Viver é como andar sobre uma corda bamba. Não basta apenas o nosso próprio equilíbrio e, de acordo com o sopro do acaso, caímos e mergulhamos para uma morte certa. Tal foi o recente caso do desastre aéreo do vôo AF 447, da Air France. Aqueles que embarcaram jamais imaginaram o terrível fim que os aguardava. No final da tarde de domingo, às 19 horas, aproximadamente 230 pessoas embarcaram no avião Airbus A330-200, partindo do Rio de Janeiro e com destino a Paris. Quatro horas após a decolagem, não havia mais quaisquer notícias da aeronave. Ainda não se sabe exatamente o ocorrido, e os destroços até o momento não foram encontrados. Apesar disso, não há a possibilidade de sobreviventes.
Havia somente mais um vôo realizado pela Air France nesse dia, deixando o Rio em direção a Paris. O vôo AF 443 saía do aeroporto Galeão às 16h20, e percorreria exatamente o mesmo percurso que o vôo seguinte jamais conseguiu completar. Dentre os ocupantes desse primeiro avião, havia alguém que conheço – meu pai. No dia seguinte, quando as notícias do acidente irromperam nos meios de comunicação, eu ainda estava dormindo. Felizmente, entre o momento em que soube do acidente, e aquele em que recebi a confirmação de meu pai de que ele estava bem, decorreu pouco tempo. Além disso, não poderia imaginar que a Air France mantinha apenas dois vôos com destino a Paris naquele dia, e não me ocorreu que o avião de meu pai poderia ser o desaparecido. A ignorância é felicidade. Meus familiares no Rio, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Minha madrasta, meus tios e (prefiro nem imaginar!) minha avó sofreram durante algumas horas de incerteza. E se ele havia mudado de vôo? Numa hora como essa, sempre tememos o pior. Após muitas ligações, meu tio confirmou o embarque de meu pai no vôo das 16h20. Poucas horas mais tarde, meu pai enviou-nos um e-mail, expressando sua surpresa com o ocorrido. Seu vôo havia sido normal, exceto algumas turbulências mais fortes. Neste momento em que escrevo, ele permanece na Europa, saudável.
O que de início não me surpreendeu, após algumas horas pegou-me de surpresa: e se ele houvesse embarcado naquele vôo? Afinal, era uma chance em duas. Ele poderia igualmente ter entrado no vôo das 19 horas – ora, por que não? – e, então, neste exato instante… bom, melhor não imaginar. São tantos os dias em que ele poderia viajar, tão vasto o número de destinos à disposição, de forma que ele escapou por um triz de um fim inesperado e tenebroso. Durante alguns dos dias que se seguiram à tragédia, eu me vi repentinamente cogitando um desfecho mais trágico para o ocorrido. Distraído, tal pensamento surgia em minha cabeça; quando prestes a dormir, invadiam-me idéias das mais terríveis. Não posso reproduzir, em um mero texto, todo o teor das imagens que me assombraram. Não é nada fácil perder um pai, ou um parente próximo. Tais pensamentos logo me levam a todas as reais vítimas do acidente aéreo. Quantos pais, quantas mães, quantos filhos e amigos não foram perdidos naquela noite? E que forma trágica de se perder alguém! Confiamos que, em algumas horas, ela voltará a pisar em terra firme, porém…
Penso, é claro, no acidente que envolveu Travis ano passado. Tendo-se em conta a diferença de escala de ambos os desastres, ele padeceu da mesma dor, pois perdeu dois de seus amigos de modo igualmente inexprimível. As famílias dos falecidos sofreram uma perda irreconciliável, suas rotinas alteraram-se de maneira brusca, um vazio se fez para elas, e nunca poderá ser preenchido. Após “brincar” com as possibilidades que me causariam semelhante lesão, sou capaz de ao menos imaginar aquilo por que passaram todos os familiares dos envolvidos nos desastres. Como eu estaria agora, caso os fatos houvessem se desenrolado diferentemente? Estaria no Rio de Janeiro, com minha família, e todos nós estaríamos acabados. Não seria simplesmente como se surgisse uma pedra em nosso caminho, e precisássemos contorná-la para seguir adiante. Seria como se encontrássemos uma verdadeira fenda aberta por um pavoroso terremoto. Nada mais seria o mesmo.
Movido por uma irresistível curiosidade, perguntei ao meu pai, por e-mail, qual havia sido o motivo por trás de sua escolha do vôo das 16h20, em lugar do das 19 horas. Ele me respondeu que não havia sido ele a escolher o vôo. Ele forneceu a data da viagem a uma agência, e foi ela a responsável por reservar o vôo em seu lugar. Um frio ainda maior percorreu minha espinha. Não havia um motivo razoável para ele ter escolhido um horário em detrimento do outro. Havia sido puro acaso. Um funcionário anônimo de alguma agência escolheu o destino de meu pai, e o que o moveu em sua decisão ao se deparar com os dois possíveis horários nós nunca saberemos. Minha família foi agraciada pela sorte, e nos encontramos agora felizes e aliviados. Outras centenas de famílias, porém, acham-se desoladas neste mesmo instante. O que determina o destino de um ou de outro, o que assegura que um viverá, enquanto outro provará o gosto da morte? Em última instância, parece ser o acaso. Enquanto nos esforçamos por agarrar o tempo, ele escorre por entre nossos dedos, em seu fluir contínuo. Não podemos jamais medir seu término, restando-nos apenas empregar bem o tempo presente, satisfazendo-nos com este pouco que temos em nossas mãos.
MARCELO CAMARGO tem 23 anos, estuda atualmente filosofia, já iniciou faculdade em cinema, porém sem completá-la, adora artes, como cinema, literatura, música e video-games. Espera utilizar seu espaço no Action182 como um lugar de reflexão, e gostaria de motivar outros fãs a fazerem o mesmo.