Ei, abaixa isso, seu merda!

Autor Por laisizzle em 15/02/2012

Há tempos eu já discorri em outra coluna aqui sobre o quanto devíamos “aprender a valorizar coisas que podem parecer ínfimas, mas que nos afetam mais do que o esperado”.  Para a alegria de uns e desespero de outros (no caso, o da minha mãe, que acha que qualquer interação mínima minha pode despertar algum pedófilo em um raio de quinhentos quilômetros), eu ainda sigo fiel a esse meu objetivo. Por culpa dele, eu tenho essa ideia fixa na cabeça de que eu devo fazer o que eu puder para melhorar o dia de outras pessoas, conhecidas minhas ou não.

Obviamente, eu não sou nenhuma espécie de Madre Teresa de Calcutá. Eu não consigo (e ainda não sei quem consegue) passar um dia inteiro como se vomitasse arco íris. Eu dou o meu melhor, claro – agradeço o motorista de ônibus, sorrio, sou educada, não ligo se o taxista puxa papo e até dou moedinhas que sobrarem no bolso para aqueles mendigos que tentam disfarçar (ou não) o bafo de bebida. “E daí se ele quer comprar algo em algum boteco?”, retruquei depois que a minha mãe me repreendeu. “Deixa o cara com a cachaça dele em paz, poxa.”

Tem quem me ache ingênua. Tem quem me ache idiota.  Tem quem me ache oportunista, só “ajudando” os outros esperando algo em troca, deles mesmo ou, vai saber, do Universo. Não sei se sou só uma dessas coisas – ou todas as três juntas –, mas terminei por me impor que, quaisquer que sejam as minhas motivações, eu nunca poderia ultrapassar o bom senso.

Não sei como eu não imaginei que, antes que eu pudesse ter oportunidade de ultrapassar a linha do bom senso, outro alguém faria isso.

Aconteceu faz pouco tempo. O calor estava nas alturas, eu estava espremida em um banco dentro de um ônibus lotado e com o humor tão límpido quanto o rio Tietê – eis que, nesse cenário, em sua plenitude, entra um rapaz com um celular que tocava um funk altíssimo.

Deu pra sentir todos no ônibus – tirando, talvez, um núcleo que estava na parte traseira e apreciava o gosto musical – repreendendo o indivíduo em uníssono com olhares, muxoxos e gestos descontentes. Como de praxe, ele ignorou completamente. E, como mais de praxe ainda, se agarrou no banco bem ao meu lado, posicionando o celular bem perto da minha orelha. Vários pares de olhos me fitaram, cheios de pena. Podia jurar que mulher que estava sentada do meu lado quase me deu tapinhas encorajadores nas costas.

“Ah, não”, eu gritei internamente. Isso, definitivamente, não é o tipo de coisa que dá para valorizar e deixar meu dia mais agradável. Sério.

Eu até tentei. Respirei fundo. Aumentei minha música (que eu ouço com fones de ouvido, de nada, Mundo) ao máximo. Pensei em unicórnios. Em uma cachoeira. No Mark Hoppus de tanguinha.

Nada.

Por alguns instantes, porém, minha dor existencial provocada por tudo aquilo se aliviou quando notei que o rapaz saiu de perto de mim e se sentou exatamente no banco bem ao meu lado, do outro lado do corredor do ônibus – quase nenhuma diferença, mas pelo menos, era alguma – e, logo em seguida, desligou a música. Quando comecei a me recompor, noto que o funk maravilhoso (algo sobre fazer sexo com alguma amante do jeito mais heterodoxo e explícito possível, para variar) voltou com tudo, mil vezes mais alto. Olho lentamente para o lado, aterrorizada.

Ele tinha conectado o celular a uma caixa de som.

Uma.

Caixa.

De.

Som.

(Não to brincando.)

Pronto, foi a gota d’água.

Como o ponto de ônibus que eu desceria estava perto e levaria um tempo até atravessar o pequeno mar de gente que se apinhava ali dentro, eu me levantei, dei sinal, lutei para passar por todos que estavam entre o meu caminho e a porta e esperei, calma feito uma sociopata, o ônibus parar e a saída se abrir, lentamente, bem na minha frente. Assim que tudo isso ocorreu, eu me coloquei na ponta dos pés, ergui o rosto e berrei “Ei, abaixa isso, seu merda!”.

E, covarde que sou, saí dali na velocidade da luz logo em seguida.

“Mas isso é uma vergonha, viu?”, um amigo declarou logo depois que contei essa história para ele. “Não é você que vive com aquilo de ‘ai, gente, temos que impactar a vida das pessoas! Melhorar o dia delas! Todas as pequenas coisas importam!’?

“Claro, você tá certo”, eu admiti. “Mas eu gosto de pensar que eu melhorei o dia dos outros passageiros do ônibus.”

“Tirando um núcleo que estava na parte traseira e apreciava o gosto musical.”

“Isso. E, olha só, eu impactei a vida do cara do mesmo jeito. Só não foi de um jeito bom.”

Senhores, eu ainda agradeço o motorista de ônibus, sorrio, sou educada, não ligo se o taxista puxa papo e até dou moedinhas que sobrarem no bolso para aqueles mendigos bêbados, mas temo informá-los de que eu sou uma criatura desprezível. Feito cada um de nós.

Oops.

Mas eu tento.

Juro.

E, como a ingênua, idiota e oportunista que sou, eu espero que vocês também.

 

Laís Cerqueira Fernandes tem 18 anos, é estudante de Jornalismo há quase um ano, ainda insiste nisso de ser escritora e, pra se redimir do grito no ônibus, agora só quer andar de táxi. Prioridades, gente. Prioridades.