Travis Barker abre o jogo sobre abuso de drogas, seu acidente de avião e pensamentos suicidas

Autor Por Danilo Guarniero em 19/10/2015

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Travis Barker finalmente vai lançar seu livro de memórias intitulado “Can I Say” no dia 20 de outubro (e já está disponível na Amazon, clique aqui).

Como ele já tinha dito anteriormente, esse livro conta a história de sua vida da forma mais honesta possível, passando por temas pesados como o abuso de drogas e seu acidente de avião, assunto que ele evitou falar na mídia mas que estará escancarado em sua biografia.

Ele inclusive cita que chegou a oferecer dinheiro para que alguém o matasse, depois do acidente de avião que sofreu em 2008. Clique aqui para ler na íntegra.

Abaixo você confere uma entrevista que ele deu para a Billboard onde conta mais alguns detalhes duros que estão expostos no seu lançamento, incluindo pensamentos suicidas (ele conta no livro que chegou a pedir para seu amigo Rob Aston, do Transplants, levar uma arma para o hospital para que ele pudesse terminar com tudo aquilo).

Seu livro é incrivelmente detalhado e honesto. Como foi o processo de escrita?

Valeu, cara. Foi tipo compor um álbum, pra mim. Eu passei muito tempo escrevendo e queria que fosse perfeito. Sabe, com as gravadoras é tipo assim “ei, você precisa terminar mês que vem!” e se as músicas ainda não estão prontas, você precisa adiar essa data. Eu quis tratar esse livro como um disco. Cara, é a minha vida e meu livro de memórias. Primeiro e único. Precisa estar no ponto.

Boa parte do livro fala sobre seus relacionamentos com mulheres. Em certo momento, você se chamou de “completo babaca” pelo jeito que você as tratava. Olhando para o Travis de 20 anos atrás, o que você diria para ele?

Naquela época eu estava vivendo um dia atrás do outro. Minha atitude era pensar que eu poderia estar morto amanhã. Perdi minha mãe quando era jovem. Usava muita droga. Quando fosse minha hora de morrer, seria a hora. Mas isso mudou quando eu virei pai. Foi aí que eu pensei, “Meu deus, o que eu coloquei no meu corpo? Por que eu fiz tudo isso?” Eu amei ser pai. Quero estar em casa com meus filhos, mas sou um músico e preciso fazer turnês. É como eu ganho a vida. Era esse toma-lá-dá-cá, e no fim eu precisava me medicar para ir embora. Eu lembro que eu estava no quarto, tipo, 6 da manhã, e eu pensava que ia ter que ir para a Europa no dia seguinte. Uma semana antes do acidente de avião eu tive pesadelos com acidentes. Sempre acontecia. Eu perdia o sono. Meu café da manhã eram quatro cigarros de maconha, quatro doses de Vicodin, uma de Valium e uma de Oxicitocina. Era a única maneira de eu sair de casa. Eu precisava me drogar antes mesmo de pensar em entrar no carro. Era foda.

Você casou e se divorciou duas vezes. Você está mais cauteloso ao entrar em relacionamentos agora?

Não, eu tenho um comportamento bem diferente agora. Mudou quando eu tive meus filhos. Eu queria ficar sóbrio por eles. Queria estar vivo e saudável por eles. Tanta coisa mudou, assim como minha relação com garotas. Cara, eu não tenho um relacionamento desde a minha última ex-mulher, Shanna [Moakler]. Eu saí com várias pessoas depois e tal, é legal, mas eu tenho tanto amor das minhas crianças. Fico tão satisfeito de tocar música e me manter ocupado com isso. Eu não tenho mais pique para estar em um relacionamento 24 horas por dia. Estou feliz com o jeito que as coisas estão agora. Música e meus filhos são a prioridade da minha vida.

Há muitos detalhes sobre os seus problemas com abuso de substâncias no livro. Qual foi seu ponto mais baixo?

Houve vários, cara. Ficar três meses longe dos meus filhos, em turnê, aquilo era difícil. Me fazia abusar extremamente. Mas acho que na Austrália em 2004 eu estava tão viciado em Oxitocina que tinha um segurança que praticamente dormia de dia pra ficar acordado de noite pra ter certeza de que eu estava respirando. Era bem patético. Meus ossos estavam frágeis de tantos analgésicos que eu tomava. Teve esse momento quando eu fui para a Europa para uma turnê e eu me via como um lixo. Eu não estava orgulhoso. Eu precisei ligar para o Mark [Hoppus] e dizer “ei, cara, eu tô beirando o suicídio. Estou enlouquecendo. Preciso ir pra casa.” E isso foi antes até do primeiro show da tour. Eu estava lá há dois dias. Não dormi uma noite sequer. Só conseguia pensar em voltar pra casa e colocar a cabeça no lugar. Acho que essa foi a coisa mais desapontadora.

Atualmente, qual é sua maior motivação para se manter sóbrio?

Estou sem usar drogas pesadas há mais de oito anos já. Mas eu parei de fumar maconha há uns quatro anos… E era algo que eu usava de boa, mas tive um aviso médico de que eu tinha células pré-cancerosas na garganta. Eu precisava de verdade estar sóbrio. Já foi minha época. Mesmo que eu só fumasse um antes de dormir eu ficava pensando se eu precisava mesmo daquilo, me perguntava se eu estava viciado. Pensava “isso é mais uma coisa que eu vou ter que esconder das crianças ou me envergonhar? E depois que eu fiquei limpo, e eu não ficava limpo há um bom tempo, eu só pensava “não posso mais voltar nessa”. E eu ainda sou grato.

Você escreveu que no dia do acidente você estava angustiado para subir no avião. Você confia mais na sua intuição agora?

Cem por cento. Nós chegamos no aeroporto e eu fiz o de costume: tomei os remédios. Daí eu liguei pro meu pai. Não sei por que, mas eu disse “pai, eu tenho um sentimento muito estranho sobre esse voo. Alguma coisa me diz que não tá certo.” E olha que eu já desisti de voar outras vezes. Mas eu disse, “eu te amo e se alguma coisa acontecer, tome conta das crianças.” E aí aconteceu…

Ao pensar no acidente, você dá mais valor para a vida agora? Qual é a sua mentalidade?

Eu olho pra trás e percebo que eu era esse pequeno punk abusando de pílulas todos os dias e usando toda essa merda de maneira recreativa – e eu não me orgulho disso. Daí você olha na cara da morte e quase morre em um acidente de avião, daí é forçado a ficar à base de morfina por quatro meses e pensa “olha como o jogo virou”. Saí de lá e recusei tomar os remédios para dor em casa. Eu tava com muita merda na cabeça no hospital também pra me afastar dos pensamentos como “Meus amigos estão mortos? Vocês vão amputar meu pé?” Depois disso, eu parei. Eu paguei um preço caro por me automedicar por tanto tempo. Eu acordei durante 11 das minhas 27 cirurgias [depois do acidente]. Não foi divertido. Daí você acorda e não sabe o que tá rolando, só sente uma dor extrema e tenta bater nos médicos. Isso realmente expôs a bagunça que eu era. Eu amava meus filhos, mas depois disso foi como se eu tivesse uma segunda chance na vida. Sem abuso de drogas. Já passei muito tempo com as crianças, mas especialmente agora eu só saio com eles. Na época do acidente eu fiquei meio maluco, também. Eu tinha medo de sair de casa, achando que algo ia cair do céu e me atingir. Eu esperava alguma merda acontecer a qualquer momento. Por isso eu decidi ficar em casa com eles até quando recuperei minha saúde.

Foi uma mistura da ajuda do psicólogo e do DJ-AM, meu amigo que estava completamente sóbrio e um ajudava o outro nisso. Nessa hora não existe doutor ou terapeuta que já sofreu um acidente de avião para você conversar. Não existe. Nós é que experimentamos isso, e aí tinha um site chamado Access Health onde achamos um espaço de pessoas que sobreviveram a acidentes de avião. Era estranho que estávamos ajudando uns aos outros a sobreviver. E eu apareci bastante por lá, porque eu perdi dois dos meus melhores amigos no acidente e foi difícil lidar com isso. E tem também tem a culpa do sobrevivente [condição onde o sobrevivente questiona o motivo por ter sobrevivido no lugar de outras pessoas que morreram no mesmo acidente]. Era muita coisa. Mentalmente, precisei de uns bons seis meses pra ficar com a cabeça no lugar.

DJ-AM morreu pouco menos de um ano depois. Passar por isso em um período de tempo tão curto depois do acidente mudou o jeito como você dá valor às amizades?

Ele era meu melhor amigo. Era além da amizade. Era como se ele fosse a única pessoa no mundo. E então eu o perdi e ficava pensando “porra, será que eu poderia ter feito algo?” Era uma coisa que nunca saía da minha cabeça. Quando eu olho para as coisas, vejo o que é e o que não é importante. E se alguém está passando por algo grave, posso dizer que antes de um acidente de avião… você não sabe o que é. Muito pouca gente passou por isso. A menos que você tenha passado por isso, você não sabe como é esse sentimento. Eu olho para as pessoas na rua e elas não têm noção de que nunca enfrentaram a morte cara-a-cara. Não se tocam o quão rápido qualquer desgraça pode acontecer, e geralmente não tem nenhum aviso. Mesmo no ônibus, às vezes, eu fico esperando por um impacto e as pessoas ficam tipo, “cara, tá tudo bem. Tá de boa. Respira fundo.” Mas todos os dias desde o acidente é um novo dia que eu desviei da morte. Tenho muita sorte.

Você se considera OK hoje?

Ah sim, cara. Tenho muito apoio. Tenho as crianças mais incríveis, não tomo mais medicamentos, não vejo um psicólogo há seis anos. Recebo tanto amor só de tocar e dos meus filhos. Não tem nada melhor. Não poderia pedir mais.