O som do silêncio

Autor Por brunobld em 01/05/2009

É pura cretinice acreditar que, em um universo de extensão inimaginável, não existam outras formas de vida inteligente. Garanto que muitos dos amigos já viram, ouviram falar ou, em casos extremos, tenham participado de algum evento indescritível – algo como ser abduzido e forçado a fazer sexo com um alienígena verde e gosmento. A fascinação que esse tema traz não é à toa, afinal, algumas das filosofias e religiões que embasam o nosso viver seriam contraditas caso um evento dessa magnitude pudesse ser comprovado.

Mas, se alienígenas existem, que tipo de música eles escutam? Sim, eu sei – é uma pergunta idiota e sem fundamento -, mas deve servir para fazer a ligação entre os extraterrestres e o assunto da coluna de hoje.

Neste exato momento um disco de ouro está viajando bem longe do nosso sistema solar, a bordo da sonda Voyager, cujo lançamento se deu no ano de 1977 pela NASA. O disco contém sons e imagens selecionadas para retratar a diversidade da vida e da cultura na Terra, e tem como destinatário qualquer forma de vida extraterrestre inteligente que possa encontrá-lo. As sondas Voyager, pois foram lançadas duas, não estão a caminho de uma determinada estrela. No entanto, daqui a aproximadamente 40.000 anos, a Voyager 1 estará a cerca de 1,6 anos luz da estrela AC +79 3888 na constelação Ophiuchus. Longe de casa, crianças.

Foi o famoso cientista Carl Sagan, conhecido por divulgar a ciência para além da comunidade científica, quem liderou o comitê que selecionou as várias músicas que estão naquele disco. São músicas representativas da raça humana, além de incluir o som de baleias cantando – afinal, este planeta é tão nosso quanto delas.

Como as sondas são extremamente pequenas se comparadas com a vastidão do espaço interestelar, é extremamente improvável que alguém as encontre algum dia. O que vale então é a mensagem que estas sondas, seus discos e aqueles que os conceberam, passam a todos nós – uma mensagem de esperança no futuro da humanidade.

As músicas da Voyager estão no CD “Murmurs of Earth: The Voyager Interstellar Record”. Vale a pena, diga-se de passagem, fazer o download das músicas e escutá-las com atenção. Tenho certeza de que todos vão apreciar a maravilhosa viagem pela criatividade humana.

No entanto, fico imaginando se, ao invés de Carl Sagan, eu tivesse que escolher quais as músicas que a NASA enviaria ao espaço. Fazendo uma análise breve, mas nem por isso menos intensa, descobri que seria impossível representar toda a diversidade humana com apenas algumas músicas e imagens. Afinal, o que a música realmente faz não é visível nem audível, pois sua mágica está ligada intrinsecamente à pessoa que a escuta. É o conjunto de experiências do indivíduo que torna determinada música mais ou menos importante e representativa. Fazendo uma pesquisa sobre o que é, de fato, música, cheguei à seguinte conclusão: os pioneiros da música não estavam realmente tentando criar a música. Na verdade, e isso é difícil de compreender, eles estavam tentando encontrar uma forma de transmitir o silêncio, a beleza, a calma, a suavidade que haviam sentido durante a meditação. Claro, não leve o termo meditação no sentido “ioga way of life” que se vende pelas esquinas. Pense em meditação como o êxtase que sentimos ao ter excelentes experiências, como estar junto de quem realmente amamos, ou ao ter uma visão deslumbrante do pôr do sol.

Por tudo isso, acho que seria extremamente difícil enviar algumas canções rumo ao espaço sideral para que seres verdes e gosmentos pudessem entender como é, ou como foi, a vida no nosso planeta Terra. Se fosse possível, eu mandaria o som do silêncio, a verdadeira voz de Deus.

Tarefa para casa:

Escolha uma música para enviar, a bordo de uma sonda, a uma longínqua viagem rumo ao desconhecido espaço interestelar. Difícil, não é? Então, vamos restringir o campo de escolha para músicas do Blink 182. Escolha uma, apenas uma, que a NASA faz o resto. Também vou pensar em uma, depois deixo o comentário.

P.S.: trabalhadores, uni-vos! Tenham um ótimo 1° de maio.

LEANDRO DANI (leandro.feh), tem 21 anos. Outro dia viu a programação da TV ser interrompida para noticiar que seres de outro planeta haviam pousado na explanada dos ministérios, prometendo reconstruir o dedo do presidente em troca de algumas rapaduras, cachaça e ingressos pra ver o Ronaldo no timão. Sério.