é felicidade. No entanto, por ser mais palpável, conheci seu oposto. Sei como é tenebrosa a perspectiva de viver na mais profunda tristeza. Também não conheço nenhum guia para o bem viver. Mas, sempre tentando ouvir mais do que falar, juntei algumas poucas peças desse quebra-cabeça.

Os mais sábios dizem que, para levar uma boa vida, é preciso ser livre no pensar e no agir. Que, antes de qualquer coisa, é necessário jogar fora qualquer idéia pré-concebida. Ouvi e compreendi que é preciso viver para aprender a viver, portanto, jamais se esquive da vida. Faça parte dessa dança – a música não vai durar para sempre.

Então, dance na chuva, beije na chuva. Mergulhe, veja o pôr-do-sol. Lute e acredite nas suas causas perdidas. Seja comedido, mas também saiba que, às vezes, faz bem exagerar. Conforme-se com o efêmero. Tudo é passageiro, até a mais sólida rocha, um dia, vai virar poeira. Aprenda a sorrir não só com os dentes, mas com a alma.

Escute com humildade, observe com atenção, opine com sinceridade. Sonhe, acredite, construa. Lembre-se sempre que a superficialidade domina os fracos e que o moderno padroniza. Seja paciente com a dor, ela será sua maior professora. Enfim, cresça no tropeço. A vida é rápida, o tempo é curto.

Claro, siga seu coração, continue infantil, mas seja maduro para prever e se responsabilizar pelas conseqüências de suas atitudes. E, por último, lembre-se que um pouco da felicidade é hipocrisia. Mas, muito da tristeza também.

LEANDRO DANI (leandro.feh) tem 22 anos. E você que tem 95?