Entrevista com Chris Holmes, engenheiro de som do blink-182 (Parte I)

Autor Por nath em 03/10/2011

Confira a tradução da entrevista com Chris Holmes feita pelo Absolut Punk:

Recentemente, nós tivemos a chance de conversar com Chris Holmes, o co-produtor e engenheiro por trás do novo álbum do Blink-182, “Neighborhoods”. Um dos pontos da entrevista foi conhecer os bastidores de como o álbum foi gravado. Eu sei que muitas pessoas estão interessadas em quais técnicas foram usadas e como foi o processo de gravação em si para as primeiras novas músicas do Blink em anos.

Você poderia descrever qual foi o seu papel na gravação de “Neighborhoods”?

Eu servi como co-produtor e engenheiro em todo o álbum (junto com Critter) e trabalhei na mixagem de “Heart’s All Gone Interlude”, “Heart’s All Gone” (versão do álbum), “Kaleidoscope”, “Fighting The Gravity” e “Love Is Dangerous”.

Como você conheceu a banda e começou a trabalhar com eles? Qual é a sua experiência profissionalmente e com a banda?

Eu conheci Mark e Travis quando eles estavam começando as demos no porão de Travis que, mais tarde, serviriam ao +44.

Antes de trabalhar com eles, eu fui sortudo o suficiente pra trabalhar com o Red Hot Chili Peppers, Audioslave, AFI e Alkaline Trio, entre outros. Eu também toco piano e guitarra e tenho experiência em programação e em escrever música para mim mesmo.

Nós trabalhamos com as demos por mais ou menos um mês.  Foi uma sessão muito suave e divertida que nos levou a fazer “When Your Heart Stops Beating” junto com alguns remixes e batidas do Travis.

Uma vez finalizado o WYHSB, eu caí na estrada com o +44 fazendo alguns truques de áudio para os shows ao vivo. Mark e eu trabalhamos com várias bandas (Motion City Soundtrack e New Found Glory são as mais notáveis), fizemos alguns remixes maravilhosos durante esse tempo e fizemos os podcats do “Hi, My Name Is Mark”. Também trabalhamos juntos na música “In Transit” com Pete Wentz para a trilha sonora de “Alice No País das Maravilhas”.

Eu fui junto com o Blink para a turnê de retorno fazendo basicamente as mesmas coisas que eu fiz com o +44. E assim como “Neighborhoods” foi fluindo, eu já era parte disso. Eu não estou na Honda Civic Tour devido à obrigações anteriores, mas funcionou melhor dessa forma, já que a mixagem/masterização acabou ficando em cima das preparações para a turnê. Isso me possibilitou comparecer às sessões de masterização e ajudar a coordenar os ajustes finais do álbum.

Com qual frequência vocês esteve no estúdio com um ou mais membros gravando durante o precesso?

Eu estive no estúdio desde o final de 2010 até basicamente agosto desse ano, trabalhando para finalizar o disco. As vezes com todos os três, as vezes com um só, outras só comigo mesmo.

Como foi o processo para a banda? Tem muitos boatos correndo pela internet de que algumas músicas não foram escritas com todos no estúdio, mas eram mandadas de um estúdio para outro. Como isso funcionou? Quantas músicas foram gravadas dessa forma?

Normalmente, quando você trabalha com uma banda, você faz uma pré-produção antes de começar qualquer coisa pra valer. Na minha experiência de pré-produção, cada membro da banda tem várias idéias diferentes que, individualmente, eles leva à mesa e então, a banda como um todo trabalha em uma versão demo para ver se vai tudo se encaixar e partem daí. Com o Blink-182, a fase de pré-produção e a fase de gravação pra valer se misturaram, uma vez que todos tiveram acesso a um estúdio profissional.

Então por exemplo, uma forma como nós trabalhamos foi, se o Mark tivesse uma idéia e tivesse um ritmo que nos agradasse, ao invés de mandar uma demo rápida, fazíamos o baixo ou a guitarra antes de enviá-la pro Tom. A partir daí, Tom ouviria a demo. Se ele escutasse algo que quisesse mudar ou tocar de forma diferente, ele faria uma gravação, mandaria de volta para nós, nos perguntaria o que achamos…Daí Travis gravaria a bateria e a música poderia fazer a ronda de novo. Essa nem sempre era a exta sequência dos eventos com quem fazia o que primeiro, mas era basicamente assim que fluía. “Snake Charmer” e “MH 4.18.2011” foram duas músicas que foram feitas dessa forma.

Juntamente com isso, nós trabalhamos com 4 ou 5 idéias que começaram com todo mundo no mesmo lugar. Esses dias foram muito corridos e a energia era alucinante. Nós pegávamos a estrutura da música, o ritmo, o refrão e fazíamos uma boa demo. No final do dia, fazíamos notas sobre o que deveríamos ajustar e aí todo mundo regravava suas partes com o som que queriam na semana seguinte, em seu próprio estúdio. Para mim, isso foi mais normal do que a pré-produção teria sido. “After Midnight” e “Natives” foram feitas dessa forma.

Para o final do processo, todo mundo se reúnia uma vez por semana, escutava tudo, fazia notas para mudanças e coisas novas para tentar e era assim até as faixas estarem prontas para mixagem.

Eu acho que o que fez a situação ser única, foi o fato de estarmos em duas diferentes cidades trabalhando no mesmo material quase ao mesmo tempo. A distância física deu a impressão de uma lacuna no trabalho que não existia para mim. O trabalho estava sendo feito rápido e as músicas estavam sendo atualizadas rapidamente.

No artigo da Alternative Press, eles mencionaram que teve uma variedade de engenheiros de som trabalhando no álbum – um para cada membro da banda. Isso é diferente do normal e como você acha que isso influenciou no produto final?

Sim, eu li esse artigo também.  No papel, isso soa mais desarticulado que era…e eu não diria que “cada membro teve seu próprio engenheiro.

A maior parte das coisas que o Tom gravou, ele fez com o Critter e a maior parte das coisas que o Mark e o Travis fizeram, eu gravei…isso parece simples se levarmos em conta que Tom = guitarra e vocais, Mark = baixo e vocais, Travis = bateria

Em “Neighborhoods”, tem guitarras que o Mark tocou, baterias que o Tom programou e sintetizadores que o Travis tocou…na verdade, algumas das melhores administrações dos vocais vieram do Travis.

Em relação ao “esta é a norma”…eu não acho que exista uma “norma” para quantos engenheiros trabalham em um disco. Eu fiz alguns discos sozinhos e outros em que eu fazia parte de um time de 5 ou 6 pessoas, então não foi uma grande coisa em ter algumas outras pessoas. O maior obstáculo de trabalhar com múltiplos engenheiros é fazer as anotações e nomear os arquivos no mesmo sistemas, assim não fica confuso de encontrar as versões mais novas das coisas…coisa de nerd.

Quando chegou a hora da mixagem, assim como no último disco, os rapazes queriam diferente mixadores para diferentes músicas. Eu acho que essa decisão tem um efeito melhor, fazendo as músicas soar diferentes, do que ter múltiplos engenheiros trabalhando num projeto.

Como foi o clima durante as gravações do álbum? Demorou um pouco para a camaradagem retornar entre os membros da banda?

Isso é uma das coisas que eu acho que a percepção e a realidade eram um pouco diferentes.

Será que todos estava de mãos dadas e caçando borboletas num campo…não, mas essa nunca foi a situação de banda nenhuma — pelo menos eu nunca vi.

Sempre tem momentos de tensão em algum ponto da gravação de um álbum. Porém, é uma diferença criativa, não o tipo de coisa em que a pessoa esmaga seus instrumentos e vai embora.

É isso que torna excelente a banda que você ama. Com o Blink-182, você tem três caras vendo uma idéia a partir de três diferentes ângulos, com três fortes opiniões, com três diferentes resultados finais em mente e é essa combinação dos três que faz tudo ser especial.  A coisa que liga todos eles juntos, não importando a diferença de opiniões, é a vontade comum de fazer ótimas músicas e um ótimo álbum.

Teve muita pressão pra fazer o álbum logo e mandar para a gravadora?

Toda vez que existe um prazo concreto para se fazer qualquer coisa, a pressão se constrói gradualmente, especialmente quando a data final se aproxima. Minha posição diante disso foi: a única maneira deste álbum ficar pronto, é entregando isso no último momento possível.  É meio que a natureza da besta e é um jeito mais comum que você pensa. Além disso, o que teríamos feito com um mês de tempo extra?

 

PARTE II EM BREVE!