Os motivos por trás da saída de Tom DeLonge do blink-182

Autor Por Danilo Guarniero em 05/10/2015

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Saiu uma matéria bem esclarecedora no site radio.com sobre os motivos que levaram Tom DeLonge a sair do blink-182 e sobre todos os projetos que ele está envolvido atualmente. São muitos, alguns bem grandes – na verdade, esses projetos são o motivo pelo qual ele decidiu sair novamente da banda. Traduzimos o artigo na íntegra abaixo para você entender melhor toda essa história. Boa leitura!

Beleza. Você está em uma banda incrivelmente bem sucedida com seis álbuns (os quais quatro deles receberam disco de platina ou multi-platina) no catálogo, milhões de fãs e várias turnês gigantes pelo mundo. De repente, você larga isso para se dedicar a outros projetos. Para quem vê de fora, parece que você  descartou tudo isso que conquistou na vida para se dedicar a escrever histórias em quadrinhos e cantar sobre alienígenas. Pelo menos é isso o que muitos fãs de blink-182 pensam sobre Tom DeLonge nos dias de hoje.

Mas para o próprio Tom DeLonge, isso não é verdade.

Claro, DeLonge é um artista, mas o que aqueles que estão por fora podem não saber é que o co-fundador do blink-182 é um empresário que controla um grande número de empresas com funcionários, escritórios, armazéns e mais – tudo funcionando ao mesmo tempo.

DeLonge se viu tão sobrecarregado pelas suas empreitadas nos negócios que precisou abrir mão de alguma coisa. Infelizmente para os fãs do blink-182, essa coisa foi a banda que o fez crescer em primeiro lugar. Tom não tinha mãos suficientes para tamanho malabarismo. Então, em janeiro desse ano, a decisão de separar da banda foi feita por ele.

Durante os primeiros anos do Blink, DeLonge e seu colega Mark Hoppus acharam que a banda não chegaria a lugar nenhum, assim como muitos jovens começam uma banda. Sendo assim, criar um Plano B era simplesmente uma precaução. Isso foi em 1999. A internet estava começando. Os esportes radicais eram populares como nunca foram. Animado com a nova tecnologia e influenciado por ter crescido no meio de skatistas em San Diego, DeLonge decidiu usar as duas paixões para criar a Loserkids, loja virtual de roupas e acessórios para surfistas/skatistas.

Depois, em 2001, DeLonge e Hoppus começaram a Atticus, marca de roupas com influências de arte, surf e skate (DeLonge finalmente vendeu sua parte da companhia em 2007). Como ele serviu de garoto propaganda indiretamente para marcas como a Hurley – a qual o blink-182 introduziu para milhões de fãs no mundo todo – DeLonge percebeu que deveria fazer publicidade da própria linha de roupas ao invés das dos outros. Assim, a Macbeth Footwear nasceu. Em 2014, a maior parte da empresa foi vendida para a gigante Saban Brands (dona da franquia Power Rangers,entre outras marcas), que agora toma conta das operações da Macbeth.

Depois de criar a Macbeth veio a evolução digital de DeLonge. Modlife é uma plataforma que permite que os artistas ofereçam seus merchs para os fãs. Demorou 2 anos para ser construída e oferece um ambiente desenhado para ajudar artistas de todos os tamanhos a monetizarem seu conteúdo, além de facilitar a interação com os fãs tanto no mundo real como no virtual. “Com a plataforma do Modlife de vender diretamente do artista para o fã, os artistas de gravadoras conseguem fazer dinheiro independentemente,” DeLonge disse à FastCompany ano passado. A equipe de Tom não criou só uma forma para seus amigos de bandas punks venderem camisetas. Ele tinha o objetivo de criar um novo modelo de negócio que conectasse o artista diretamente com o consumidor. Isso rendeu clientes como Nine Inch Nails, Pearl Jam e Kanye West.

Mas, segundo DeLonge, o Modlife na verdade foi criado para ajudar a empreitada mais criativa dele, a To The Stars. Foi fundada em 2011 pelo guitarrista e sua irmã Kari (que trabalhou com ele em todas suas empresas desde 2001) como uma gravadora e companhia de entretenimento para lançar os trabalhos do AVA de forma independente. A franquia “Poet” também derivou dessa experiência.

Durante os próximos três anos, a equipe de DeLonge na To The Stars vai lançar mais quatro grandes franquias. Ele explica que “cada franquia será muito diferente, legais para caralho, e cada uma terá sua própria série de livros, filmes, séries de TV e músicas que acompanham. É muito louco.” Com as histórias em quadrinhos já chegando e o primeiro dos três livros de Poet Anderson para ser lançado dia 6 de outubro, o pessoal tá com a mão cheia.

Então tem o Reissued, um marketplace social à base de curadoria para comprar e vender coisas raras, vintage, feitas à mão ou difíceis de achar. DeLonge é dono dessa empresa junto com sua esposa Jennifer, uma especialista em design de produtos e interiores.

Como se não fosse o bastante, DeLonge, ao lado de seu amigo Jon Humphrey, operam uma empresa criativa chamada Really Likeable People. Tom explica que há uns 12 anos ele queria construir um lugar para que todos seus amigos talentosos (sem graduação) pudessem ter sucesso com suas ideias em um ambiente divertido e jovem. O que começou como um refúgio para mentes criativas evoluiu para um negócio agitado e que também interage com todos os outros projetos de DeLonge.

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Escritório da Really Likeable People, Inc.

E aí tem a banda Angels & Airwaves. Com 5 álbuns e dois EPs, está longe de ser um projeto “paralelo” como os fãs antes se referiam.

“Sempre fomos caras fãs de todos os tipos de arte, mas o blink-182 era apenas um veículo para expressão emoção,” DeLonge conta à Radio.com. “Não era sobre sermos músicos ou qualquer coisa do tipo. Eramos um grupo de amigos que andavam de skate e não gostavam do jeito que tinham crescido. Mas quando você se desfaz de algo como aquilo, você é rotulado de uma forma bem específica. E eu entendo.”

Para muitos, é difícil de digerir. Como pode um cara jovem, tão conhecido por cantar sobre funções corporais começar a construir um pequeno império? DeLonge não fica incomodado com a pergunta. Ele dá muito crédito aos fãs que reconhecem que eles eram muito mais inteligentes do que a mídia pode ter mostrado. E, no fim das contas, eles eram mesmo.

“O que as pessoas não sabem sobre mim, já que eu não gosto de ficar saindo por aí falando, é que eu venho construindo empresas há um bom tempo e aprendi pra caralho. E as habilidades que eu adquiri nos últimos 15 anos em termos de entender a monetização de arte – construí uma plataforma que Kanye West, o Nine Inch Nails e o Pearl Jam usavam para monetizar as coisas deles, os fã-clubes, ingressos e tudo mais – até empresas de skate e surf, cujo público costuma ser bem exigente. Cresci andando de skate. Eu realmente aprendi a identificar um grupo de pessoas que odiava tudo. Então, nesse ponto da minha vida, eu sei de um monte de coisas e fazer o que eu faço hoje é um uso muito melhor dessa bagagem que acumulei do que simplesmente subir num palco e tocar as mesmas músicas várias e várias vezes – por mais que seja divertido demais quando tem pirotecnia e lasers – eu amo isso. Mas eu nunca precisei de atenção pra me sentir bem comigo… mesmo que seja ótimo e eu ame atenção, não me entenda mal, mas eu precisava criar essas coisas. Acho que é nelas que eu estou emocionalmente nesse momento.”

Mas muitas pessoas julgaram sua decisão de sair da banda que deu voz a ele e, francamente, uma boa fortuna também. Ainda é difícil para os fãs colocarem a cabeça no lugar.

“Cheguei em um ponto muito específico da minha vida,” confessa DeLonge. “Tenho 39 anos. Se fosse pra continuar no estúdio para escrever um disco que eu precisaria ensaiar por mais oito semanas para entrar em turnê por outros seis meses, e tudo girasse em torno apenas dessas 12 músicas… eu estaria limitando severamente o que eu consigo fazer artisticamente. Daí vou olhar pra trás quando tiver uns 50 anos e pensar ‘porra, eu amo tanto essas outras formas de arte, gostaria de ter feito isso’. Então acontece que eu decidi… [pausas] simplesmente fazer. Quis fazer porque me deu a habilidade de inspirar outros artistas. Deu a possibilidade de usar outras coisas que aprendi, de unir as pessoas e criar um novo modelo de negócio para uma nova forma de arte. Os caras estão criando histórias em quadrinhos, filmes, animações… eu criei um sistema para manter essas pessoas unidas e fazer acontecer. Daí fica algo maior para todo mundo.”

A habilidade favorita de DeLonge, pelo que parece, é a habilidade de unir times de pessoas talentosas. E para a To The Stars, ele pegou pessoas de algumas de suas outras empresas, já que sabia do que elas eram capazes. “Se eu fosse o responsável por planejar um cronograma de produção e envios de todas essas coisas eu teria ferrado tudo,” ele brinca.

“Mas eu confio no meu time. Se eu fiquei com medo de olhar para o tamanho das operações e pensei ‘caralho, o que eu estou fazendo’? Sim, com certeza. Mas aí eu parava e pensava ‘Mas é tão legal!’ Não é difícil, só precisa de paixão e perseverança. Sabia que não ia sair fazendo tudo sozinho. Você encontra pessoas que serão suas companheiras de equipe. Pessoas que são realmente boas em algo e que não são tão boas em outras as quais você é, daí uma coisa completa a outra e você perde o medo. Quando você está completamente sozinho pode ser bem estressante pensar em fazer tudo por conta própria. Mas quando você tem pessoas ao seu redor que acreditam em você, é o que faz continuar.”

“Esse que é o negócio,” diz DeLonge com autoridade na voz. “Você precisa pensar no que você ama totalmente. Não sobre trabalho ou outra coisa que não seja algo que vocÊ ame. Não pode ser ‘qual é o melhor emprego que posso ter?’ e sim ‘o que eu amo fazer?’ e é nisso que as pessoas falham. Elas nunca pensam que o que elas amam pode ser o emprego delas ou a vida delas no fim das contas. Elas pensam que o que elas amam é o que acontece de fim de semana quando não estão trabalhando.”

Quando perguntamos por que ele nunca foi chamado para dar uma palestra em algum evento do TED ele ri e explica que nem o público comum nem os organizadores do TED fazem ideia do que ele faz fora de sua primeira banda, blink-182. “Ninguém sabe o que eu estou fazendo. Eu sei o que as pessoas podem ou não pensar de mim quase o tempo todo. Eu não acho necessário sair e ficar me promovendo o tempo todo. Eu posto nas redes sociais com meus fãs sobre o que faço e os deixo informados. Mas eu não sou de ficar falando muito, acho que no tempo certo a arte fala por si própria.”

E a arte de DeLonge vai falar alto, pelo menos é o que ele espera, através do som surround das salas de cinema ao redor do mundo. Ele aprendeu algumas coisas sobre produzir filmes desde seu longa-metragem LOVE, um filme independente que Tom e sua equipe filmaram em uma estação espacial construída em um quintal (veja mais aqui). Ele não está mais atrás de produzir filmes artísticos em casa hoje em dia.

Apesar de relutante em revelar valores no começo, DeLonge divulgou que os custos de produção para o filme com atores reais do Poet Anderson poderia se aproximar de 100 milhões de dólares. “Quando você lida com valores como esse, o que você consegue fazer com esse tanto de dinheiro não tem palavras, é sonhar alto pra caralho. Você pode fazer o que quiser.” Firmar um contrato para um filme desse nível só mostra o quão bom DeLonge realmente é.

Para a produção do filme, Tom se uniu a Brett Ratner e James Packer, da produtora RatPac, conhecida mais recentemente por ter produzido o filme Gravidade, com Sandra Bullock e George Clooney.

“Eles leram o livro. Mandamos uma cópia antecipadamente e eles disseram que topavam desde o primeiro dia.”

Tom traçou um longo caminho depois de focar sua vida apenas em tocar e cantar em uma banda de sucesso. Nos dias de hoje, além da família, ele é responsável por vários funcionários, acionistas e parceiros. No fim, quando você tem 100 milhões de dólares na reta, “eu estou ocupado ensaiando para minha turnê” não é uma boa desculpa para perder uma reunião.

Então, quando os fãs perguntarem por que DeLonge largou a banda que o fez famoso… ele não saiu do blink-182 porque é louco, idiota ou egoísta. Ele é simplesmente um cara que amadureceu e tem várias responsabilidades e ambições que podem alcançar as estrelas.