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Faixa-a-faixa: John Feldmann (atual produtor do blink-182) comenta o disco California

Autor Por Danilo Guarniero em 29/07/2016

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John Feldmann, frontman do Goldfinger e produtor de dezenas de discos de sucesso (e agora, também produtor do sétimo disco de estúdio do blink-182 que promete também ser um sucesso) conversou com o site da Fuse TV para comentar sobre cada uma das músicas que estão nesse CD com sua própria visão. Ele contou alguns detalhes de produção e as histórias por trás das 16 faixas que compõem o disco. Vale muito a pena a leitura!

Leia também: Mark Hoppus e Matt Skiba comentam todas as faixas do disco “California”

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Leia abaixo a explicação faixa-a-faixa do significa cada música do disco nas palavras de John Feldmann!

Cynical

Foi provavelmente a penúltima música que compusemos. Estávamos analisando tudo e tínhamos um disco meio “mid-tempo” na pegada do disco de 2003 do blink-182. Não havia muitas faixas com cara do Cheshire Cat ou Dude Ranch porque o Travis ainda não estava na banda naquela época. Eu pulei essa época, mas sabia que precisávamos de uma música rápida [que acabou virando “Cynical”] e, como tudo nesse álbum, Travis insistiu em gravar a música toda em um take. Esse foi o terceiro take (a versão que foi pro disco). Ele pensou que tinha errado no começo. Você consegue ouvi-lo gritar “Ahhh” na música.

O negócio com o Travis, entre outras coisas, é que ele toca com muita consistência. Pode ser um ritmo quebrado meio Led Zeppelin ou uma música super rápida estilo punk rock dos anos 90 (como nessa música). Ele mantém o tempo sempre.

Mark tinha na cabeça o que as pessoas iriam ou não iriam pensar sobre o novo blink-182, com um novo membro, um produtor (eles não trabalhavam com um produtor ha 9 anos). Ele tinha essa ideia de pensar que o mundo sempre foi um lugar muito cínico no geral. Ele veio com esse conceito bem legal e o Matt tinha o resto na cabeça, uma melodia com o tempo menos acelerado. Funcionou perfeitamente. Começamos o disco mostrando quem é a banda e o que a banda está fazendo.

Bored To Death

Foi a primeira música que fizemos juntos. A minha ideia era meio “vamos jogar tudo o que temos e ver o que sai.” Vamos fazer tudo o que, pra mim, lembra o Blink clássico: os riffs de guitarra, bateria meio hip-hop, os refrões com ritmo dobrado do resto como Stay Together For the Kids,” eu tive todas essas ideias e jogamos tudo numa música só com uma clássica letra de Mark Hoppus. Acho que o que fez essa virar um single foi a sua ponte, liricamente e melodicamente. Eu sabia que era especial mas só quando o disco terminou. Tipo, faixas como”Sober” e “She’s Out Of Her Mind” geralmente têm cara de singles, mas essa música nos pareceu bem única. Quando eu ouço na KROQ apenas me faz sentir bem.

She’s Out Of Her Mind

Skiba veio com a referência a Bauhaus* e ficamos pensando quantos fãs de blink-182 iriam realmente entender o que é Bauhaus. No fim, decidimos que “foda-se” e colocamos porque quisemos. É uma linha legal. Essa música era originalmente chamada “Orange County Girl.” A esposa do Mark é de Orange County. Queríamos uma música pop punk clássica e despretensiosa: acordes maiores, divertida, feliz, clássica. Foi composta bem no começo. Ela meio que ficou parada por um tempo porque achamos que era muito alegre pro disco em comparação com as outras músicas.

Travis foi quem realmente resgatou algumas dessas músicas de volta pro disco. Ele chegou nessa e disse: “cara, não podemos deixar essa de fora do álbum. É uma importante referência ao blink-182 do Take Off Your Pants and Jacket.” Não tem drama, não é pesada. É sobre uma garota que é meio louca mas a amamos.

* A propósito, Bauhaus que se refere a música é essa banda aqui.

Los Angeles

Essa foi a terceira música que fizemos juntos. Estávamos em uma fase experimental do que seria o blink-182 4.0; Temos os primeiros discos, um college pop punk. Temos as eras de Jerry Finn e Mark Trombino produzindo e mixando, temos a era em que eles produziram por conta própria [2011, Neighborhoods] e a era do novo membro. Essa é uma das faixas que eu queria incorporar o Travis, que tem uma mente bem ligada ao hip-hop. Um baterista único, como incorporá-lo nisso? Montamos um mini kit de bateria e uma bateria eletrônica e dissemos “Travis, toque um monte de batidas,” por cima do groove do refrão.

Falamos sobre todos nós termos vindo de San Diego ou pelo menos termos passado um bom tempo lá. Travis é de Riverside e morou em Laguna Beach, até nós agora vivendo em Los Angeles e o que essa cidade representa pra nós. Eu diria que “Los Angeles” é definitivamente a música mais pesada do disco. Precisávamos experimentar o lado obscuro que o Neighborhoods deixou, onde o próprio blink-182 parou. Imaginamos que essa música era qual daria o nome ao disco e seria o primeiro single por ser pesada e obscura, uma coisa mais rebelde para o que os fãs estavam aguardando. Mas “Bored to Death” era uma escolha certa. Mark, ele é famoso por fazer acordes no baixo. Chegou na ponte dessa música e criou na lata, em pouquíssimo tempo.

Sixth Street Bridge estava para ser demolida enquanto escrevíamos esse som. Blink nunca foi uma banda política, mas toca em coisas que acontecem quando você mora em uma cidade grande, diferentemente do que acontece quando você cresce vivendo no subúrbio.

Sober

“Sober” nós fizemos com o Patrick (Fall Out Boy), um grande amigo. Ele estava aqui e teve uma ideia – o que poderia ser do Blink se fosse uma banda moderna de rock no rádio em 2016? Como seria?

Então o Travis veio com a bateria dos versos. O Mark escreveu sobre se apaixonar por sua esposa, estar na estrada, a dicotomia de ter que tocar mesmo estando esgotado (uma das coisas mais inapropriadas)… a ideia de ter uma carreira baseada na ideia de estragar tudo, como é estar em uma banda.

Built This Pool

 Mark tinha essa ideia há muito tempo. Mostrou um dia e eu pedi pra ele gravar guitarra e vocais. Travis tinha acabado de gravar uma música de 3 minutos. Eu pedi pra ele tocar qualquer coisa que ele quisesse e botei o metrônomo. Ele tocou uma vez e disse “é só isso mesmo?”, frase que acabamos mantendo no fim.

Era uma das faixas que sabíamos que ia entrar mas não queria gastar dias trabalhando e procurando a melhor sonoridade. Eu sabia que seria um clássico instantâneo quando o Mark trouxe. Teve uma época que ele tava mesmo construindo uma piscina. É  só uma música engraçada e também é real.

No Future

Essa a gente tinha tirado do disco em um momento. Falamos sobre a ideia de como as pessoas absorvem música hoje em dia. Nos anos 90 era tudo muito baseado no disco. Você comprava o CD, botava em algum lugar e ouvia. Era chato ficar trocando de CD, precisava de um esforço para gravar um outro disco com artistas diferentes. Agora você apenas clica em um botão e tem uma playlist com 100 artistas diferentes. A mentalidade que eu estava veio da gravação do segundo disco do 5 Seconds of Summer que tem 18 faixas, o que foi difícil para alguns de seus fãs digerirem. Ter esse tanto de música nova em uma época onde as pessoas toleram dois ou três minutos de músicas novas por vez, pensamos em fazer um disco de 11 faixas e um EP. Travis disse “não, nós vamos fazer essa porra do jeito que queremos.” Eu não posso discutir com o maior baterista de nossa geração, com o legado que ele e sua banda têm.

Meus planos era ter um disco digerível para uma geração de crianças impulsivas. No fim, Travis estava correto. “No Future” deve ser a minha favorita do disco. Estávamos conversando sobre a história do punk rock. Pra mim começou com “God Save the Queen” dos Sex Pistols, que tem “no future” na letra. A ideia de uma sociedade niilista e o punk rock chegando e dizendo “não acreditamos no governo, não acreditamos na sociedade, acreditamos na liberdade e fazemos o que queremos,” esse conceito do começo do punk veio nessa música.

O álbum se chamou “No Future” por um bom tempo. No fim, os caras perceberam o que poderia significar dar esse nome para esse disco, poderia ser um tiro no pé. Tipo “essa é uma nova banda, um novo som… mas sem futuro?” É bem legal e jovem, mas o sentimento de isso se tornar negativo era grande, porque fizemos um CD positivo. Não combinou com a ideia no total.

Home Is Such A Lonely Place

Precisávamos de uma baldada, seja láo que isso significa para o blink-182. Por duas semanas nós conversamos sobre como seria um momento mais calmo no Blink para contrastar com Cynical e Los Angeles, e até No Future. Essa música foi ideia do Mark, que veio com a letra “Home is such a lonely place without you.” O filho dele é provavelmente o cara mais esperto que já conheci. Jack é um estudante Mensa. Ele literalmente está estudando em Oxford agora. Ele tem 13 anos. Eu e o Mark conversamos sobre como seria o dia em que nossas famílias forem embora depois de tanto tempo. Como nossas vidas seriam depois dos nossos filhos partirem depois que a gente construiu tudo em torno deles. Todo mundo chorou quando tocamos para eles ouvirem. Mark e Travis fizeram essa música soar como o Blink pra mim. Skiba colocou o segundo verso e tomou a música pra ele. Essa faixa é um momento bem especial no disco.

Kings Of The Weekend

Outra que talvez não entrasse no disco. Tínhamos muitas músicas. Quando ouvimos ele inteiro com a equipe toda, com a gravadora, percebemos que o riff é tão bom, parecia certo. Não temos músicas no disco com riffs grandiosos que as pessoas vão reconhecer na hora, então essa ficou. Travis levantou a mão e nos lembrou que isso é o que o Blink realmente é. Não é liricamente profunda, mas é uma música para festejar. Todos temos trabalhos e sabemos como é bom ter um dia de folga para fazer o que quisermos, essa música é isso.

Teenage Satellites

“Teenage Satellites” foi a última que compusemos no disco. Mark e eu sempre começávamos a trabalhar às 7h da manhã, todos os dias. Ele já tinha a ideia da guitarra e então o Travis chegou às 11h e tocou essa coisa super rápida no chimbal. Essa provavelmente foi a única faixa no disco em que fizemos o arranjo antes. Todo o resto começou com algumas ideias de ganchos ou refrões. Essa veio primeiro o riff do Mark, depois a bateria. Todas as letras e melodias vieram por último.

Mark tinha essa ideia de ser uma criança e não saber quem você é, não ter coragem suficiente de dizer o que você tem a dizer. Isso é sobre o que “Teenage Satellites” se trata.

Left Alone

Foi a segunda música que compusemos. Matt Skiba realmente botou a mão e falou “deixa essa comigo” e chegou com uma ideia de refrão, junto com a melodia. De novo, era outro momento onde estávamos tentando entender o que era o legado do Blink…. para mim, essa é uma música guiada pelo Matt. Você pode ouvir quando ele está cantando nos tons mais altos como soa legal, parece urgente. Pra mim é onde o Matt brilhou nesse álbum. Por ser similar a Bored To Death em termos de estrutura, ficamos preocupados de ter ficado muito parecida. Mas com essa performance do Matt pensamos que ela precisava entrar no álbum pra mostrar como ele é um vocalista único.

Rabbit Hole

Também uma das primeiras e que compusemos rápido. Mark e eu falávamos sobre depressão e pensamento negativo, como alguém pode cair em uma espiral de pensamentos como “qual é o significado de tudo” até chegar no “foda-se tudo”. Como um adulto, voltar atrás e perguntar “qual foi o primeiro pensamento que me fez entrar nessa espiral de vazio interior?” A ideia da música é “não vou cair nesse buraco de pensamento negativo.” Foi onde começou. No fim, combinou com o clássico logo e mascote (coelho) da banda.

Travis Barker tocou “Rabbit Hole” em um único take. Eu nunca sabia no que ele estava pensando ou o que ele ia tocar quando gravamos. Eu só dou um metrônomo ou um som de guitarra ou de voz e ele simplesmente entra lá e faz o trabalho. Travis é tipo o produtor da banda, pra mim. Quando ele adiciona as partes de bateria dele, a música se transforma completamente, de uma forma que ninguém esperava.

San Diego

A história dessa música é sobre creser em San Diego, ter muitos companheiros de lá e ter um deles que ainda mora lá e não está mais na banda [claro, Tom DeLonge]… Mark não queria compor essa música. Eu trouxe a ideia de que ele deveria escrever sobre as merdas as quais não quer falar mas que estão ali, óbvias para todo mundo.

Obviamente tem muito sentimento envolvido quando seu melhor amigo não está mais na sua banda, com tudo aquilo que aconteceu. Toda banda tem esses problemas. Escrever uma música agora com a mentalidade de agora, sobre voltar a San Diego, tocar por lá e tirar o chapéu para a cidade que os permitiu ser uma banda, Blink colocou San Diego no mapa. Pense na localização geográfica, eles são a banda que fez San Diego ser uma cidade relevante. Eu cresci lá mas ninguém se importava com ela. Era só um lugar. Daí o Blink apareceu e lá virou tipo Seattle.

Essa música tem um gosto agridoce. Um adeus à cidade que não vivemos mais, porém devemos tanto a ela. Mesmo reconhecendo os problemas pessoais de relacionamento entre a banda.

The Only Thing That Matters

Até um certo ponto, todos nós odiávamos essa música. Daí, de repente, o Mark reescreveu a parte do baixo e amamos. O Mark tinha originalmente esse punk country nessa música que nenhum de nós se conectou exatamente. Não odiávamos a música ou a melodia, só não era nossa vibe. Depois que o arranjo foi refeito, passamos a amá-la.

Não temos tantas músicas de pop punk rápido e clássico no disco e essa encaixa bem no contexto do pop punk do sul da Califórnia de quando eu era mais jovem.

California

Essa começou como uma música da Broadway. Tinha umas rufadas, quase como “Wake Me Up Before You Go-Go” (Wham). Era bem uma pegada de jazz. Curtimos a ideia de compor uma música sobre nosso estado, onde moramos e amamos. Pra mim, é o lugar mais bonito do mundo, e nessa música damos crédito ao fato de sermos tão sortudos de crescer e viver aqui, montar nossa família aqui e tudo mais.

Quando o Travis tocou essa batida meio trap music no verso, foi quando ela mudou de uma música lado B para uma que realmente entraria pro disco. Ela cresce. Tem uns momentos meio Smashing Pumpkins, de uma forma bem sutil. O jeito que ela crese do nada pra esse solo de bateria grandioso me lembra de tudo o que eu curto. É moderno com a produção do Travis, mas me lembra o The Who por causa dessa parada meio Keith Moon no final.

Dar o nome do disco o mesmo dessa faixa — Mark tinha um monte de nomes clássicos com piada no meio como OBGYN Kenobi, Nude ErectionOne Direction (pra zoar com a coisa de boy band) — ele tinha um monte de ideias que seriam legais até, mas já temos “Built This Pool” e “Brohemian Rhapsody” como momentos de piada, não seria justo com o disco em si vendê-lo dessa maneira. Não foi No Future mas tamvém não foi OBGYN Kenobi. O nome California definiu muito bem o disco.

Brohemian Rhapsody

Mark e eu somos fanáticos por café. Estávamos numa cafeteria antes de uma sessão certo dia e conversando. Tínhamos “Cynical” e achamos que faltava outra rápida. Ele tinha a letra “There’s something about you I can’t put my finger in,” ele tem essas clássicas ideias que são de apenas uma linha. Então pensamos “beleza, vamos fazer uma música punk rock”. Como sabíamos que seria essa a letra, essa música foi criada, do início até a mixagem, em literalmente 9 minutos. Acabou antes de começar.