Preto e Branco

Autor Por laisizzle em 16/10/2011

Uma mulher negra, baixinha, sorriso fácil, olhos astutos. Tudo começou quando ela trabalhava em duas casas como diarista. Antes, havia trabalhado em bares, lanchonetes e restaurantes (ou seja, ainda por cima, a danada tinha um incrível dom para cozinhar). Suas duas patroas a adoravam e, certa vez, decidiram pedir para que ela virasse uma espécie de governanta das suas casas – mas, para isso, ela teria que escolher ser fiel a uma das duas, já que deixaria de ser uma diarista e compareceria todos os dias úteis. Como as duas patroas estavam grávidas, a mulher estabeleceu que quem tivesse o bebê primeiro seria a pessoa para quem ela trabalharia. A mulher era muito religiosa – acreditava que aquilo seria uma espécie de sinal divino.

Eventualmente, um dos bebês nasceu: uma menina. A mulher foi para a casa dela e se tornou, ao mesmo tempo, governanta e babá. Foi visitar a menina ainda no hospital e reza a lenda que ela, quando abriu os olhos e enxergou a mulher, balbuciou “Ieié” – não era assim que se chamava de verdade, obviamente, mas a mulher passou a atender por esse nome. Com o passar dos anos, a figura de Ieié era assimilada como a de uma mãe pela menina – não que ela não considerasse sua mãe biológica, mas é que ela sentia um tipo de carinho parecido pelas duas. Criança não gasta muito seu tempo pensando demais em muita coisa, então para a menina ficou assim a diferenciação: Ieié era a Mãe Preta, sua mãe biológica era a Mãe Branca.

Bem dessa forma. Sem nenhum tipo de discriminação ou julgamento, apenas uma distinção estabelecida por uma consciência infantil, tão óbvia para a menina como a divisão das peças do xadrez entre brancas e pretas. Mãe Branca e Mãe Preta, uai. Não via nada demais naquilo.

O tempo – como era de se esperar, já que esse é o seu papel – foi tratando de colocar as rédeas e frear, sem hesitação, a percepção da menina. Com o passar do tempo ela notou os olhares quando mencionava Ieié, a forma como as pessoas a tratavam e o jeito que suas expressões contorciam-se em algo perto do horror quando citava sua Mãe Preta. Como quem se adapta, ela aboliu aquela distinção – Ieié era só Ieié, sua mãe era apenas sua Mamãe – e só se arriscou a revivê-la em um meio que ela não julgasse hostil.

“Não pense que eu não te amo, Ieié.” Uma vez a menina sentiu a necessidade de explicar, temendo más interpretações.

“Eu também”, Ieié respondeu. Ela tinha essa extrema dificuldade de falar “eu te amo”; era sempre “eu também”. Aquela frase hesitava mil vezes antes de sair dos seus lábios. A menina não julga e até compreende. Ela reconhece as feridas que Ieié escondia naquilo que todos chamam de coração. “Não se preocupa, menina. Eu sei que sou sua Mãe Preta.”

A menina suspirou, aliviada.

“Ainda bem.”

Essa semana, em uma das minhas aulas, minha professora passou um vídeo que mostrava a utilização de um método para combater o racismo que é, no mínimo, surpreendente: conduzidos por uma mulher branca, jovens de olhos claros passam duas horas e meia sendo discriminados por ela e pelos demais companheiros de olhos escuros da mesma forma que os grupos minoritários – especialmente os negros – seriam reprimidos em seu cotidiano. A justificativa era de que as pessoas que não sofrem nenhum tipo de preconceito por motivos que possam ser associados à sua imagem (por exemplo, a cor da pele, que seria óbvio e impossível de se “camuflar”) tinham que se colocar, literalmente, no lugar dos que sofrem esse tipo de coisa, pois só dessa forma não tolerariam que nenhum outro tipo de preconceito fosse praticado. O método é aclamado como efetivo e, embora polêmico, não foi definido como totalmente certo ou errado.

Eu, a mesma menina que certa vez diferenciou Mãe Preta e Mãe Branca sem qualquer tipo de pudor ou malícia, assisti ao vídeo estarrecida. A autora do método bradava que a sociedade tratava as diferenças como algo digno de julgamento e repugnância quando, na verdade, somos todos diferentes por essência.

E quem pode negar? Essa é a graça, esse é o xis da questão – tudo que acontece por intermédio ou consequência da ação humana é fruto das nossas diferenças, da nossa forma única de pensar e de agir. Olha, pode até pegar de exemplo o próprio blink-182, uma combinação singular dos aspectos únicos de cada integrante: a brandura do Mark, a ambição do Tom e a intensidade do Travis. Condenar nossas distinções é condenar a nós mesmos; é assassinar a diversidade que embeleza e harmoniza não só os seres humanos, mas também toda a natureza.

Foi só com essa realização que eu finalmente me compreendi. Quando eu olhava Ieié, não via conceitos, não via mentiras, não via verdades, não via julgamentos. Eu olhava – e até hoje olho – pra ela e via reciprocidade. “Eu te amo.” “Eu também.”

É minha Mãe Preta, e só isso que nos basta.

Se não nos perdermos no caminho, as diferenças sempre existirão. O fato que devia ser aceito por todos, enquanto ainda é tempo, é que elas existem.

Ainda bem.

Laís Cerqueira Fernandes tem 18 anos, é estudante de Jornalismo há mais de seis meses, ainda insiste nisso de ser escritora e, morram de inveja, tem sobremesa feita pela Ieié esperando por ela na geladeira.

Para quem se interessar, o filme que minha professora passou é esse:

Título: Olhos Azuis (Blue Eyed)
Duração: 90 min.
Gênero: Documentário
Diretor: Bertram Verhaag
Roteiro: Bertram Verhaag
Sinopse: Blue Eyed – Olhos Azuis (1996) é um documentário que acompanha o trabalho da prof. Jane Elliott, que realiza um experimento pedagógico sobre o preconceito, em especial o  racial. O experimento consiste em dividir um grupo de pessoas entre brancos de olhos azuis e outros. As pessoas brancas de olhos azuis são, então, postas em situações de preconceito, inferiorização, sujeição, humilhação, baseadas simplesmente em uma característica física arbitrária – seus olhos. (Fonte)

(um abraço pra Nina – obrigada pelos toques!)