Memórias: O dia da revanche!

Autor Por brunobld em 19/03/2009

Todos que já deixaram a adolescência para trás concordam que, embora tenha sido uma fase muito complicada, ela certamente deixou várias lembranças – algumas excelentes e outras não tão boas. Vou contar uma história onde sou o protagonista e que, como vocês entenderão, envolve blink-182 também.

Lá pelos distantes anos 1990 – no final da década do grunge –, Enema of the State foi lançado. Eu, que já era fã da banda há algum tempo, vi o salto quântico de visibilidade que a banda ganhou em pouquíssimos meses. Escutávamos What’s my Age Again e All the Small Things a todo o momento, seja nas rádios, seja na televisão. E, obviamente, em um curto período de tempo a gurizada do colégio começou a vestir bermudões, usar camisetas com temas engraçados e a cortar o cabelo à la Mark Hoppus, com seu estilo porco-espinho fashion, ou à la Travis Barker, com suas belas madeixas tipo dread.

Claro que eu não poderia ficar de fora. Usava todos os apetrechos que a banda usava, queria pôr brinco e, é claro, dei um tapa no visual da cabeleira. Como sempre fui um pouco reservado, escolhi usar o estilo ouriço do Mark – um pouco menos extravagante, como vocês podem atestar nas fotos da época. Agora imaginem a cena, queridos amigos. O vosso escrevente aqui freqüentando as aulas fantasiado de Rockstar miniatura do Punk. Pois bem, como vocês podem imaginar, as piadinhas corriam soltas. Mas, como bom fã do blink, todos sabemos aceitar e, inclusive, entrar na brincadeira.

Ah! Mas se tivesse ficado só nisso, queridos leitores…

As piadas, por mais rebelde que seja o adolescente, continuam sendo meras palavras. O problema é que a perseguição começou a ficar mais acalorada quando alguns indivíduos – maiores, malvados e de séries mais avançadas – começaram a fazer chacota de mim. No início não dei muita bola, afinal, eu não poderia fazer muita coisa – eles eram mais velhos e conseguiam fazer cara de poucos amigos melhor do que eu. Com o tempo eles começaram a me chamar de, pasmem, “Clubber” e a me dar encontrões pelos corredores. Ora, a coisa estava ficando feia, pensei com meus botões. Mas, como tudo na vida, essa situação também encontrou seu clímax. Era o intervalo entre dois períodos e eu estava morrendo de vontade de ir ao banheiro. Chegando lá, tudo na maior paz, dirigi-me ao mictório para me aliviar. Foi ao me virar pra voltar à sala de aula que me deparei com o brutamonte de dois metros de altura com um sorriso irônico no rosto.

– Olha só que coincidência! De todos os banheiros que existem no colégio, acabamos  nos encontrando – disse meu algoz, sem deixar de me chamar de clubber ao completar a frase.

Obviamente que eu não dei ouvidos, e tentei me distanciar. Talvez esse tenha sido meu erro, fazer pouco caso e tentar escapar das piadas. Como se eu tivesse xingado a vovozinha dele, uma transformação radical aconteceu em sua expressão facial. A vermelhidão de seu rosto, os dentes rangendo e a respiração que mais parecia ser de um touro me alertaram: corra! Mas, infelizmente, foi tarde demais e quando dei conta do que estava acontecendo eu já estava no chão.

Agora, meninas, imaginem o chão de um banheiro masculino no final do dia. Sim, é a visão do inferno de Dante, o sonho mais desvairado de H. P. Lovecraft, a pior cena do filme mais nojento de George Romero. Atordoado com o empurrão, lembro de ter olhado pra cima e visto algumas assinaturas, alguns desenhos na parede do banheiro, perto do teto. Dentre tantas informações e bobagens, encontrei uma frase, um ditado, que provavelmente fora escrito por algum torcedor da dupla grenal ou gaúcho tradicionalista: “não tá morto quem peleia”.

Humilhado e totalmente irado, pulei no meu agressor com aquela frase em mente. Senti uma força que jamais tinha imaginado possuir e, em alguns golpes, fiz meu algoz recuar e sair correndo do banheiro com o rabo entre as pernas. Como se não bastasse a sensação de dever cumprido, ainda ganhei um troféu no dia seguinte: deixei um belo olho roxo no cretino. Não é preciso dizer que ganhei a admiração de alguns e que, por alguns dias, virei uma espécie de herói dos “fracos e oprimidos”.

Daquele dia em diante, nenhum fã do blink-182 precisou apertar os passos ao passar pelos corredores ou se preocupar na hora do intervalo – pelo menos no meu colégio. Existia justiça, afinal.

LEANDRO DANI (leandro.feh) tem 21 anos e não tem dúvidas de que a desobediência é a maior virtude do homem.