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Uma carona para a Califórnia com o blink-182

Autor Por Danilo Guarniero em 01/07/2016

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Caso você ainda não tenha ouvido California, o novo disco do blink-182, clique aqui!

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Uma resenha do novo disco do blink-182 – Por Marcelo Ferraz

Quando uma banda consagrada que marcou uma geração inteira (e envelheceu com ela), passa o marco dos 20 anos de carreira e de estrada, alguns questionamentos naturalmente devem acontecer em relação aos próximos passos a serem tomados: Fazemos turnês gigantes tocando os grandes sucessos para celebrar a nossa carreira? Entramos em estúdio e continuamos tentando evoluir o trabalho que construímos até agora? E se entrarmos em estúdio, vamos nos desprender do som que nos tornou a banda que somos hoje, nos desafiar e empurrar os limites para cima ou manter o time que estava vencendo em campo e oferecer mais do que sempre fizemos tão bem feito?

Todas essas decisões já são naturalmente bem difíceis de serem tomadas, mas no caso de uma banda como o blink-182, tudo sempre pode se tornar mais complicado do que deveria. A (segunda) saída abrupta do icônico, e às vezes controverso, guitarrista e vocalista Tom Delonge da banda no ínicio de 2015, seguida de uma grande D.R. pública onde Delonge de um lado, Mark Hoppus (baixista e vocalista) e Travis Barker (baterista) de outro, trocaram acusações e até desavenças através da imprensa e das redes sociais, criou um fator extra nas complicações que já envolviam os próximos capítulos na história da banda.

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No meio desse turbilhão, entra Matt Skiba. O respeitado e talentoso vocalista e guitarrista do Alkaline Trio foi convocado como a única opção possível para assumir a responsabilidade de ocupar a vaga de Delonge e sua voz marcante por 3 datas já previamente agendadas em 2015, afinal, o show já estava parado a tempo demais. A química aparentemente foi tão grande durante esse período que o próximo passo pareceu até óbvio: Skiba, Hoppus e Barker seriam a nova encarnação do blink-182 em estúdio, adicionando mais um elemento na equação para responder todas as questões levantas acima: Se a missão do blink-182 de se manter operante e relevante em 2016 já parecia complicada, como fazer tudo isso com uma nova voz na banda ainda por cima? Como os fãs reagirão? A quebra no padrão poderia ser fatal, afinal, um dos elementos principais do trio estaria ausente, e inevitavelmente isso mexeria com a memória afetiva de uma porcentagem da audiência da banda.

É nessa situação que chegamos à ‘California’. O novo disco do trio, nomeado não só como uma homenagem, mas uma reflexão sobre o estado norte-americano que abrigou toda a história desses 20 e poucos anos de carreira, será lançado no dia 1 de Julho para por fim à todas as especulações e marcar mais um recomeço para a banda. O álbum, além de ser o primeiro da discografia sem Tom Delonge, é também o primeiro desde 2003 a contar com um produtor orientando os trabalhos em estúdio. Sem a presença de Jerry Finn (falecido em 2008), muitos questionavam a capacidade da banda de soar harmoniosa e concisa sem um produtor na sala técnica. Pensando nisso, Travis Barker trouxe John Feldmann (Goldfinger) para colocar ordem no processo e ajudar a banda nessa nova jornada. E a presença de Feldmann se torna muito clara desde o primeiro momento que você aperta play para ouvir o álbum. A produção polida, a parede de som que eleva o volume do disco à uma altura constante e a orientação pop nas composições são características clássicas e evidentes entre todas as bandas que já tiveram o competente, sorridente e empolgado John Feldmann assinando os seus trabalhos (exemplos recentes incluem 5 Seconds of Summer, Good Charlotte, All Time Low, The Used, Panic At The Disco e Black Veil Brides). O produtor também fez o trabalho de co-autor e tem créditos em praticamente todas as músicas do disco, fato esse que levantou uma certa desconfiança a respeito do material novo da banda entre fãs mais conservadores.

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Contudo, a escolha de Feldmann para esse trabalho é completamente justificável, pois quando ouvimos o disco do começo ao fim, se torna clara a intenção do blink-182 de lançar ‘O Despertar da Força’ de sua carreira: um disco para relembrar todos os motivos pelos quais gostamos tanto dessa sensação de ‘juventude eterna’ que a banda traz consigo, mas que também servirá para apresentá-los às novas gerações. ‘California’ é um disco que abraça as raízes da banda que praticamente inventou o pop-punk como o conhecemos hoje (mesmo tendo The Offspring e Green Day como grandes forças do gênero despontando antes deles nos anos 90), e tenta trazer essa sonoridade para a realidade do ano em que vivemos. Não é um disco feito somente para agradar os fãs antigos da banda e celebrar a sonoridade clássica que o blink construiu, mas sim para conquistar uma nova geração de adolescentes ao redor do mundo, que poderiam muito bem terem as suas memórias e lembranças marcadas pela mesma banda responsável pela trilha sonora da geração anterior.

Essa ambição se torna evidente em faixas como ‘Sober’, (assinada em co-autoria com o vocalista do Fall Out Boy, Patrick Stump) e ‘Home Is Such a Lonely Place’, uma balada sobre as despedidas que acontecem em nossas vidas e que tem potencial para tomar as rádios do mundo de assalto e aumentar em alguns milhões os contadores de execução dos serviços de streaming.

 

Fãs mais antigos do blink se sentirão plenamente realizados ao ouvirem músicas como ‘Cynical’, a melhor abertura de álbum da discografia do trio, com Hoppus e seu baixo se aventurando sozinhos nas primeiras linhas de um desabafo sobre o futuro – “Tem um sentimento cínico me dizendo que eu deveria desistir. ‘Você já disse tudo que deveria dizer.’”- para depois serem acompanhados da explosão de Travis Barker na bateria e os vocais energéticos e melancólicos de Matt Skiba em uma faixa memorável que merecia mais do que os seus 1:55 min de duração.

‘Teenage Satellites’, ‘Left Alone’ e ‘The Only Thing That Matters’ também são pontos altos que farão os fãs mais antigos sorrirem de orelha a orelha e admitirem que Matt Skiba não só entendeu o recado, como deu conta da missão de reproduzir a sonoridade esperada do blink-182. Além disso, as faixas rápidas e bem humoradas, ausentes desde o disco Take Off Your Pants and Jacket (2001), ganham novamente espaço com ‘Built This Pool’ e ‘Brohemian Rhapsody’, para relembrar a veia humorística que a banda sempre trouxe consigo, mas que não necessariamente beneficiam o andamento do disco.

 

A epopeia saudosamente californiana do blink pode não gerar identificação imediata com os fãs do resto do mundo que não conhece a realidade do estado norte-americano, mas não tira o brilho de faixas como ‘Los Angeles’, uma quebra experimental no disco, com refrões pesados e carregados de drive na voz impactante de Matt Skiba e ‘San Diego’, uma faixa que remete um pouco à melancolia do Alkaline Trio e do +44.

A música título ‘California’ contudo, não entrega um fim à altura do que era esperado, apesar da tentativa das sempre impecáveis linhas de Barker de fazer o álbum se encerrar em uma crescente instrumental. A letra, um ode à vida na California, é alienante e expõe um dos pontos fracos do disco: composições um tanto previsíveis e repetidas em diversos momentos.

De qualquer forma, ao final das suas 16 faixas e 42 minutos de duração, ‘California’ deixa a sensação de missão cumprida ao apresentar um blink-182 revitalizado, que precisava fincar a sua bandeira de volta ao mercado mainstream (O excelente single ‘Bored To Death’ atingiu a marca #1 nos charts alternativos da Billboard recentemente), reafirmar a sua identidade e tirar o peso nas costas de tempos turbulentos e indefinidos. As portas definitivamente estão abertas para o futuro da banda, e se depender da quantidade de músicas compostas e descartadas durante o processo de gravação, certamente ouviremos mais do trio californiano em breve.

Leia também – Resenha: uma visão mais pessoal de California (por Bruno Clozel – Action182.com)