Qual é a nossa idade, mesmo?

Autor Por laisizzle em 21/05/2010

Ontem cometeram o sacrilégio de me dizer que a juventude é a melhor fase da nossa vida – e, quando eu digo “juventude”, não quero dizer essa fase que eu, você e especialistas chamamos de “adolescência” e os mais velhos chamam de “aborrecência” como se esse, meu Deus, fosse o melhor neologismo do mundo. Quem me disse isso estava falando dessa fase, dos 16 anos pra mais, onde já nos consideramos espertos o suficiente, nos viramos muito bem e começamos a nos tornar plenamente independentes. Bom, claro que há exceções (tipo aquele menino que todo mundo conhece que ainda faz piadinhas dignas de um garotinho na segunda série).

Então, voltando à nossa afirmação inicial… “ARE YOU KIDDING ME?” foi o que eu quis berrar para a pessoa que me falou esse absurdo, acompanhado, logo em seguida, por outra pergunta: “Hey, sério, você não teve infância?”.

Porque não é possível. Eu, com meus 17 anos recém feitos, posso falar disso sem pestanejar: Não é de todo ruim, mas está longe – bem longe – de ser a melhor fase que eu já vivi. Eu posso sair, mas ainda dou satisfações quando chego em casa. Não sou mais criança ou adoslecentezinha, nem tampouco madura o suficiente porque ainda não tenho 18. Mesmo quem já passou dessa fase sabe que é um período de dúvidas e confusões internas; geralmente é quando decidimos que faculdade cursar, por que trabalho optar, por sair ou não de casa. E, deixando esse papo um pouco “adolescente revoltado” de lado, quem é que não sente saudades da infância?

Infância: essa sim é a parte boa da vida. Charles Chaplin não estava de brincadeira quando disse que o fim ideal para a nossa vida seria virar criança, não ter nenhuma responsabilidade, se tornar um bebezinho de colo, voltar para o útero da nossa mãe e etc (sim, sim, é aquele texto que diz que a nossa morte deveria ser um “ótimo orgasmo” porque, supostamente, foi como tudo começou. Você já deve ter lido esse em ums milhares de “about me” pelo Orkut. É, também doía no meu coração vê-lo banalizado assim!). Quer coisa melhor do que essa época em que tudo é novo – aquele primeiro pôr-do-sol foi com certeza o mais lindo de todos -, mais leve e, ao mesmo tempo, muito mais intenso? Derramar leite e achocolatado na sua blusa branca hoje lhe renderia um bom palavrão e vários pensamentos sobre como se livrar dessa mancha maldita que você  provocou ou, quem sabe, trocar a blusa. Quando criança, isso dispararia uma adrenalina em você e o faria pensar em mil planos para tentar esconder a blusa da sua mãe ou, quem sabe, conseguir tirar a mancha antes dela ou seu pai chegarem. O nome disso não era exagero – é intensidade.

Isso mesmo. Intensidade deveria ser a palavra-chave para a definição de infância, quando brincávamos pra valer, chorávamos pra valer, brigávamos pra valer, vivíamos pra valer. Não essa intensidade fajuta em que vivemos hoje, onde para cada saída com os amigos tem horas a mais de estudo, ou uma ida ao bar só é liberada depois de fazer um trabalho para a faculdade ou sair de mais um dia no emprego.

Já na adolescência começamos a acreditar – veementemente – que já somos gente. Queremos mais daquilo que chamamos de liberdade e ainda exigimos proteção e tratamos as obrigações com descaso. Sentimos tudo de forma extrema – ou com importância ou ignorância completa. Isto ou aquilo, 8 ou 80. Mal sabemos – ou sabíamos – que, como diria um tal de Art Linkletter, “as fases do homem são infância, adoslecência e obsolescência”. Tudo o que passamos na segunda é só um preparo para a última, ao mesmo tempo em que é uma despedida saudosa da primeira. E não precisa correr pro Dicionário (eu também fiz isso, juro) porque eu já trouxe o significado de obsolescência prontinho pra você: é “O fato ou o processo de tornar-se obsoleto” e, “obsoleto”, meus jovens, é nada mais, nada menos, aquilo “que caiu em desuso; arcaico”.

E eu sei que, agora, você provavelmente vai dar mais valor e, ao mesmo tempo, ter mais saudade dos tempos que você se achava o rei ou a rainha do mundo mas, sempre que as coisas ficavam feias, corria para a sombra da sua mãe, pai, tio ou avó. Mas meu papel aqui não é só te deixar loucamente nostálgico com essa coluna e sim te lembrar que eu tenho certeza que você, e a grande maioria aqui, é exatamente como eu: Carregamos um pedaço da nossa infância (e, quem sabe, um pouquinho da parte boa da adolescência) ainda conosco e elas ainda se fazem presentes em várias ações e pensamentos nossos. Bom, eu defendo que isso não é criancice, não: É um método de sobrevivência. Porque, cá entre nós, gente como a gente (e como esses crianções que costumamos idolatrar e fizeram a grande “What’s My Age Again” virar um hit) nunca vai ter uma obsolescência de toda obsoleta. E isso, meus caros, é o que importa.

Laís Cerqueira Fernandes tem 17 anos, é estudante do Ensino Médio, futura estudante de Jornalismo, aspirante a escritora e tem um orgulho fora do normal em vestir uma tal blusa com os dizeres “What Is My Age Again?”. Será que alguém aqui sabe do que ela tá falando?