Isabel, Isabel

Autor Por brunobld em 09/10/2009

A porta estava entreaberta. Não dá para descrever a minha reação, misto de surpresa e medo. Vocês sabem que não é difícil me assustar. Mas aquela era a porta da minha casa. O local onde eu guardo a minha cerveja, os vinis do Elvis e, o mais importante, as minhas cuecas limpas. Enfim, tudo o que é importante pra mim está guardado lá.

E agora? Não tinha como escapar. Eu tinha que entrar. Isabel estaria me esperando dentro de alguns minutos. “E ela não gosta de esperar” – pensei. Dei o primeiro passo em direção à porta. Parei. Escutei. Silêncio. Dei o segundo passo e mais alguns. Espiei pela fresta. Não consegui enxergar nada, estava tudo muito escuro. Respirei lentamente, procurando não fazer barulho. Estiquei o braço e empurrei a porta. “É melhor parar por aqui” – pensei, enquanto a porta rangia na direção oposta – “como vou saber se não tem algum psicopata esperando eu passar pela porta para me acertar com um abajur”?

Enfim, agora era tarde, a porta já estava escancarada e alguma luminosidade já adentrava a sala. “Se tivesse um maluco, ele já teria pulado pra fora”, pensei aliviado. Foi quando ouvi um barulho. Alguém estava na cozinha. “Só pode ser o louco procurando uma faca”! Dei dois passos para trás e esbarrei na parede, fazendo cair um quadro. Gelei. “Droga, agora o maníaco sabe que estou em casa”. Ouvi alguns passos e pensei estarem vindo em minha direção. “Puta merda, fodeu” – não que eu já não estivesse todo borrado, mas essa foi a gota d’água… ou a descarga? – “é melhor eu pegar alguma coisa para me defender”. Agarrei a primeira coisa que vi, que, por uma coincidência não natural, era a minha Colt 45 pronta para entrar em ação. Com a arma na mão, cantei de galo. “Viu, seu filho-da-puta, é melhor sair engatinhando, ou eu estouro o que tu chama de cabeça”! Apontei a Colt na direção da porta. O que saísse de lá, sairia pra morrer. Fiquei uns bons minutos na mesma posição. Cheguei a bocejar algumas vezes. “Porra, que merda. O que diabos esse cara tá fazendo? Será que pulou pela janela? Mas é impossível. São dez andares!”. O que eu tinha que fazer ficou muito claro na minha mente. “Tenho que entrar atirando”. Corri e pulei porta adentro, numa cambalhota meio desajeitada. Esvaziei o tambor. O que estivesse por lá, já estaria na merda. Levantei e me recompus, dei uma olhada em volta. “Caralho, é a Isabel! – gritei, espantado – “Que merda, mulher, o que tu tá fazendo aqui? E por que tu nunca tira essa porra de fone de ouvido das orelhas?”, perguntei várias vezes. A porcaria da mulher não se levantava, nem sequer se mexia. “Tá morta”. Corri pra área de serviço, peguei uma lona que eu deixava por lá e enrolei a Isabel nela. “Droga, tá chovendo”. Fui até o meu quarto e peguei a chave do carro. Soube, naquele momento, que aquela seria uma noite longa.

“Isabel, Isabel… tu sabe que eu odeio sair em noites chuvosas. Olha o que eu tenho que fazer por tua causa” – disse, olhando pra lona. Bosta de mulher.

LEANDRO DANI (leandro.feh) tem 22 anos. Pronto, quebrei o gelo.