Entrevista do Travis para a JAM Magazine

Autor Por nath em 10/04/2011

Leia a primeira parte da tradução da entrevista com o Travis feita pela JAM Magazine. Nessa primeira parte, ele fala sobre o acidente, a recuperação, a separação e o retorno do Blink-182:

Travis Barker sabe tudo sobre sorte. Ela tem sido uma constante companhia em toda sua vida, saiba ele disso ou não. Infelizmente, foi necessário ele sofrer um trágico acidente para ele ter plena certeza do quanto ele é abençoado por ter um talismã invisível ao seu lado. Ao longo dos seus 35 anos, inúmeros sinais mostraram que havia algo especial sobre o músico.

Ao longo dos anos, Travis experimentou todos os estilos de tocar bateria que ele podia imaginar. Essa incursões para dentro do som, levaram-no a inúmeras aventuras musicais que quase todos os percussionistas achariam um pouco heterodoxa. Não este nativo da Califórnia. Durante os últimos anos, Travis estebeleceu-se como “baterista de um baterista”. Ele produziu e participou de vários projetos musicais. Ao longo do caminho, ainda teve tempo de adicionar mixes ao seu vasto repertório de habilidades. Tem-se visto também o talentoso artista ganhar um destaque significativo na comunidade do hip-hop. Artistas do rap costumam se utilizar do versátil talento do baterista para ajudar a incorporar remixes de rock com as suas músicas.

No mês passado, o músico lançou seu primeiro albúm solo, Give The Drummer Some. Antes de terminar o seu trabalho com o Blink-182, o versátil artista estará em turnê promovendo seu novo CD com Lil’ Wayne, Nicki Minaj e Rick Ross até o final de abril. Ele está abrindo os shows com o amigo Mixmaster Mike, um dos principais manipuladores e criadores de música do hip-hop no mundo. Tendo dito isto, é hora de conhecer Barker.

JAM: Tirando Phil Collins, eu posso dizer honestamente que você é o baterista mais impressionante que eu já vi. Suas incursões em vários tipos de percussões, seja rock, hip-hop, country ou jazz, tem sido notáveis. Em que ponto do seu passado você percebeu que a bateria podia ser muito mais do que apenas uma peça de companhia para o baixo?

Travis Barker: Começou quando eu era bem jovem. Meu pai queria que eu ouvisse de tudo, de heavy metal até contry. Ele me desafiou a crescer para tocar todos os tipos de música, e foi o que eu fiz. Eu descobri o jazz e me apaixonei. Descobri coisas com Buck Owens e Johnny Cash que eu gostei. Ao longo dos anos, descobri um pouco em cada gênero musical que me agradou e eu incorporei o estilo ao meu jeito de tocar.

JAM: Você passou bastante tempo nos últimos anos com o Adam Goldstein, também conhecido como DJ AM.

Quando o Blink terminou há 6 anos e minha outra banda, The Transplants, entrou em hiatus, eu tive a ideia de fazer essa coisa de DJ com o Adam. Ia ser o meu primeiro passo usando a bateria com outra banda, sem um guitarrista. De uma certa forma, AM era o meu guitarrista. Ele me mandou diversas músicas que a maioria dos guitarristas não conseguiria nem tocar. Nós ficamos 4 anos juntos. Durante este tempo, eu também me foquei em fazer remixes e fui convidado para tocar bateria em projetos com Eminem, Lil’ Wayne, Too $hort, Jaime Foxx e TI. Essas oportunidades maravilhosas nunca teriam surgido se eu não tivesse trabalhado com o DJ AM ou estivesse numa banda de rock.

JAM: Eu sempre achei que tocar bateria fosse uma forma de arte incompreendida. Entretanto, você foi além do dever the mostrar ao mundo que o sons que emanam do intrumento podem ser considerados artísticos.

Tradicionalmente, quando um baterista lança um albúm solo, soa como um rock progressivo com sons maciços. Eu não queria fazer esse tipo de música. Meu Assistente, Chris Barker, que morreu no acidente de avião, foi o único que realmente me incentivou a prosseguir com a música que você ouve hoje no albúm. Ele comia, dormia e respirava hip-hop; e ele amava a ideia de mixar batidas ao vivo com gravações improvisadas. Charles, que também perdeu a vida no acidente, acreditou que eu poderia produzir um albúm inteiro de hip-hop com quase todos os rappers e MC’s. Depois que eu me recuperei do acidente, eu estava determinado a terminar esse projeto como um tributo a eles e ao DJ AM. Eu também fiz esse albúm pros meus fans que não veem a música necessariamente como algo dividido em gêneros, eles simplesmente gostam de música.

JAM: O DJ AM te introduziu no mundo do hip-hop ou você já era fã desse tipo de música?

Eu já gostava de hip-hop desde que eu era criança. Na época, eu ouvia o albúm de 1984 do Van Halen’s e também ouvia Run DMC. Eu amava os dois tipos de música. No começo, o hip-hop não tinha bateristas. As batidas era todas feitas por uma máquina.  Eu estava fazendo meus trabalhos com o Adam quando todas essas oportunidades de remixar músicas de hip-hop cruzaram meu caminho. Ele é o único que me fez gostar mais de música eletrônica do que de rap. Muitas pessoas não sabem que ele fazia parte de uma banda de rock chamada Crazy Town. Adam cresceu enraizado no hip-hop. É tudo que ele ouviu. Ele podia recitar canções de rap palavra por palavra.

JAM: Tom DeLonge e Mark Hoppus abraçaram essa parte da sua criatividade, e você a vê ajudando a reinventar o som do Blink-182 neste novo albúm?

Mark e Tom me deram uma liberdade enorme neste novo albúm. Quando chega num ponto em alguma música em que o Tom normalmente faria um solo de guitarra, ele diz, “Travis, faça o que você quiser aqui.” Eu não sei se esses arranjos de bateria vão ficar até a mixagem final, nós temos que ver como se encaixarão na música em geral. Desde que nós voltamos a tocar juntos, eu dou todos os créditos ao Mark e ao Tom por essa abertura de me deixar fazer mais coisas nas novas músicas do Blink.

JAM: Tom fez uma citação sobre o Blink-182 que eu achei bem interessante. Ele disse, “Se o acidente não tivesse acontecido, nós não seríamos uma banda hoje.” Isso é verdade?

Eu acho essa frase é totalmente verdadeira. Antes do meu acidente, eu não tinha a intenção de tocar no Blink novamente. Mark Hoppus sempre foi como um irmão para mim. Mesmo depois que nos separamos, Mark e eu tivemos uma banda juntos por um tempo. Tom fez a parte dele. Uma semana antes do acidente, DJ AM e eu éramos o grupo da casa para o MTV Music Awards. Para dois caras que tiverem a ideia louca de juntar um baterista e um DJ, era um momento épico. Estávamos realizados e nos sentindo muito bem pelo o que estávamos fazendo, que é de onde vem o título Give The Drummer Some. Não tinha Blink-182 na minha vida e eu não senti falta disso durante os 6 anos que eu estava afastado da banda.

JAM: E então você embarcou num jatinho particular no dia 19 de setembro de 2008.

Sim, mudou minha vida para sempre. Eu lembro que enquanto estava no hospital, eu recebi uma carta escrita à mão do Tom. Ele realmente me pegou desprevinido. Fiquei ainda mais surpreso quando eu soube que ele vinha ligando para saber notícias de como eu estava. Durante o processo de cura e recuperação do acidente de avião, Tom me fez uma visita. Ele disse que gostaria muito de juntar a banda novamente. Nenhum de nós conseguia encontrar uma razão válida para o término da banda. Minha experiência de quase-morte mostrou a todos nós que a vida é curta. Não havia motivos para nós três não tocarmos juntos novamente.

JAM: Você realmente já tinha deixado para trás toda a experiência com o Blink-182?

Sinceramente, eu não tinha nenhuma intenção de tocar no Blink novamente. Se não fosse pelo meu acidente, eu realmente não vejo nós três juntos. Nós todos ainda estaríamos presos ao nosso orgulho, sei lá, não querendo admitir que alguém havia cometido um erro.

JAM: Olhando hoje para o passado, o hiatus do Blink foi necessário para recarregar sua criatividade?

Sim, na época que tudo aconteceu, eu e o Mark queríamos uma turnê sem parar, já o Tom não queria. Nós tivemos um ano de trabalho seguido, e com falhas na comunicação, o que nos tornou uma banda disfuncional. Não houve um grande motivo que levou ao término da banda. Não houve nenhuma precipitação, nem traição. Nós estávamos sobrecarregados e não tínhamos domínio sobre as coisas. Quando decidimos nos reunir após o meu acidente, nós conversamos sobre o que aconteceu e ninguém conseguia uma resposta. Não tinha um grande problema a resolver a não ser o tempo gasto na estrada. Nós só precisávamos pensar nas coisas de forma clara e botar pra fora os problemas, que não eram muitos.

JAM: Você entende que o Tom queria ser um homem de família? Afinal, você teve seus próprios filhos durante o rompimento.

Olha, eu entendo o desejo do Tom de estar com sua família. Na época, ele só tinha um filho e eu tinha três crianças. Se alguém entendeu a ideia de homem de família, certamente fui eu. Para mim, eu igualava estar na estrada com o apoio da minha família. Por isso eu nunca reclamei de sair em turnê, porque eu sabia que estava longe dos meus filhos pelo motivo certo. Eu estava distante porque estava tocando e isso sustenta minha família. Minha vida sempre centrada em torno das minhas crianças. Essa ligação me ajudou na recuperação do acidente. Na verdade, meus filhos estiveram comigo durante as três primeiras semanas e meia da turnê, então essa sempre foi minha prioridade – meus filhos vem antes da música, antes de tudo.

JAM: Eu fiquei exausto ao ler sobre sua vida nos últimos oito anos. Não consigo nem sequer imaginar vivê-la de verdade. Eu não sei simplesmente te dou os parabéns ou se te coloco num pedestal por ter sobrevivido a tudo.

Obrigado, cara! Felizmente, a chave para minha recuperação estava bem debaixo do meu nariz – meus filhos. Eu realmente não passaria por tudo isso sem o apoio da minha família. Ele sempre me fizeram mais forte. Para sobreviver a um  evento tão traumático como o que eu sobrevivi, era necessária a força deles para ajudar a me recuperar das numerosas cirurgias pelas quais passei. Eu precisava de ajuda para me afastar das grandes quantidades de remédio que eu recebia. Saber que meus filhos estavam lá por mim, me dava o desejo de viver. E eu também tinha o remédio mais poderoso do mundo – música – como terapia para me ajudar a ficar bem.

JAM: Você sobreviveu ao maior medo da maioria das pessoas, um acidente de avião. Música e família te ajudaram a superar um trauma inacreditável. Você foi capaz de botar o aspecto mental em ordem, de forma que você não fique sempre se lembrando daquele dia?

Infelizmente, nossa mentes são como discos rígidos. Por mais que você não queira se lembrar de um certo evento, você sempre se lembrará. O acidente é algo que eu nunca irei esquecer. Eu queria poder apagar isso da minha memória, mas eu não posso. No momento, eu evito voar de avião. Eu simplesmente ainda não estou pronto para fazer isso. Eu tento manter um pensamento positivo sobre qualquer lembrança que possa me ocorrer. Gosto de pensar que estou vivo hoje por alguma razão. Sim, eu ainda penso nos irmãos que eu perdi no acidente, mas eu tenho que me manter positivo, não só por mim mas também pela minha família. Eu fiquei no hospital por três meses e meio. Fiz 16 cirurgias. Quando eu saí do hospital, viajei com a minha família da Georgia até a Califórnia de ônibus. Uma vez que eu estava a salvo em casa, eu tinha medo de sair. Em um certo ponto, eu estava sob o uso de tantas medicações, que eu era uma pessoa totalmente diferente da qual você está conversando hoje. Eu lidei com síndrome pós-traumática por um bom tempo. Na verdade, eu ainda lido. Eu não gosto mais de correr muito com o carro. Particularmente, não gosto de andar de ônibus à noite. Meu estilo de vida desacelerou um pouco desde o acidente. Felizmente, tenho a música, na qual eu posso me jogar. Tocar bateria é uma ótima maneira de liberar as emoções.