Mark Hoppus: Minha vida de dinossauro

Autor Por nath em 14/03/2012

Kerrang!:

Mark Hoppus viveu próximo à Kerrang! por muito tempo. Parece uma boa desculpa, então, para o Mark Sutherland aprender tudo sobre  a incrível jornada do baixista do blink-182, da ensolarada Califórnia para Londres…

 

Mais uma manhã comum no escritório da Kerrang!. Música no volume máximo, chá sendo preparado, páginas estão sendo reunidas. AH, e uma das maiores estrelas do rock do mundo apareceu para brincar com alguns dinossauros de brinquedo.

Mark Hoppus tem sido nosso vizinho por seis meses, desde que ele e sua família se mudaram para perto de Mayfair, após o fim da última turnê do blink-182. Consequentemente, ele anda pelas ruas como se fosse um nativo, não como um turista ou um superstar visitante. Não há nenhuma comitiva (só a sua esposa, Skye), nenhuma limusine (ele anda de metrô ou a pé), e ele está bebendo chá, não café; um sinal claro de que ele está climatizado, após toda uma vida na Califórnia.

Dizem que a diferença entre os americanos e os britânicos é que eles pensam que 100 anos é muito tempo, e nós pensamos que 100 milhas é um longo caminho. Portanto, Mark não está muito preocupado com as 5.000 milhas de distância da casa onde ele passou a sua infância, mas permanece chocado com a história de Londres (“Vocês tem construções que são mais velhas que os Estados Unidos”, ele sorri, “muito mais”).

Ele se entusiasma com o seu amor pelos espaços ao ar livre de Londres (você o encontrará frequentemente correndo nos parques da cidade) e o Museu de História Natural. A TV britânica é um sucesso (ele é fã do Downtown Abbey e Sherlock), assim como o Chelsea FC (“Todo o mundo fica bravo comigo por apoiá-los, mas é o time mais próximo de onde eu moro”). Ele parece uma figura surpreendentemente urbana para um homem que, por algum tempo, era conhecido por suas piadas sobre pintos e por ficar pelado.

Demorou um pouco, mas Mark finalmente larga seu brinquedo pré-histórico e fala para a Kerrang! sobre sua jornada épica à capital inglesa e como ele – sussurrando –  evoluiu ao longo do caminho. Bem, todos nós sabemos o que aconteceu com os dinossauros…

Parte do motivo pelo qual o Mark se adaptou tão bem à vida numa cidade estranha pode ser registrado na sua própria vizinhança, onde ele passou sua infância. “Eu não ficava na mesma escola por 2 anos seguidos até a 8ª série”, ele encolhe os ombros. “Então isso não me incomoda em seguir. Lar é onde a minha família está.”

Mark passou boa parte de sua infância em Ridgecrest, uma pequena cidade no deserto da Califórnia. Seu pai, assim como muitas pessoas na cidade, trabalhou para o Departamento de Defesa, criando mísseis e bombas para o centro de testes da Marinha da cidade.

“As únicas pessoas que viviam lá eram gênios, cientistas, físicos e completos drogados viciados em metanfetamina,” ele ri. “Era a mais estranha combinação de seres humanos, tudo nesse pequena cidade no meio do deserto.”

Apesar de toda estranheza ao seu redor, Mark era uma criança muito doce, pelo menos até seus pais se separarem, quando ele tinha oito anos.

“Isso teve um efeito drástico, inquietante sobre mim,” ele diz. “Foi muito difícil pra mim, especialmente porque eles não falavam sobre isso. Quando meus pais discutiam, era sempre por trás de portas fechadas. Eu lembro que sentava do lado de fora do quarto deles quando eu tinha sete anos e ficava ouvindo as vozes cheias de raiva. Isso me deixou muito chateado.”

Mark diz que essa experiência inspirou a clássica canção do Blink, “Adam’s Song”. Mas seria antes disso que o punk rock se tornaria sua salvação. Mark e sua irmã, Anne, se dividiam entre a casa do pai e a casa da mãe, até que Mark se mudou com seu pai para Monterey, enquanto sua irmã ficou com a mãe.

Mark acabou voltando para Ridgecrest e, com o tempo, as restrições da pequena cidade do deserto e a vida familiar devastada começaram a surtir efeito. Inspirado pelos pioneiros do pop-punk, The Descendents, o garoto que sempre tinha sido bom em se encaixar em cada nova escola, agora havia se tornado um “punk-rock outsider”.

“Olhando para trás, como um adulto, eu imagino que merda estava acontecendo,” Mark ri. “Eu era um aluno que só tirei A a minha vida inteira e, de repente, comecei a usar delineador para ir para escola, a matar aulas e fumar cigarros…Eu estava uma bagunça, simplesmente uma gloriosa bagunça.”

Tal comportamento atraiu muita atenção, nem toda ela positiva.

“Nós ganhamos apelidos,” ele dá ombros, por ele e por todos aqueles com mesmo pensamento que andavam juntos. “Mas nós recebíamos isso como uma medalha de honra. Fazer algo diferente, esquisito ou colorido era nosso objetivo, então se as pessoas estavam zombando da gente, nós estávamos ganhando.”

Não demorou muito para Mark desejar deixar de só ouvir punk rock para querer fazê-lo. Seu pai não aprovava, mas fez um acordo com seu filho: se ele pintasse a casa, seu pai compraria seu primeiro baixo. Pintura completa, Mark formou uma sucessão de bandas de garagem, fazendo seu primeiro show em uma pequena casa noturna.

Provavelmente uns 30 amigos foram ao show,” ele lembra. “Não tínhamos músicas originais, então fizemos covers the The Cure, Social Distortion, The Descendents e Jimi Hendrix. Eu ainda lembro de como me senti: era legal tocar música e ter pessoas que se importavam, mesmo que fosse só uma distração por meia hora…

No entanto, a ideia de uma carreira musical ainda parecia tão absurda que Mark foi para uma faculdade em San Diego para treinar como professor de inglês do ensino médio. E difícil imaginá-lo numa jaqueta com patches de couro nos cotovelos, reclamando sobre a falta de piadas de qualidade em “Orgulho e Preconceito”, mas ele insiste que ele estava falando sério sobre isso.

“Eu acho que seria um bom professor,” ele diz, parecendo ligeiramente cabisbaixo que qualquer um pode pensar o contrário. “Eu tive um professor no ensino médio que nos ensinou sobre Shakespeare e eles realmente causaram uma boa impressão em mim e na minha turma. Seria legal ter sido o tipo de professor que realmente inspira as pessoas a se preocupar com as coisas.”

Felizmente, a perda por parte da profissão docente tornou-se o ganho do pop-punk quando ele conheceu Tom DeLonge e, a partir daí, nasceu o Blink. Mesmo assim, porém, o jovem Mark não tinha noção que o estrelato estava na agenda.
“Todos que pegam numa guitarra tem um sonho,” ele diz. “Mas o meu nunca foi além de querer tocar no SOMA (lendária casa de shows em San Diego). “Quando tocamos lá, provavelmente três anos depois, foi maravilhoso! Nós tínhamos conseguido, era o ápice de tudo que esperávamos.”

Como se vê, não foi. Mas assim como a reputação do Blink se espalhou e eles começaram a receber convites para shows. Mark teve que decidir se queria seguir a carreira como professor ou cair na estrada com a banda.

“Meu pai dizia algo assim: ‘Sua banda tem algo, mas tenha certeza de que você vai ser capaz de sustentar você e sua família’”. “Já minha mãe: ‘Você está brincando comigo? Você pode ir para a universidade quando tiver 40 anos, você só tem uma chance de estar em uma banda’. Então eu segui o que minha mãe disse e viajei pelo mundo…”.

É claro que isso não foi nada simples. Quando o blink-182, que já estava com Travis Barker na bateria (ele substituiu o baterista original, Scott Raynor, em 1998), deu um salto na carreira com o Enema of The State em 1999, eles ficaram perplexos com aquela sensação durante algum tempo. Mas o fato é que, aquele sucesso foi a consequência de anos fazendo duras turnês com os dois álbuns anteriores, Cheshire Cat, de 1994, e Dude Ranch, de 1997, que afiou à perfeição a sonoridade pop-punk.

A fama sentou ao lado de Mark (“Eu amo quando as pessoas chegam até mim e me reconhecem nas ruas”), mas, assim como o blink se tornou grande e tudo que estava ao seu redor, aquela forte ligação que os mantinha unido foi quebrada. Nesse tempo, eles lançaram o Self-Titled em 2003, e os garotos do “happy-go-lucky pop-punk” se tornaram estrelas do rock mal-humoradas, e então eles se separaram dois anos depois com a banda discutindo algumas coisas.

Do nada, a fama de Mark passou de benção para maldição. Pessoas chegavam nele todo tempo, mas agora apenas para perguntar: “quando o blink vai voltar?” Ele entrou em outros projetos, formou o +44 com Travis e fez um podcast, começou seu próprio programa de TV, o Hoppus On Music, foi juiz no Rock The House, uma competição para bandas sem gravadoras terem a chance de tocar no House Of Commons. Mas nada poderia replicar tudo o que aconteceu quando ele estava no blink.

“Eu sentia que tínhamos deixado muita coisa incabada”, Mark diz. “Que nós deixamos as pessoas tristes, que nos deixamos tristes com o fim da banda.”

Porque você sentiu que vocês se deixaram tristes? “Porque nós caímos. Nós éramos abençoados em fazer o que nós fazíamos e deixamos isso. Nossa banda conseguiu coisas muito boas por ter acabado durante alguns anos, mas aqueles anos foram uma merda”.

Dado que precisou de uma tragédia (a morte do produtor Jerry Finn) e um desastre (o acidente de avião com Travis no mesmo ano) para que a banda voltasse, é estranho que Mark tenha se mudado para o outro lado do mundo logo após a reconciliação. Mas Mark insiste que foi um desejo da família em “conhecer uma outra parte do mundo e viver de uma forma diferente” – e família vem em primeiro lugar agora.

Ele se descreve como um pai “muito rigoroso” com Jack, que tem nove anos de idade. Então o que ele fará se daqui a alguns anos ele disser que vai se juntar com alguns amigos para fazer uma banda de punk rock?

“Isso vai ser muito bom”, diz Mark. “O que for atraente para ele, eu vou incentivá-lo, seja tocar em uma banda, açougueiro ou astronauta. Contanto que ele faça algo que ame, isso é o que realmente importa”.

Primeiro, contudo, haverá alguns diálogos sobre o que Mark fez em sua juventude, especialmente agora que Jack e seus amigos descobriram o vídeo de “What’s My Age Again?”, onde seu pai corre pelado por Los Angeles…

“Ele sempre pergunta: ‘Como você pode dizer ‘fuck’ na frente de 10 mil pessoas, mas eu não posso dizer isso em nossa sala de estar? ’”, Mark diz rindo bastante. “Eu explico que, há palavras que são apropriadas para algumas ocasiões e o importante é saber quando usá-las…”.

Felizmente, para aqueles que se preocupam que Mark, que completa 40 anos em 2012, está – no espírito de “What’s My Age Again?” – finalmente atuando como sua idade pede, pai e filho brincaram juntos com a frase “pegue todas as bolas”.

“Ele não aprendeu isso comigo”, diz Mark. “Mas quando fomos em Paris, eu ensinei como se diz ‘merda’ em francês”.

E, com a competição Pai Celebridade do Ano praticamente ganha, Mark está livre para se concentrar na próxima fase do Blink, que conta com uma turnê por arenas do Reino Unido. A banda tem agora história suficiente para impressionar o povo britânico, nunca mente um americano, mas Mark está determinado a não se basear nas glórias do passado, adiando a turnê do ano passado para que a banda pudesse terminar o Neighborhoods.

“Isso custou muita grana para nós”, diz Mark. “Todos estavam dizendo para nós irmos e tocar as músicas antigas, mas nós dissemos não. Nós não queremos ser uma banda de ‘Greatest Hits’, nós queremos continuar com novas ideias”.

Isso não fez com que os fãs do Reino Unido deixassem de ficar chateado, mas Mark tem aprendido muito em sua jornada vinda do meio do deserto da Califórnia para o coração de Londres – e das responsabilidades de um pai punk rocker. Ao contrário de seus pais, ou mesmo com seus companheiros de banda na primeira vez, todas as disputas são discutidas abertamente, ao invés de portas fechadas. Se ele e sua mulher discutem, eles sempre dizem ao Jack o motivo e mostra a ele como eles resolvem as coisas. E se os fãs britânicos do blink ainda estão tristes com o adiamento da turnê do ano passado, ele está determinado a fazer as pazes com eles em público com os melhores shows.

“As pessoas ficaram muito irritadas”, ele admite. “E com todo direito. Mas foi a melhor decisão. No final das contas, está um disco muito melhor e teremos um show muito melhor…”.

E com isso, ele coloca pra baixo os dinossauros, diz adeus para o pessoal da Kerrang! E volta para a correria da hora do almoço de Londres. Ele está 5 mil milhas distante de Ridgecrest, mas, finalmente, Mark Hoppus está em casa.

 

Veja abaixo os scans da reportagem: