Entrevista de Travis Barker na Rhythm Magazine

Autor Por Mona em 26/09/2012

A revista britânica Rhythm foi conferir os shows do blink-182 no Reino Unido, durante a turnê européia, e sua equipe ficou impressionada com o desempenho de Travis Barker nos palcos.

Durante o final da turnê, fizeram uma super entrevista com o baterista, que contou sobre sua rotina, como mantém a forma e como pretende superar seu medo de voar. E tem mais, quando isso acontecer, tudo que ele quer é conseguir vir para a América do Sul!

A equipe da Rhythm ficou de queixo caído. Nós estamos na Motorpoint Arena, em Cardiff, testemunhando Travis Barker apresentar uma inacreditável exibição de poder e estilo junto com os seus companheiros engraçados do punk rock, que se tornaram roqueiros experimentais no blink-182. Assistindo de um mezanino muito acima do palco, temos a perfeita visão de Travis golpeando a bateria com um setlist de quase duas horas, recheado com músicas ridiculamente rápidas, de pura energia punk rock, para ainda apresentar um incrível solo de hip hop. Não é preciso dizer que ficamos impressionados.

Algumas semanas depois o blink-182 volta para o Reino Unido e somos guiados pelos corredores do Brixton Academy, para o camarim de Travis. Depois do fenomenal conjunto de resistência, preparo físico e habilidade que presenciamos em Cardiff, ficamos curiosos para saber como Travis se mantém em tão boa forma e o que é preciso fazer para ser capaz de dar energia ao trio por 120 minutos de clássicos, todas as noites. E isso antes mesmo de descobrirmos os testes de resistência física que ele passa com todos os seus projetos paralelos – desde os Transplants ao seu trabalho solo com hip hop pesado.

Ao entrar no quarto com dois ambientes de Travis, passamos pelo baterista se exercitando em uma bicicleta antes de sentar em frente ao seu kit Yamaha DTX, que leva consigo para todo lugar, e temos a impressão que é puro trabalho duro que mantém o físico do baterista. Como você vai ver no restante da entrevista, parece que estamos certos.

A DIETA CERTA

O físico que vimos em Travis no show de Cardiff é ainda mais impressionante, já que sua preparação para turnê européia foi longe da ideal. Seu medo de voar – compreensível devido ao trágico acidente de avião em 2008, que matou quatro dos seis passageiros, e deixou Travis com queimaduras de segundo e terceiro grau – significa que a viagem para Europa é um longo compromisso.

Travis explica: “Geralmente, quando venho para a Europa, fico no navio por sete dias, então passo esses dias fazendo várias coisas. Faço exercícios aeróbicos por uma hora, ou uma hora e meia, e levanto pesos leves. Dessa vez foi um pouco diferente, porque tirei minhas amígdalas, então fiquei praticamente de cama até o dia que saí do barco. Foi horrível. Eu simplesmente fiquei no barco, me exercitando apenas o suficiente para me livrar do peso extra que eu adquiri por comer somente sorvete e outras besteiras por duas semanas.”

Travis revela que se mantém o mais ativo possível, mas consegue repousar bastante durante a longa viagem. “Você pode descansar bastante no navio! Não existe outra coisa para fazer. Tem uma academia e tem comida. Além disso, você fica descansando e assistindo TV. Eu trouxe meu kit, então pude fazer um pouco de bagunça, desde que meus vizinhos não se importassem. Nunca se sabe, tudo depende de quem está na porta ao lado. Posso simplesmente tocar, não preciso me preocupar em ficar pronto para um show, apenas pratico. É legal”.

O rei do punk pop e guru do hip hop nos diz que uma vez que ele chegou na Europa, ir para a academia foi importante para que ele mantivesse a forma para a árdua sequência de shows do Blink. “Eu tento fazer uma hora  de exercícios nos meus dias de folga, e 30 ou 45 minutos em dias de show. É a primeira coisa que faço quando acordo; tomo café da manhã e então vou para a academia. Caso tenha a sorte de estar em um hotel com academia 24 horas, isso me ajuda a dormir. Eu fico tão agitado depois de um show, que não consigo dormir logo em seguida. Na maioria das vezes a academia não está disponível, então eu tomo um banho se houver um chuveiro, e se não houver, fico sentado e fedido assistindo TV!”

Além de se exercitar, Travis conta que também mantém a forma comendo as coisas certas para seu corpo, mas nem sempre sua dieta vegetariana satisfaz essas necessidades. “Sou vegetariano, então tento me manter dentro dessa dieta o máximo possível enquanto estou em turnê. Tomo muito suco e como tantas proteínas quanto posso, mas sendo vegetariano, isso não é muito. É basicamente isso, também bebo muita água e tomo uma vitamina de proteínas toda manhã. De vez em quando, dou uma escapulida da minha dieta vegan e como ovos brancos pela manhã, que são uma boa fonte de proteínas enquanto estou na estrada. Se  sinto meu corpo ficando cansado, eles são bons para me manter saudável. Tenho alguns suplementos que ajudam a me manter sem dor e tudo se mexendo”.

Travis também admite que uma surpresa recente com sua saúde o deixou diferente. “Tomei um susto com a minha saúde no começo desse ano. Fui ao médico e descobri que tinha oito úlceras no meu estômago, e me disseram que a causa era o fumo, e possivelmente ingestão de comidas muito ácidas. Como eu não como muito isso, provavelmente era por fumar. Eu tinha células pré-cancerígenas na minha garganta – e isso mudou tudo. Parei imediatamente e fez diferença. Agora eu me sinto 100%, quando antes eu pensaria, ‘Eu me sinto bem, mas exagerei na noite passada’. É muito mais estável dessa forma, você não tem bons e maus dias, você não acorda culpando uma ressaca ou o fato de ter feito isso ou aquilo além dos limites. Estou satisfeito, foi bom e uma mudança positiva. Algumas pessoas não percebem isso e não aceitam as más notícias, então, eu tive uma segunda chance. Definitivamente, me sinto muito melhor do que há anos atrás, quando fumava muita maconha e bebia. É muito mais fácil quando você não está se recuperando de uma ressaca ou o que quer que seja”.

COMPROMETIMENTO E PRÁTICA

É impossível não se impressionar com o comprometimento de Travis, que dá o seu melhor em cada show, noite após noite. Tudo isso começa com um super aquecimento. “Praticar sempre foi muito legal, seja nesse kit Yamaha, em um pad para praticar, ou em um kit completo. Sempre me senti aquecido o suficiente antes de entrar no palco. Provavelmente eu me aqueço até demais. Toco uma vez o setlist completo antes de entrar no palco. No fim da turnê, eu já tinha feito isso tantas vezes que fiquei entediado, o tempo não passava, e quando me dava conta, já tinha tocado todas as músicas antes do show. Mas isso é bom, faz com que eu me sinta confiante e confortável”.

“Às vezes, se temos quatro ou cinco shows seguidos, eu penso no meio do show, ‘Merda, deveria ter me aquecido melhor hoje’. Mas meu corpo está bem acostumado com isso. Meus pulsos fazem barulhos, e você pode supor que eles estão cansados quando a turnê acaba. A mesma coisa acontece com meus ombros, meus tendões se esgotaram há quatro shows atrás. Uma vez que você está no palco, você é levado pelo momento e esquece as dores, e depois do show elas voltam”.

Tudo tem seu preço, e Travis é sincero sobre a vida difícil na estrada. “Quando temos uma turnê de dois meses ou mais, meus tendões ficam esgotados. Algo me “belisca” no meio do show e eu sei que é isso. Tomo banhos de banheira muito quentes para aliviar um pouco. Estou sujeito a isso no final da turnê. Também faço tantas massagens quanto é possível, quando elas estão disponíveis. Machuquei as costas e tive duas hérnias de disco devido ao acidente de avião, e nunca foram tratadas, então às vezes dói demais. Mas, como eu disse, uma vez que você está tocando, você acaba não sentindo nada”.

Ai. Novamente, chama a nossa atenção que Travis se sinta feliz em sentir dor, se isso significa que ele pode dar o melhor de si nos palcos.

“Nunca quero sentar na bateria e dar apenas 50% de mim, sempre tento dar 120%. Não fico confortável se estou cansado ou não me sinto bem. Então, meu objetivo é sempre garantir que eu esteja com bastante energia. Meu kit é meio desconfortável, meus pratos ficam altos e meus tambores ficam baixos. Nos últimos shows temos tocado por duas horas, então é bom estar preparado para isso, sem chegar no meio de um show ofegante e com os braços doendo. Eu me alongo bastante”.

Então isso é especialmente importante quando vocês tem um show de duas horas com músicas eletrizantes para tocar?

“Não, eu diria que dou meu sangue em todos eles. Não existem muitas dificuldades, a não ser as pontes onde eu diminuo o ritmo. Na maioria das vezes, é sempre “bam bam bam”, é só manter o movimento. Nós não estamos tocando as músicas mais lentas como “Stay Together For The Kids” ou “Adam’s Song”, que são o tipo de música onde eu tenho que diminuir o ritmo. Mas toda vez que colocamos essas músicas no set, eu acho que ele fica arrastado, quando na realidade é só uma música mais lenta e menos dinâmica. Acho que temos sido atraídos a manter um set mais agitado.”

MANTENDO A FORMA

Com esse panorama, não é nenhuma surpresa que o Blink tenha mantido seus sets abaixo da marca dos 60 minutos por tanto tempo.

“Conforme o tempo passa, o set fica mais longo. O mais longo que fazíamos antes provavelmente tinha cerca de uma hora e isso era extenso. Depois, nós pensávamos, ‘Como podemos fazer tudo isso com 45 minutos?’. Nós tentamos cortar músicas ou algo do tipo. Agora nós tocamos por duas horas. É bom, mas eu não conseguiria fazer isso sem me exercitar. Mesmo quando não temos shows e estou em casa, eu tento me manter em forma. Assim como atletas, que tem um período de descanso, e quando voltam à ativa, passam por 12 semanas horríveis. Porém, se você mantém o ritmo sempre, não é tão ruim assim”.

“Com o Transplants é praticamente a mesma coisa. Na verdade, sou assim com todos os meus projetos. Quando toco com Mix Master Mike, tudo está 100% o tempo todo. Transplants é mais hardcore, principalmente as músicas mais recentes. Todos os meus shows são assim – um dia terei um show mais lento!”

Com uma pausa com o Blink a caminho, isso significa uma chance para Travis descansar? Não, não significa. Com uma sempre crescente lista de projetos paralelos (um novo álbum do Transplants está por vir, assim como um solo), ele continuará a trabalhar quando chegar em casa.

“Eu corro na minha vizinhança, existem algumas colinas e coisas do tipo. Faço MMA aos fins de semana, o que é um bom exercício e é divertido para manter seus braços e tronco em forma. Um dia eu corro por uma hora, e no dia seguinte ando com minha bicicleta por uma hora, eu revezo. Fazendo sempre as mesmas coisas, meu corpo fica acostumado, então eu tento variar”.

É um bom sinal que Travis faça tão bom trabalho para manter sua boa forma, significa que muita coisa ainda está por vir. “Sempre há algo por vir. Voltando dessa turnê, tenho alguns shows com Mix Master Mike do Beastie Boys, então tenho que me preparar para isso. São 45 minutos seguidos, sem parar, por isso tenho que manter minhas energias para isso, especialmente. Também tenho shows com o Transplants a caminho, e depois um projeto com Tony Roster Jr, onde faremos algo chamado T&T. Será bastante empolgante. Tenho mais shows com o Blink em setembro, que antes foram cancelados porque tive que retirar minhas amígdalas, então os faremos agora. Terminando essa turnê, temos quatro semanas de folga, então, se eu não tocar durante essas semanas, quando chegar a hora pagarei por isso. Ou não estarei tão bem quanto gostaria. Não gosto de parar de tocar, a não ser por algum problema de saúde, cirurgia ou algo do tipo”.

Existe também o pequeno detalhe do futuro álbum do Blink. Apesar da forma como gravaram seu álbum de retorno Neighbothoods (que teve cada membro da banda trabalhando em ideias separadamente, com apenas algumas semanas juntos em estúdio), o mesmo foi um sucesso comercialmente e para os críticos, e Travis está ansioso para voltar ao estúdio.

“Nós ficamos sete anos separados e no último álbum ainda estávamos recuperando o ritmo, gravando um álbum porque era o que esperavam que fizéssemos, já que voltamos a tocar juntos e todos queriam ouvir músicas novas. Sinto que o melhor ainda está por vir, o próximo álbum será emocionante. A maior parte do último álbum foi gravada em estúdios diferentes, nós não estávamos sempre no mesmo lugar. Nós fizemos isso acontecer, e foi o melhor que poderia ter sido no momento. Eu acho que no futuro isto pode ser louco”.

A loucura, claro, nos traz de volta ao difícil roteiro de viagens de Travis. “Eu não gosto de viajar. Adoro vir para a Europa, os fãs aqui são demais, mas eu odeio viajar. Odeio estar em um carro, um ônibus ou em um barco quando não sou eu quem está dirigindo. Tenho problemas com manter o controle quando estou viajando, estou sempre esperando alguma merda acontecer”.

“Agora, o meu objetivo é tentar entrar em um avião. Obviamente, eu não voei depois do acidente, então tudo pode acontecer. Eu posso ir até o aeroporto e pensar ‘Não, eu não vou fazer isso’. Da última vez que estive em um avião, tive que dizer adeus para três parceiros. É uma coisa difícil para mim. Acidentes de avião são terríveis de uma forma incomparável. Vai ser difícil superar. Tento pensar positivo, e esperançosamente, isso será um obstáculo que vou vencer e deixar para trás. Talvez, quando eu conseguir voar de fato, seja possível fazer turnês em outros países e ir para a América do Sul, para a Australia, e não precisar ficar oito dias em um barco para chegar na Europa. Terei que esperar para ver o que acontece quando a hora chegar”.

Abaixo você confere os scans da revista.