O mal do astronauta

Autor Por brunobld em 06/04/2009

Astenia (do grego a, “negação” e sthénos, “vigor” ou “força”) é um termo empregado em medicina para designar uma sensação de fraqueza, porém sem perda real da capacidade muscular.

Should I go back should I go back should I
I feel alone and tired
Should I go back should I go back should I
I hope I won’t forget you

Should I go back? Será que eu devo voltar? Será que algo me prende a outro algo? Essa questão é cantada de forma angustiada no refrão da música “Asthenia”, do álbum homônimo do Blink 182 de 2003.  Analisarei essa letra de outra forma, não por aquela versão do astronauta do Tom – que muitos devem conhecer. Vou usar o dom de letrista do Mr. Delonge conforme a minha visão da música, meus próprios ideais ou convicções. Convido a todos para levantar vôo. Apertem os cintos, porque a viagem pode ser um pouco turbulenta.

Vocês, provavelmente, já devem ter parado pra pensar, em determinado momento de suas vidas, se todo o esforço para continuar em pé vai servir para alguma coisa. Se levantar pela manhã, morrendo de sono, e franzir os olhos ao abrir a janela de seus quartos tem alguma significação maior do que apenas o sentimento amargo na boca por ter começado outro dia qualquer como milhares que já passaram. Você já deve ter sentido essa astenia, essa fraqueza que nos força à inércia. O que o astronauta do Tom está se perguntando é se realmente vale a pena seguir em frente, ou se não seria mais fácil apenas desistir de tudo, deixar de correr atrás.

E então? Será que realmente vale a pena? Por que não desistir?

Muitos grandes pensadores (pra não dizer praticamente todos) já se debruçaram sobre esse tema e encontraram muitas respostas – nenhuma completamente convincente. Pra uns não existe motivo, pra outros, o simples fato de existir, por si só, já é o suficiente. Mas o que nós, reles mortais, que estamos todos os dias lutando no front de nossas batalhas pessoais, podemos concluir dessas sábias respostas? Quer saber… nada de útil! Em primeiro lugar, porque ninguém pode responder por mim ou por vocês – a batalha é de cada um. Em segundo lugar, porque o próprio ato de perguntar, de questionar a realidade em que se vive, já demonstra que estamos desconectados de algo. Algo está passando sem que consigamos perceber.

Should I go back? Voltar pra onde, pra quem?

E existe um voltar? Fora o voltar para um local físico, existe de alguma forma o “voltar”? Não seria apenas um “estar”? Afinal, passado e futuro são apenas criações da mente. São mecanismos que nos ajudam a manter a sanidade… ou, a manter os grilhões? Não, meus amigos, não existe um voltar, pois não existe outra coisa senão estar. O momento é a única coisa que temos de realmente nosso, a nossa única posse. Portando, o astronauta vai continuar a se perguntar se ele deve voltar – e eu continuarei achando que ele não sabe sequer o que está acontecendo com ele.

I feel alone and tired.

Sempre que você se sentir solitário e cansado, tentando encontrar um significado para continuar arrastando aquilo que você chama de vida, preste atenção ao seu redor. Não há outro que possa tirá-lo de seu poço além de você mesmo. Brigar com a existência não vai ajudar em nada, pois não há nenhum grande sentido para a vida fora o próprio existir – mas, um existir sábio. O que então dá sentido à vida? A meu ver, o sentido da vida está no que preenche o dia de forma agradável, como os pequenos prazeres mundanos. Matar a fome, por exemplo, mesmo que seja com um pão, é um dos maiores prazeres que a vida pode entregar. O que dá sentido à vida é dar uma caminhada, olhar um pôr-do-sol, brincar com uma criança, fazer festa com um cachorro, conviver com os amigos, fazer uma boa leitura, ouvir uma boa música…

A vida é a única verdade que há. Não há outro Deus senão a própria vida. Talvez, a resposta mais inteligente que possamos encontrar seja a de que devemos nos permitir curtir essa experiência que é existir. Como ensinou o guru indiano Osho, a vida é um absurdo! E tudo aquilo que buscamos nela – como amor, paz, liberdade –, é absurdo. Isso porque “nenhum desses objetivos possui um sentido além de si mesmo,  seu significado é intrínseco”. Ele dizia que a beleza e a alegria são eminentemente absurdas, e que o melhor a se fazer é ir à caça e colecionar o maior número possível de absurdos em nossas vidas. Assim como “as pessoas colecionam as coisas mais estranhas, como selos de correio”, nós deveríamos colecionar absurdos, pois quanto mais deles tivermos, mais ricos e plenos seremos.

Portanto, não faça como o astronauta de Asthenia, não deixe o momento passar. Sempre que aquela sensação de astenia correr o seu corpo e mente lembre-se dele, e não queira se perguntar se você deve voltar, porque, na realidade, não há para onde voltar. Só existe um caminho, e dele só conhecemos esse instante. Que absurdo!

I hope I won’t forget you,
Astronauta

Agradecimentos especiais à Wikipédia – sempre um bom conselho.

LEANDRO DANI (leandro.feh) tem 21 anos. Outro dia ele foi ao banco e, de tanto esperar em pé, acabou sentando a mão no gerente.