Só isso?

Autor Por laisizzle em 25/06/2012

“Será que é só isso?”

Eu olhei para ela, parada ali, cigarro entre dois dedos pousado na sua boca. Seus olhos finos – só não mais estreitos que seus lábios – fitavam o balcão do bar.

“A festa mal começou”, respondi, dando de ombros e tentando não tossir com a fumaça.

“Não tô falando da festa, estou falando de nós”, ela devolveu, rápida, ríspida. Nem uma olhadinha na minha direção.

“Que foi, tá acabando com a nossa amizade?” brinquei, disfarçando a tosse que finalmente chegou com uma risada.

“Não, eu digo o fim das nossas vidas”. Ela finalmente me olha. É pálida como a lua, mas tem quem a ache tão radiante como o sol.

“Será que é só isso?” ela continua, movendo o cigarro da boca e pousando-o delicadamente na borda da mesa. “Fechamos os olhos. Ou os fecham por nós. Vamos embora daqui, deixamos só essa carcaça que chamamos de corpo…”

“… Mas você é uma simpatia…”

“… vamos embora, vamos pra longe. E fim. Só isso? Acabamos? Mais nada, só o chão para o nosso corpo e o infinito para o que restar da nossa imaginação?”

“Eu gosto de pensar que não, não acabamos”, retruco, virando para fitar o balcão do bar também, focando no líquido colorido que só pode ser absinto. Um garoto vira todo o copo dentro da boca, sorridente, bochechas coradas. “Me dá um medo. Um medo maior do que eu posso calcular.”

“Medo.” Ela repete. Não pergunta. Não desdenha. Só repete.

“Igual quando eu era criança, fitava o horizonte e achava que não tinha fim. Só um mar de ar, dando a volta no planeta, engolindo todo mundo sem que ninguém perceba. Ou quando olhava o mar, mesmo, o cheio de água, que não parava nunca e nem parecia começar ou terminar. Me dava um conforto, aquilo. Sempre achei confortável saber o quão pequena eu era perto dessas coisas.”

Voltei a olhar para ela.

“Não gosto de pensar que elas tem fim. Se elas terminam, porque uma coisinha feito eu não iria acabar também?”

“Porque você tem um abismo dentro de você”, ela falou, meio séria, meio rindo. “Aquele treco que chamamos de alma.”

“Quem é que disse que o horizonte e o mar também não tem?” Ela rolou os olhos, como quem dizah, olha só, seu sangue indígena falando. “Quem é que disse que o abismo não termina?”

“Melhor nem procurar saber. Dizem por aí que quando você olha demais dentro de um abismo, o abismo olha dentro de você.”

“Nietzsche.”

“Que foi, espirrou?”

“Não, Nietzsche, a frase é do Nietzsche.”

“Isso. Isso mesmo.”

“Nietzsche.”

“Saúde.”

E voltou com o cigarro para a boca, sorrindo. Eu olharia para o horizonte se não tivessem prédios obstruindo a visão. Queria olhar pra ele e perguntar do abismo. Baixinho, ao pé do ouvido. Você tem alma?, eu perguntaria. Você tem fim?

Pena que, no papel, não faz tanto sentido assim.

 

Laís Cerqueira Fernandes tem 19 anos, já está no terceiro período da faculdade de Jornalismo, ainda insiste nisso de ser escritora e olha pro abismo mais do que devia.