Site australiano publica artigo em defesa do blink-182

Autor Por Angélica Albuquerque em 09/09/2012

Um dos sites de música mais influentes da Austrália, Faster Louder, publicou um artigo sobre o blink-182 na sexta-feira, 7 de setembro, aproveitando o falatório sobre a banda pela terra dos cangurus, já que o trio será uma das principais atrações do festival Soundwave 2013.

Escrito por Sarah Smith, o texto faz parte de uma série que dá apoio para artistas que são mal interpretados, julgados de forma inadequada.

Abaixo, confira a publicação na íntegra e em português.

 

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Em defesa do blink-182 – “Enema of the State”

Aqui no FL, nós achamos que qualquer um – até mesmo o Nickelback – merece uma oportunidade, e é por isso que criamos uma série na qual apoiamos artistas e entramos na batalha por eles. Nessa semana, é a vez dos headliners do Soundwave, blink-182, que viraram o mundo do punk de cabeça para baixo com seu hit de 1999, Enema of the State.

Foi o pior dos tempos…

blink-182 é para o punk o que Silvio Berlusconi (supostamente) é para a política italiana: peitos, sexo oral e festinhas “oba-oba”. Explodindo na  cena em 1995 com cabelos descoloridos e shorts cargo,  eles não poderiam se importar menos sobre o sofrimento de Jello Biafra para resgatar a Califórnia das garras de “hippies-fascistas” ou da luta de Henry Rollins sobre a classe média americana – eles só queriam tocar guitarra e transar.

Inspirado por The Descendents, o blink tornou as coisas mais simples e harmoniosas, e martelou no cérebro de rapazes (e garotas) adolescentes de todo o mundo. De algum modo, suas vozes melosas e suas incessantes piadas sobre mães, romperam uma geração de adolescentes que estavam cansados de camisas de flanela e prontos para admitir que a MTV tinha vencido a guerra. Kurt estava morto e o pop-punk estava vivo.

Introduzindo: “Enema of the State”

O ano era 1999 e o mundo estava prestes a ficar encantado com a virgindade de Britney Spears, com a sexualidade de Ricky Martin e com a barriga sarada de Christina Aguilera. O terceiro disco dos Backstreet Boys ficou no topo das paradas da Billboard e vendeu 9,5 milhões de unidades –  1 milhão a menos que “Human Clay”, do Creed, e 4 milhões a mais que “Significant Other”, do Limp Bizkit.

Em meio a esses roqueiros cuidadosos e estrelas do pop inocentes, o “Enema of the State” foi u alívio muito bem-vindo; era rápido, divertido e descaradamente burro. E como Homer Simpson e Fat Mike podem atestar, às vezes a burrice funciona.

Como fazer um álbum de pop punk
Como fazer um álbum de pop-punk: misture um pouco de músicas sobre festas, sobre alienígenas e sobre transar, e você terá o “Enema of the State”.

“Na, na, na, na”

Assim como um adolescente esquisito que o corpo em mutação se encaixou melhor em roupas de skate do que em blusinhas mais curtas, “Enema of the State” foi uma revelação. Enquanto as garotas andavam pelo pátio da escola em seus uniformes regulares murmurando o refrão de “Genie in a Bottle”, da Christina Aguilera – sem se importar com a letra correta da música – eu me refugiei em músicas que abordavam um desses assuntos: fracasso ao flertar com pessoas do sexo oposto e festas.

As letras do blink surgiram prontas para serem rabiscadas nas mesas da escola, ou cantadas fora do tom, em protesto aos seus pais por não deixá-lo ir a eventos adolescentes cujo as atrações eram Area 7, 28 Days ou One Dollar Short. Nas palavras da Rolling Stone, “blink-182 faz um som para quem está de saco cheio, tão acolhedor como o som de uma lata de cerveja se abrindo”.

Músicas para pessoas com DDA
Música para pessoas com Distúrbio de Déficit de Atenção: tempo médio das canções (em minutos) x título de álbuns

Enquanto Anthony Kiedis dava um tempo para suas injeções de oxigênio e fazia rap sobre os “primeiro unicórnios nascidos” e criticava a vida de ricos e famosos em “Californication“; Mark, Tom e Travis estavam falando sobre a existência de alienígenas e caras chamados Tony, como na letra de Dysentery Gary. Suas letras também proporcionaram um grande alívio das baladas de amor açucaradas, que foram dominando as paradas no final dos anos 90. Uma comparação:

“Como o Dr. Zhivago. Todo o meu amor eu darei” – “The Hardest Thing”, 98 Degrees

“Como uma pedra, você esperou pacientemente” – “What A Girl Wants”, Christina Aguilera

“Como uma bala em seu cérebro. De fora pra dentro, ela está vivendo a vida loucamente” – “Livin La Vida Loca”, Ricky Martin

“É como o oceano sob a lua. É a mesma emoção que eu recebo de você. Você tem esse jeito de amar tão incrível” – “Smooth”, Santana com participação de Rob Thomas

“Diga que não é assim, eu não irei. Apague as luzes, me leve pra casa. Na, na, na, na, na, na, na, na, na” – “All The Small Things”, blink-182

Gráfico: o tempo que levou
O tempo que levou para: Travis Barker aprender todas as músicas da banda, após substituir Scott Raynor; defender blink-182; Azelia Banks fazer show completo em 2 festivais; ver Usain Bolt correr 100 metros 281.83 vezes: 45 minutos.

“Crappy Punk Music”

“Em vez de tentar fazer tudo certinho, nós gostamos de fazer uma coisa realmente terrível.” – Mark Hoppus.

O blink nunca levou a si mesmo ou suas músicas muito a sério. Eles não estavam tentando reinventar nada e certamente não se consideravam salvadores do punk rock. Tom e Mark tocam três acordes, criam melodias simples e  enquanto amadureceram como talentosos compositores, nunca tiveram vergonha de rotular sua banda de punk como “crappy”, ou seja, uma porcaria. Eles até fizeram seus produtos assim. Argumentar que uma banda escreve músicas ruins quando todos os seus integrantes concordam plenamente com isso, é redundante e exatamente o tipo de reação que os três garotos de 20 e poucos anos queriam incitar quando escreveram uma música como “Dumpweed“.

blink-182: crappy punk rock

Mesmo se você considerar a banda indigna da palavra “punk”, suas músicas fáceis agem como uma perfeita ligação para músicas de punk que são “importantes”. Para muitos adolescentes, o blink-182 foi o irmão mais velho que lhes apresentou aos clássicos. “Chesire Cat” e “Enema of the State” abriram o caminho para NOFX, Screeching Weasel, Descendents, The Vandals, Buzzcocks e, eventualmente, The Clash. Se um punhado de músicas punks ruins com “um monte de palavras bobas e melodias simples” podem levar um adolescente à genialidade de Joe Strummer, então seu propósito foi alcançado, certo?

Fluxograma: de blink-182 a The Clash
Fluxograma de blink-182 à The Clash

Sem blink, sem Paramore

Embora dizer que o Paramore não existiria se não fosse pelo blink-182 não possa ser considerada uma boa defesa, é um argumento ideal para realçar sua influência na guitarra pop moderna. Em 2011, o New York Times declarou que “nenhuma banda punk dos anos 90 foi mais influente que o blink-182. Sua sonoridade e seu estilo podem ser ouvidos no pop punk muscular do Fall Out Boy ou na onda atual de algumas bandas de punk da Warped Tour.

Aliás, dezenas de bandas do Soundwave (do passado e do presente) citam a banda como influência musical – Paramore, New Found Glory e All Time Low. Além do impacto direto que suas composições tem na música moderna – assim como Nirvana usava sua fama e sucesso para introduzir ao mundo bandas contemporâneas pouco conhecidas, como The Melvins e Meat Puppets – o blink-182 usou sua popularidade para tirar do escuro bandas como Jimmy Eat World e Motion City Soundtrack.

Dando uma ajuda para uma atriz pornô

Quando o “Enema of the State” foi às lojas em 1999, a Associação Americana da Indústria Musical imediatamente colou um adesivo em sua capa, avisando que o álbum era “para maiores de 15 anos”. Enquanto isso, garotos adolescentes ao redor do mundo se apaixonaram pela “enfermeira gostosa” que a estampou.

Enema of the State: capa

Acredite se quiser, a mulher na capa está longe de ser uma enfermeira de verdade, mas a atriz de filmes adultos, Janine Lindemulder, foi escolhida pela banda, segundo Tom DeLonge, porque todos admiravam sua preferência por mulheres. Não podemos acusá-los de não conhecerem seu público.

Wikipedia nos diz, autoritariamente que o “Enema of the State” é um trocadilho bem-humorado sobre o termo ‘inimigo do estado’, já que ‘enema’ significa lavagem intestina. Entretanto, o título original era “Turn Your Head and Cough” (em português, “Vire a Cabeça e Tussa”), o verdadeiro motivo para a arte da capa apresentar uma voluptuosa enfermeira usando uma luva. De acordo com a séria explicação do fotógrafo David Goldman, “obviamente, uma lavagem intestinal não é um caso onde você precisa de luvas.”

Janine ainda apareceu em dois vídeos da banda e casou com o ex de Sandra Bullock, Jesse James. Sucedendo sua prisão por sonegação fiscal e violência doméstica (contra Jesse James) no começo deste ano, ela se tornou assunto para uma piada de internet que destacou sua dramática transformação desde a garota da capa, até sua foto como presidiária. Mas alguém se importaria com isso se não fosse pela capa do blink-182?

Concluindo…