Poeira de estrela

Autor Por laisizzle em 13/11/2011

“Isso é a coisa mais poética que eu sei sobre física: vocês todos são poeira de estrelas. Vocês não poderiam estar aqui se estrelas não tivessem explodido, porque os elementos – carbono, nitrogênio, oxigênio, ferro, todas as coisas que são importantes para a evolução e para a vida – não foram criados no início dos tempos. Eles foram criados nas fornalhas nucleares das estrelas e a única maneira deles chegarem ao seu corpo é se essas estrelas forem gentis o suficiente para explodir.”

O autor dessas palavras é um cara chamado Lawrence Krauss – um físico conhecido que é contra a teoria do criacionismo, mas sério, podemos pular essa parte – e, eu não sabia por que, eram elas que ecoavam na minha cabeça na primeira quarta-feira desse mês. Eu tinha resolvido sentar na minha varanda e encarar o céu, coisa que eu não fazia há séculos; só tomava essa atitude quando eu queria ficar sozinha, sem nem a companhia de um computador por perto (o que, gente, é muito raro…).

Quarta-feira tinha tudo para ser um feriado normal pra mim. Sem aula, sem compromisso, sem vontade de levantar da cama. Se não fossem as velas que minha família acende pela casa, eu mal teria me lembrado do significado da data.

Ah, é. Dia de Finados.

O que era parte da razão que eu estava lá fora, fitando as estrelas que pareciam estar bordadas no céu, cintilando como se conversassem entre si através de um código. Tinha ficado sentada lá desde o pôr-do-sol roseado e agora que tudo era quase um breu, salvo as luzes fracas dos postes, das ruas e das casas lá longe.

Ah, é. E das velas.

Elas foram como um lembrete incômodo de porque eu estava em casa aquele dia, de porque ele tinha que ser lembrado, respeitado, marcado. Saí de perto das velas para não me lembrar de tudo aquilo – e, no entanto, lá estava eu olhando estrelas.

Vocês todos são poeiras de estrelas.

Passei a mão pelo meu próprio braço como se aquilo fosse me ajudar a assimilar a ideia. Poeira de estrela. Era essa minha matéria prima, afinal – mas não só minha, eu lembrei assim que captei uma vela piscando na janela ao meu lado. De todos.

Pisquei algumas vezes mais que o necessário e voltei a olhar o céu. Quando eu perdi a primeira pessoa para o que alguns gostam de chamar de eternidade, nada me consolava. Então ele virou um anjo? Então quer dizer que, por isso, eu nunca mais vou vê-lo? Quase tão grande como a dor era a inconformidade. Não é justo alguém ir embora assim. Não é justo. Não é.

A visão das estrelas se tornou um pouco embaçada à medida que eu amaldiçoava esse dia (sério, como eu acabei me deprimindo em um feriado? Tenha dó) e outro tipo de visão martelava na minha memória. Uma mulher deitada na cama, um sorriso de lábios fracos e dentes fortes, uma fala que me perturbou na época. “Ih, meu bem, relaxa”, ela disse enquanto escorregou a ponta morna dos dedos pelo contorno do meu rosto, sua voz menos marcante do que costumava ser, uma rouquidão que agora inspirava piedade ao invés de imponência. “Do pó viemos e ao pó retornaremos, do quê precisamos ter medo? Daqui a pouco estamos aí de novo”. E aquele sorriso de novo. Amarelado, mas brilhante.

Ah, é.

Do pó viemos

Ao pó retornaremos

As estrelas voltaram a ficar nítidas sob meus olhos, me dando a impressão de que piscavam na minha direção. Vocês também já sentiram isso? Já viram uma delas piscar momentaneamente, como se acenassem?

Sussurrei um “Oi” para elas. Um sentimento de que eu tinha descoberto o mundo me inundou, e o que também parecia ter se inundado eram meus olhos. O céu agora era como uma mistura cheia de azul-marinho e rastros brilhantes.

Oi

Eu espero que tudo esteja bem

Espero que daqui a pouco

Daqui a pouquinho

Vocês estejam aqui de novo

Me perguntei se eu era idiota. Me perguntei se eu estava vendo coisas quando uma estrela em especial pareceu cintilar ao som das minhas palavras. Me perguntei se era dali que os antigos tiraram a ideia de um Céu, de um Paraíso (afinal de contas, não é lá que está nossa matéria prima? Não é para lá que devíamos ir depois? Eles saberiam disso?). Me perguntei se aquela luz no fim do túnel não era nada mais, nada menos que uma grande explosão estrelar e—

Tá vendo. É por essas e outras que eu mesma me proibi de usar drogas. Só imaginem o que sairia da minha mente ainda mais alterada.

Me recompus, me levantei, me endireitei e voltei para dentro de casa. No caminho, passei por uma das velas e me permiti sorrir.

Não sei nem porque me deprimi por culpa de você

Ponha-se no seu lugar, ora essa

Fique sabendo que eu sou poeira de estrela!

 

Do quê precisamos ter medo?

 

Laís Cerqueira Fernandes tem 18 anos, é estudante de Jornalismo há quase um ano, ainda insiste nisso de ser escritora e de vez em quando se pergunta se Star Wars aconteceria num futuro não muito distante.