Talvez o maior medo de todos

Autor Por laisizzle em 09/04/2011

História verídica: quando eu era criança, minha maior vontade era aprender a tocar piano.

Eu queria muito saber desenhar, cantar e dançar, mas tocar piano vinha primeiro. Sempre que minha madrinha tocava teclado, eu fechava os olhos e me imaginava tocando aquela melodia num piano enorme, preto, reluzente. Pelo visto, meus pais estavam tão ansiosos para me ver fazendo isso quanto eu – ambos ficaram animados com a minha vontade. Um dia, um amigo do meu pai veio em nossa casa e eles conversaram sobre eu querer ser uma pianista. Não lembro como eu cheguei até ali, mas consegui ouvir parte da conversa: o amigo se mostrando feliz pela minha escolha, meu pai soando alegre com a mesma… Até que ele disse:

“Não sei se já te falei isso, mas uma vez eu sonhei uma coisa e queria que isso fosse verdade: Eu me vi sentado em uma poltrona, já envelhecido, olhando o pôr-do-sol, e então eu via a Laís logo atrás de mim, tocando piano. Ela tocava a música mais linda do mundo, sério – e então, eu fechava os olhos e ia. Depois que eu acordei, fiquei imaginando que, se eu pudesse escolher como seria a hora que eu fosse embora desse mundo, seria exatamente assim…”

Depois daquele dia, nunca mais pensei em encostar em um piano. Ver um me dava calafrios. Ouvir qualquer melodia, até hoje, me dá arrepios. Continuo achando a coisa mais linda do mundo, mas o fantasma dessa fala do meu pai que eu ouvi quando criança me dá até hoje um bloqueio que me faz nunca querer encostar em uma tecla. Não é como se eu achasse que, assim que eu tocar em uma, meu pai iria cair morto. Era a dúvida que me consumia. Pode ser agora, eu iria pensar toda vez que tocasse, quando criança. Pode ser agora, pode ser agora, pode ser agora. Melhor não arriscar.

Essa é a lembrança mais antiga que eu tenho sobre ter medo da morte. Até hoje não consigo lembrar de um medo que seja mais comum entre nós ou que traga maior comoção. Se até Jack Sparrow respondeu a pergunta “Do you fear death?” com um “You have no idea”…

Os piores pesadelos que eu tenho envolvem perder alguém que eu amo. Os momentos que eu mais quero esquecer são os que isso fatalmente aconteceu. Essa certeza que estamos todos sujeitos a isso e que não há nada que possa ser feito uma vez que acontece é tão assustadora que a maioria de nós sempre evita pensamentos sobre a morte. Talvez seja por isso que, quando ela nos é escancarada, não tem como evitar aquela sensação de um soco no estômago.

Talvez seja por isso que, essa semana, quando eu vi imagens de pessoas – principalmente mães – sofrendo pela perda de seus filhos na Tragédia em Realengo, eu tive que aguentar minhas lágrimas. Eu, que estou na faculdade me formando para ser uma jornalista, mal conseguia terminar de ver ou ler uma matéria em um jornal ou uma TV sobre o assunto. Queria poder falar sobre isso – dissecar o assunto, me revoltar, culpar o homem que fez essa atrocidade com uma ferocidade que me seria incomum. O homem era louco. O homem está morto. Quem eu vou culpar por isso? A vida?

“Para morrer só basta estar vivo”, dizia alguém por aí.

Decidi que a melhor maneira de tentar engolir esse assunto era escrevendo e, com isso, também tentar me confortar com palavras.

Estou tentando até agora.

 

Laís Cerqueira Fernandes tem 17 anos, conseguiu virar uma estudante de Jornalismo, é aspirante a escritora e anda meio sem palavras confortantes ultimamente.