Leia relatos de Travis Barker sobre seu acidente de avião, retirados de seu livro

Autor Por Danilo Guarniero em 23/10/2015

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No último dia 20 de outubro, Travis Barker finalmente lançou seu livro de memórias intitulado Can I Say: Living Large, Cheating Death and Drums Drums Drums. O livro já está disponível em versão traduzida para o português! (Compre aqui)

Hoje, pegamos as partes em que ele fala sobre seu acidente de avião, os momentos antes do acidente e os chocantes minutos durante o acontecimento. Ele conta, pela primeira vez, em detalhes, tudo o que viu e sentiu na hora.

O livro em si já começa com um prólogo que faz referência ao acidente:

Estou pegando fogo. Estou correndo o mais rápido possível e em chamas. A noite está escura, mas eu consigo enxergar o caminho por causa da luz que está emanando da minha carcaça em chamas. Eu nunca senti tanta dor na minha vida: parece que tudo dentro do meu corpo está fervendo e tentando evaporar através da minha pele. Estou tirando minhas roupas enquanto corro através de um gramado, mas ainda estou pegando fogo.

Atrás de mim eu posso sentir a morte: um avião inflamado que contém os corpos de dois pilotos e dois grandes amigos. Em menos de um minuto ele vai explodir. Na minha frente tem uma estrada. Nada disso que está acontecendo parece real ou ao menos possível. Se eu conseguir chegar na estrada, posso sobreviver. Ouço pessoas gritando pra mim, mas não consigo entender o que dizem. Só me importo em tentar sobreviver. Quero ver meus filhos, minha esposa, meu pai, minhas irmãs. Nos segundos finais da minha vida, tudo o que não é importante na minha vida queima. A cada passo que dou, tudo na minha vida vai se perdendo em chamas, exceto pela minha família. Estou correndo mais rápido do que eu imaginava que fosse capaz. Estou correndo em direção à estrada que vai me manter vivo. Estou correndo por amor, pelo meu futuro. Estou correndo pela minha vida.

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Na época do acidente, em 2008, Travis Barker estava em turnê com o DJ-AM, e no dia do acidente, voltava do show que o duo tinha feito em Columbia, na Carolina do Sul. O capítulo dedicado ao acidente tem o título “O teto vai cair”, que é uma frase que a Alabama, filha de Barker, dizia aos prantos, antes dele embarcar para a trágica viagem que mudaria sua vida pra sempre. Ela parecia ter algum tipo de pressentimento. Confira alguns trechos:

[…] Eu e a Shanna [ex-mulher de Travis] estávamos meio que juntos ainda. Naquele final de semana, ela foi pra casa com as crianças e nós não nos desgrudamos. A gente ia e voltava o tempo todo, mas além do contato físico, éramos pais dessas crianças incríveis. Falando com a Shanna naquele fim de semana, eu disse que nem sabia por que estava indo fazer aquele show na Carolina do Sul. Eu estava muito confortável em casa, me divertindo com as crianças na piscina.

Tinha uma contradição no meu coração: eu não queria me afastar da minha família, mas ao mesmo tempo, amava tocar com o AM. Uma voz na minha cabeça estava dizendo que eu deveria dar um tempo. Eu disse exatamente assim para a Shanna: “Nem sei se eu preciso ir”. No fim, acabei me conformando e disse, “esse é meu ganha pão. Todo mundo trabalha. Sem reclamar, é só chegar lá e fazer meu trabalho.”

Eu convidei a Shanna para ir. Ela concordou e fez as malas. Daí, no último minuto, ela decidiu ficar em casa com as crianças. “Caso alguma coisa aconteça,” ela disse, “não quero que nós dois estejamos lá. Eu não acho que Deus te daria algo que você não consegue lidar. Se algo acontecer com você, Trav, você iria superar”. Isso foi bem intenso. Ela falava sobre como ela não conseguiria fazer o mesmo, de simplesmente lidar com isso. E eu pensava, “caralho, do que ela tá falando?” […]

Além dessa conversa estranha da Shanna, tem a parte que ele conta sobre sua filha falando do teto que iria desabar:

[…] Alabama e Landon [seus filhos] sempre ficavam chateados quando eu precisava sair pra fazer turnês, mas dessa vez eles estavam preocupados de um jeito incomum. Alabama chorava e dizia “o teto vai desabar, pai, o teto vai desabar.” Eu perguntei para a Shanna o que isso queria dizer, mas ela não sabia. Bama chorava histericamente e não acalmava por nada. Foi chato mesmo ter que deixá-la[…]

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Nesse show em Columbia, Travis e DJ-AM se divertiram muito e, enquanto o baterista queria curtir o pós-show e voltar no dia seguinte, já que era para quando o voo deles já estava agendado, AM queria voltar na mesma noite.

[…] AM chegou em mim e disse, “Ei cara, o que acha de simplesmente darmos o fora daqui ainda hoje?”

“Nem,” eu disse. “As coisas estão agendadas para amanhã, certo? Tá de boa.”

Mas ele queria mesmo ir embora. “Por que a gente não se divide em um jato privado?”

Lil Chris disse, “Vamos, Trav. Podemos chegar em casa logo. O que está esperando por nós na Carolina do Sul?” Ele queria voltar pra ficar com seu bebê.

Agora que eu estava na Carolina do Sul, eu estava feliz em passar a noite, mas era sempre bom voltar antes pra ver meus filhos o mais breve possível, então aceitei o que eles quisessem.

AM ligou para nosso assessor, LV, e ele disse “tudo bem, vou tentar arrumar algo pra vocês e colocá-los em um avião. Está tudo bem.” Então, enquanto ele arrumava isso, nós demos uma volta no hotel, fumamos maconha e curtimos com umas garotas. […]

Travis conta também que se sentiu muito estranho com toda a situação. Ele estava acostumado com outro assessor, chamado Gus, que sempre marcava os voos para ele. O baterista sempre enchia o saco do cara perguntando absolutamente tudo sobre o avião, sobre o histórico dele, sobre os pilotos. Ele queria saber de tudo antes de entrar, porque sempre teve muito medo de voar, mas dessa vez isso não foi possível.

Antes de embarcar, ele ligou para o seu pai e disse que o amava, coisa que era incomum fazer, mas sentiu que deveria, e ainda disse que estava com uma sensação ruim sobre esse voo (aqui ele também contou esse detalhe).

[…] Entramos no avião. Sentei do lado da saída de emergência, como sempre. Chris e Che sentaram na minha frente. AM estava do meu outro lado, pra lá do corredor. Ele tinha uma câmera e estava filmando a gente – todo mundo estava orgulhoso. AM disse, “o vocês sabem sobre um DJ, um baterista e um jato particular?” Depois filmou o Chris e disse, “e aí, White Nose!”, a gente chamava o cara de White Nose às vezes, era seu alter ego rapper. Estávamos nos exibindo muito: “filhos da puta, estamos em um jatinho!”

Não tinha aeromoça em um avião daquele porte, mas assim que decolássemos, um dos pilotos viria ver se estava tudo ok. Fizemos alguns drinks, mas eu já estava incrivelmente chapado. Tirei meus tênis – e eu nunca fiz isso em um avião. Eu sempre pegava no pé das pessoas quando faziam isso: “vocês são é loucos de tirar o tênis, o que fariam se algo acontecesse?”

AM viu e começou a zoar: “Uh, olha lá quem está se sentindo confortável.” Minha atitude era de que tivemos um voo tranquilo na ida e esperava ter a mesma tranquilidade na volta.

O avião deu a volta na pista e estava demorando muito já. Eu descobri depois que estávamos na pista errada, direção errada. Já estávamos taxiando há 20 minutos e o pessoal já estava caindo no sono, mas eu nunca me deixava dormir antes de sairmos do chão.

Eu rezei como de costume: “Por favor, mantenha-nos seguros durante o voo. Por favor, olhe por nós, deixe-nos voltar para casa com nossas famílias. Te amo, mãe. Te amo, Deus. Amém.”

Finalmente o avião parou e eu senti os motores ligando. O avião começou a vibrar; já estávamos prontos para decolar.

Começamos a nos mover rapidamente na pista, mas antes mesmo que a gente estivesse no ar, eu ouvi: “POW! POW!”

Parecia que alguém tinha dado tiros no avião, mas eram os pneus estourando. E daí o avião ficou sem controle.

Primeiro a parte de baixo do avião começou a se arrastar no chão, começando um incêndio antes de levantarmos voo. Aí a cabine começou a ficar com cheiro de fumaça.

Aí, finalmente levantamos voo, cortando o ar bruscamente, mas continuamos indo pra cima e pra baixo: íamos bem alto e depois descíamos e batíamos na pista de novo. Isso acontecia a cada 10 segundos – mas pareciam minutos entre um impacto e outro. Toda vez que estávamos descendo eu olhava pra fora e me segurava no assento, porque eu podia ver o chão chegando.

A fumaça na cabine se transformou em fogo, que não parava de crescer. Foi a coisa mais fodida que você pode imaginar, tipo o passeio mais louco de montanha-russa, mas 10 vezes pior – e no escuro, além de estar em chamas.

Eu estava gritando o mais alto que conseguia “parem essa merda de avião!” e o avião estava chacoalhando incontrolavelmente. Eu estava em choque e rezava alto, gritando. Mas ninguém conseguia ouvir nada. O avião bateu no chão umas quatro ou cinco vezes, e todas as vezes minha vida passava na frente dos meus olhos. Em questão de segundos eu vi décadas da minha vida passarem em fragmentos, como se estivesse adiantando um filme em um DVD. Eu vi minha mãe, meu pai, meus filhos, vi shows com Mark e Tom, Rob e Tim [Transplants]. Parecia que o tempo tinha ficado mais lento pra me mostrar essas coisas.

Eu sabia que o pior estava por vir: eu ia morrer. O avião atravessou as grades do aeroporto e passou por uma rodovia – e aí aconteceu nosso último impacto, em um barranco. Foi o maior solavanco que eu já senti, e então nós paramos.

Eu tava fodido, mas meus olhos ainda estavam abertos. Eu não podia acreditar que estava vivo. Eu mal podia respirar ou enxergar, mas eu tirei o cinto e fui até o AM através da fumaça. Ele estava desacordado, então eu o chacoalhei pra ele acordar. Daí eu tentei chegar no Chris e no Che, mas tinha uma parede de fogo entre nós – eu não consegui passar pelas chamas e minhas mãos pegaram fogo.

Naquele momento, eu entrei em pânico. Puxei a trava da saída de emergência e chutei a porta para abrir. AM estava bem atrás de mim. Eu pulei pra fora, em cima da asa do jato, que estava cheia de combustível. Meu corpo inteiro ficou cheio de combustível e pegou fogo, as minhas pernas até as costas.

Eu comecei a correr.

AM pulou por cima da asa, desviando do fogo. Ele estava correndo atrás de mim, me vendo completamente tomado pelas chamas. Ele pegou o telefone e ligou para o assessor, LV. Eu conseguia ouvi-lo gritar “LV, nosso avião acabou de bater! Travis está pegando fogo! O que eu faço? Estou correndo atrás dele! Me ajuda, caralho!”

Enquanto eu corria, eu tirei minha camiseta, tirei meu boné, tirei meus shorts – mas o fogo não saía de mim. Eu estava pelado, me movendo o mais rápido possível, segurando meus genitais – todo o resto estava em chamas – e eu continuei correndo, esperando que isso fosse acabar com o fogo.

Naquele momento, senti que eu estava correndo pela minha família. Eu nem me importava com mais nada além de estar com meus filhos, meu pai, minha irmã e com a Shanna. Eu estava sentindo a maior dor que já senti, nunca senti  algo assim antes. Eu não achava que fosse sobreviver.

Corri até a rodovia. Tinha carros passando e eu podia ouvi-los buzinando e gritando. No meio do caos, ouvi alguém gritando “Pare, deite e role!”

Eu continuei correndo, enquanto meu corpo queimava mais e mais. Esse cara continuava gritando “Pare, deite e role!” – e finalmente o que ele estava dizendo foi assimilado. Eu me joguei no chão e comecei a rolar, pelado na terra. Parecia que eu estava rolando há dias.

Consegui tirar quase todo o fogo, mas não das pernas e do pé – como tinha sido a primeira vez que eu não tinha usado tênis no avião, minhas meias estavam ensopadas de combustível.

AM conseguiu me alcançar. Ele tirou a camiseta e usou para extinguir as chamas. Ele abafava e tirava até que na décima tentativa o fogo finalmente se foi. Enquanto ele fazia isso, se queimou no braço e pescoço – ele tinha saído do avião sem nenhum arranhão. Se ele não tivesse feito aquilo por mim, eu provavelmente não teria pé ou pernas hoje.

Uns sessenta segundos depois, o avião explodiu. Eu estava deitado do lado do AM gritando “nós estamos vivos?”[…]

 

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Isso é apenas um trecho do que você encontrará nesta chocante autobiografia de Travis Barker, que já está à venda em versão integralmente traduzida para o português. Garanta agora a sua cópia do livro Travis Barker: Vivendo a mil, enganando a morte e batera, batera, batera.

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