Era uma vez um vestido rosa

Autor Por brunobld em 12/11/2009

Em um país acostumado à exibição e veneração do corpo, ao biquíni fio-dental e ao tapa-sexo, um vestido curto deveria passar batido. Deveria, mas não foi o que aconteceu alguns dias atrás na Uniban –  a Universidade Bandeirante de São Bernardo do Campo, São Paulo. Pelos diversos meios de comunicação – principalmente pela internet, no YouTube – pudemos observar a nata da intelectualidade tupiniquim regredir várias décadas na evolução dos costumes e tudo por causa de alguns centímetros a menos – ou a mais, depende do ponto de vista – de tecido.

E como poderíamos definir o acontecido, qual a razão de tamanha selvageria? Seria o machismo da sociedade patriarcal brasileira, que mesmo ostentando para si títulos de moderna e progressista não mantém nada mais do que hipocrisia em suas atitudes? Teria a própria estudante culpa ao supostamente ter ofendido alguém, ou mais pessoas, a ponto de causar aquela fúria generalizada? Seria, afinal, o vestido indecorosamente curto, ao ponto de quase causar o linchamento da assustada estudante? E então, qual deve ser o alvo de nossas críticas?

É difícil entender como pessoas tão jovens e instruídas possam ter dado tal vexame. Depois de ficar sabendo do ocorrido na Uniban, tratei de me certificar de que se tratava de uma universidade brasileira. Não consegui acreditar que no país do carnaval, dos biquínis mais reveladores do mundo, pudesse ocorrer uma basbaquice e uma bestialidade daquelas. Depois de ter me certificado da localização daquela instituição de ensino “superior”, tratei de fazer uma brevíssima incursão no mundo do meu “eu interior”, como chamam os gurus por aí, para descobrir o que eu penso sobre o assunto. Não demorou muito para eu ter certeza de que aquele vestido e aquela moça poderiam, no máximo, virar a minha cabeça na direção em que seguissem. Talvez eu abrisse a boca para tecer um comentário assaz habitual, do tipo “que saúde” ou ainda o afamado “ô lá em casa”, com algum colega de gênero que estivesse mais próximo. Minha reação seria cotidiana, breve, assintomática e bem-humorada – a moça e seu vestido não sobreviveriam muito tempo em minha memória e em meus diálogos. Mais um dia, mais uma mulher bonita e sua roupa provocativa (no melhor sentido que essa palavra pode trazer).

Enfim, não consigo ver o porquê daquela reação sem concordar com Gustave Lebon, que definiu uma massa de pessoas sob o ponto de vista psicológico da seguinte maneira: “Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. No caso de tudo pertencer ao campo dos sentimentos, o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto”. Ou seja, é o velho tesão reprimido atingindo níveis catastróficos no ABC paulista – isso para ser bem-humorado e extremamente positivo na minha análise. Para alguns conterrâneos extremistas meus aqui do sul, sei que diriam que o que faltou foi laço (eufemismo para “uma bela e merecida surra”) nos agitadores. Tendo a acreditar que o que faltou para aquela massa enfurecida de estudantes universitários é exatamente o que eles foram buscar quando acordaram para ir à universidade naquele fatídico dia: conhecimento, sabedoria e educação.

ATUALIZAÇÃO

Agora a pouco li, abismado, em um grande portal de notícias da internet, que a moça do vestido curto está sendo assediada para, dentre outras propostas, participar de programas de TV, como Altas Horas e Ana Maria Braga, da TV Globo, para posar seminua para marcas de lingerie, para lançar uma linha de bijuterias, para estrelar uma campanha de minissaias e, a mais atordoante de todas, para ser musa de uma letra de música de um grupo de axé. Obviamente, ouvi falar que a revista Sexy também está tentando um ensaio com a moça nua… tudo de muito bom gosto, é claro. E agora, quem é a vítima? Uma coisa é sofrer preconceito por usar uma determinada roupa – o que é absurdo -, outra coisa é se beneficiar por ter sofrido tal preconceito. No fim, a única coisa que aprendemos é: lucre sempre, lucre o máximo que puder, não importa como.

LEANDRO DANI (leandro.feh) tem 22 anos e apóia a causa das minissaias e microvestidos.