Imagina só se os olhos falassem

Autor Por laisizzle em 21/01/2012

Às vezes eu deixo um texto pela metade.

Às vezes, não – quase sempre. Ele fica ali, me importunando, gritando para eu finalizá-lo, para conseguir um desfecho decente. Minha cabeça lateja de incapacidade. Poucas coisas são mais frustrantes do que isso.

Na maioria das vezes, eu olho para as pessoas em busca de inspiração – talvez aos olhos de muitos eu seja o que chamam de stalker, mas aos meus, emoções rápidas que mal duram milissegundos nos rostos de outros não passam despercebidas. Observo até alguém me pegar olhando, e tem vezes que até sustento o olhar. Um pouco assustador, eu sei. Mas é mais assustador para mim não ter nenhuma fonte na qual trabalhar.

Mergulho das músicas e tento fechar os olhos e sentir só elas, ecoando. Significando. Ainda nada. Nem um tilintar de sentimento, nem uma vaga lembrança retornam à minha mente – as coisas que chegam, ai, são aquelas dos quais eu já usufruí tudo que podia e não podia. São as que eu não quero mais mexer. Devem ser as mais prolíferas, mas, certas coisas, nem minha sede por inspiração permite fazer.

Daí, recorro ao que mais esteja ao meu alcance. Eu me agarro aos olhos das pessoas. Nunca deixei de levar a sério aquele ditado usado e reusado de “os olhos são o espelho da alma”. Vocês já prestaram atenção neles? Em como, de perto, eles parecem ser um mar? Alguns de água, outros de areia – mas todos eles são sugados pela pupila. De uma certa forma, ela me lembra um buraco negro e os olhos me remetem aos universos. Queria desvendá-los. Queria viajar deles. O máximo que eu consigo são estudá-los de longe, resignada, só forte o suficiente para sustentar uma troca ínfima de olhares.

“Por que você desvia olhar?”

Uma vez eu li um textinho curto, famoso até, de uma menina dizendo que desviava os olhos do rapaz amado porque tinha medo de altura. Porque “tinha medo de cair dentro dele”. Já eu não. Não estou desviando o olhar de alguém que eu nutra algum tipo de paixão. Estou desviando o olhar de alguém que eu luto para não sentir nenhum tipo de afeto por, mas falho miseravelmente. E, pior ainda, quero continuar falhando.

“Porque eu ainda quero me convencer do contrário do que seus olhos me dizem.”

“Olhos não falam”, retruca.

“Ainda bem”, eu murmuro. Vai ver essa é a minha maldição (além de, é claro, querer escrever como quem diz algo ilustre): ouvir os olhos. Senti-los. Compreendê-los como quem compreende, de súbito, um quebra-cabeça.

“Imagina só se os olhos falassem?”

Os meus viveriam gritando por socorro, eu quero dizer. Mas eu me policio, porque sei que, às vezes, o que eu digo soa tão dramático que me faz parecer pertencer a um romance do século XIX.

“Os meus viveriam pedindo por inspiração”, digo no lugar.

E a inspiração que chegou de repente rapidamente desaparece. Os olhos que eu fitava, de uma hora para a outra, escurecem.

Os meus se perdem no vazio.

Dentro de mim ecoa um grito.

 

Laís Cerqueira Fernandes tem 18 anos, é estudante de Jornalismo há quase um ano, ainda insiste nisso de ser escritora e de vez em quando acha justo o título de “drama queen”.