Uma nova Consciência Fraternal

Autor Por brunobld em 22/05/2009

Qual é o mal que se infiltrou em nossas comunidades e que está salgando a terra e impedindo a germinação de uma nova consciência fraternal? É a egolatria, o maior vício de nossos tempos. E o que é egolatria? Ego, em latim, significa eu. Na psicanálise, ego é a personalidade da pessoa; a experiência que ela tem de si mesma; o eu de qualquer indivíduo. Já o radical grego latria denota culto ou adoração. Portanto, egolatria é a adoração do próprio eu.

E não adianta querer fugir da verdade: somos indiferentes uns aos outros, egoístas e hipócritas. Lembro-me de ter ouvido sobre uma pesquisa realizada na Europa há algum tempo atrás, onde os entrevistados deveriam responder a esta simples questão: você preferiria ganhar 10 mil euros e seu vizinho também receber 9 mil euros, ou ganhar 3 mil euros e seu vizinho não receber nada?

Pra surpresa dos mais ingênuos, e pra desilusão dos mais bem-intencionados, a grande maioria dos entrevistados achou melhor ganhar menos, mas ganhar sozinho. Mesmo ganhando um pouco mais do que seu vizinho, o “homem-moderno-mediano” prefere largar mão de considerável quantia a ter de dividir as atenções e as alegrias com outra pessoa. Essa é uma triste, porém fiel, representação da nossa mesquinhez. Sinta vergonha ao ver o próprio retrato.

Pra quem acha que estou fugindo do tema música, que fique claro que qualquer arte que se preze deve retratar sua realidade, mesmo sendo a arte ficcional, pois o artista, querendo ou não, faz parte do mesmo grupo que queima mendigos, que devasta a natureza, que abusa de crianças e que comete tantas outras barbáries. Lembre-se disso ao procurar significados nas letras de seus ídolos. Alguns parecem não viver nesse mundo, outros parecem concordar com a resposta acima.

Para os afobados, pensem antes de encontrar um culpado pela nossa condição. Como eu costumo pensar o direito, colocar a culpa apenas no criminoso é querer se afastar da sociedade. É preciso que se entenda que quando uma pessoa comete um crime, todos nós estamos infringindo a lei. Pois não é apenas o infrator direto o culpado, mas, antes de tudo a sociedade, que é falha. Afinal, o fim primeiro de qualquer sociedade é o bem-estar de todos os cidadãos. Se os crimes acontecem, é porque a nossa sociedade não consegue atingir o seu objetivo final. As grandes infrações acontecem porque todos nós cometemos pequenas infrações todos os dias. O infrator, portanto, não deixa de ser uma espécie de vítima da sociedade. E, em uma última análise, todos somos vítimas e infratores ao mesmo tempo.

O que acontece quando uma determinada classe de trabalhadores promove uma greve? Claro, colocamos aqueles “vadios” em seus devidos lugares, não é? No entanto, quando os grevistas somos nós, maldizemos todos por não se unirem a nossa causa. Enxergamos apenas os nossos motivos, acreditamos apenas no nosso Deus, aceitamos apenas a nossa verdade – afinal, é muito mais cômodo. Não sejamos afobados, e procuremos enxergar, pelo menos, um palmo além do próprio umbigo.

E a “cereja no topo do bolo” do individualismo? Nos perfis de Orkut, encontramos milhares de pessoas cultuando a sua própria e carcumida auto-satisfação, em fotos e comunidades que nada de valor podem trazer. E, desconectados da sociedade como somos, quando ouvimos esse tipo de conversa ou acusação, de que somos um bando de egoístas da pequena elite de nosso país, devolvemos a ofensa com um sonoro “eu também tenho direito a me divertir”. Certamente que sim, assim como muitos tem o direito de passar fome, de sofrer e morrer de moléstias curáveis e de morar, com toda a família, em um barraco que mal cabe uma cama.

Mas é aí que uma voz forte e decidida se levanta, em meio a milhares de populares, e declara a plenos pulmões: a culpa é do governo! Sábias palavras… pena que, em nossa democracia de analfabetos, o governo seja eleito pelo mesmo povo que sofre e reclama. Pena? É claro que não. Os corruptos que dirigem o nosso país são nossos pais, tios, avós, primos… é gente como a gente, certo? É você, sou eu. E, enquanto isso acontece, vou usar o meu precioso tempo para cultuar o vazio, idolatrar o nada e praticar a ignorância. Por que? Ora, porque eu também tenho o direito…

Em um mundo onde os valores morais se dissipam como fumaça ao céu, vivemos sem poder ver esperança no futuro. Estamos a cavar nossos próprios túmulos, indiferentes que somos ao bem social. Um pouco de educação hoje, muita diferença amanhã.

LEANDRO DANI (leandro.feh) tem 21 anos. Vinte e um anos, e não sabe se viverá o suficiente para enxergar alguma mudança nesse cenário de indiferença. P.S.1: a mudança começa quando a sua cabeça muda. P.S.2: fiz o texto ontem em, no máximo, 20 minutos. Não corrigi, não reli. Se uma pessoa ler, gostar, e gritar mudança, em uníssono, comigo, já vai valer a pena ter deixado de dormir. Quero mudança de consciência!