Mas como é que a gente voa

Autor Por laisizzle em 24/12/2011

Ultimamente, a canção que meu pai costumava cantar para me fazer dormir vem ecoando na minha cabeça.

felicidade foi-se embora

e a saudade no meu peito ainda mora

e é por isso que eu gosto lá de fora

porque sei que a falsidade não vigora

Quando ele cantava essa música, me embalando em seus braços e sussurrando a letra, eu não achava triste. Ela me envolvia como um cobertor, me aquecia como se estivesse tomando sol em um fim de tarde e me acalmava como se fosse um afago.

Sem saber que algum dia o significado de todas aquelas palavras iria se voltar contra mim, eu vivia murmurando, entre uma passada pra lá e pra cá do meu pai, para ele não parar de cantar. Me pendurava no pescoço dele como se a minha vida dependesse disso.

De uma certa forma, dependia.

a minha casa fica lá de trás do mundo

onde eu vou em um segundo quando começo a cantar…

Como uma lembrança retirada de um baú, junto com a música, eu lembro de cheiros, de gostos, de alguns segundos de uma vida que nunca parece ter sido minha.

Noites pra trás, cantarolando essa melodia para me acalmar e me deixar sonolenta, percebi que tinha feito exatamente o contrário – em instantes, estava mergulhada em uma memória vívida da época que meu pai ainda me suportava em seus braços.

“Eu tenho inveja dos passarinhos”, a menininha, que reconheço como sendo eu, bufou no colo do meu pai anos mais jovem. Enroscada com as mãos em volta do pescoço dele, fixava o olhar lá pra fora da janela.

“Por quê?”, ele parou a música pra indagar. “Ah, continua a música”, a Pequena Eu choramingou. Ele insistiu: “Mas por quê?”

“Eles voam”, a Eu Menina disse. “E eu queria voar, aí poderia fugir para onde quisesse. Me casar com o príncipe de outro país. Ou nadar na Disney.”

“Mas você pode voar.”

“Mas eu nem tenho asas, papai.”

Ele riu e continuou a música.

o pensamento parece uma coisa à toa

mas como é que a gente voa quando começa a pensar

Uma outra vez, aqui no presente, eu fui lá pra fora na chuva. Com as gotas batendo na roupa e na pele, eu ainda ouço a voz dele cantarolando. Uma voz mais baixa que os trovões que se multiplicavam pelo céu, é verdade, mas que pesava mais do que os cabelos encharcados nas minhas costas e que ecoava tão claramente que era como se eu nunca tivesse deixado colo dele.

Mas eu tinha, e agora estava ali fitando outra lembrança que ele deixou aqui em casa.

Uma gaiola de passarinho.

Abri lentamente a portinha. Não havia mais nenhum passarinho para ser libertado, mas uma menininha, sim.

Uma vez, um cara chamado Harun Yahya disse:

 Eu sempre me pergunto por que os pássaros ficam no mesmo lugar quando eles podem voar para qualquer lugar do planeta.

Depois, eu me pergunto a mesma coisa.

Dias atrás, minha priminha de seis anos reclamou comigo: “Queria voar pra encontrar o Papai Noel, sabe.”

“Mas você pode voar”, retruquei.

Ela me lançou um olhar suspeito e ladino, certa de que eu estava a enganando com palavras.

Eu sorri para ela como se estivesse satisfeita comigo mesma por repassar algum desses ensinamentos que, na verdade, não passam de verdades sutis e óbvias.

Peguei a mãozinha dela e fui cantarolando.

a minha casa fica lá de trás do mundo

onde eu vou em um segundo quando começo a cantar…

o pensamento parece uma coisa à toa

mas como é que a gente voa quando começa a pensar…

 __________________________________

Laís Cerqueira Fernandes tem 18 anos, é estudante de Jornalismo há quase um ano, ainda insiste nisso de ser escritora e espera que vocês tenham um ótimo Natal!

A música da coluna é Felicidade, do Caetano Veloso. (e eu só fui descobrir isso pra escrever a coluna…).