Como o ‘Enema of the State’ mudou a vida de Tom Delonge (Parte I)

Autor Por Isabela Rachide em 24/10/2014

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Mensalmente, os editores da Wondering Sound mergulharão de cabeça em álbuns que tiveram alguma importância ao longo da vida deles e discutirão o seu impacto sobre a cultura pop no Record ClubEnema of the State, que completou 15 anos em 2014, foi a escolha para o debate de estréia.

Confira abaixo a primeira parte da conversa que a Wondering Sound teve com Tom Delonge sobre o álbum!

A memória mais antiga que tenho de estar ouvindo blink-182 é em uma festa à beira-mar nos subúrbios de Detroit, sem adultos por perto, jogando Verdade ou Consequência com um grupo de amigos da sétima série. Foi no fim do verão de 1999 e Enema of the State era a trilha sonora perfeita para uma sala cheia de pré-adolescentes petrificados pelo sexo oposto – lembro que praticamente seguraram o garoto de quem eu era afim para eu dar um beijo na bochecha dele.

O blink-182 foi determinante para os meus anos de escola: meus melhores amigos e eu nos aproximamos por causa da banda e íamos vê-los ao vivo sempre que podíamos; eles inspiraram alguns amigos meus a começarem a tocar guitarra; eu desenhei a capa do The Mark, Tom and Travis Show com lápis de cor na porta do meu armário (o desenho ainda está lá).

Quando eu tinha 12 ou 13 anos, eu não sabia o que era um enema, o que significava ser uma garota que alguém pudesse treinar e nunca me atrevi a chamar a mãe de alguém de puta. Mas mesmo que as letras de Mark Hoppus e Tom Delonge tenham sido problemáticas por diversas razões, você pode tocar para mim o primeiro e brilhante riff de “Dumpweed” qualquer dia desses e eu ainda vou ficar eufórica para ouvi-lo da mesma forma como há 15 anos.

Para começar nossa primeira Wondering Sound Record Club, conversei com Delonge sobre sua infância e como o Enema of the State mudou a vida dele.

Então, a razão para a nossa conversa de hoje é estarmos começando o Record Club na Wondering Sound. Escolhemos um álbum, nossos editores passam algumas semanas ouvindo-o e depois discutimos a respeito do seu impacto sobre nós e a cultura pop. A primeira escolha foi o Enema of the State. Comecei a ouvir blink-182 quando o álbum saiu, eu tinha uns 12 anos. Meus amigos e eu fomos para os shows, tivemos camisetas e pôsteres, todas essas coisas. Quais bandas você ouvia quando tinha 12 anos?

Com 12 anos eu tive minhas primeiras bandas de punk rock, na sétima série. Entrei na Stiff Little Fingers, All and Dinosaur Jr. Fui visitar um amigo em Oregon e ele me mostrou umas gravações que mudaram minha vida. Desse ponto em diante, me tornei uma pessoa completamente diferente.

Como você era nessa idade?

Eu andava com um grupo normal de amigos que você faria na escola, mas eu estava começando a andar de skate e gostando muito disso, e nenhum desses amigos andava também. Eu estava me envolvendo em um monte de merda que não deveria. Eu estava começando a entrar em um grupo hardcore de skatistas, então eu estava apenas deixando de ser uma criança normal do ensino fundamental e me transformando em um pequeno skatista punk. Isso foi uma mudança de atitude, de personalidade, de estilo – tanto estilo de vida como de estilo de pensamento.

Como você se via naquela época? O que você queria ser quando crescesse?

Eu só queria ser o oposto dos meus pais. Eu não me identificava em nada com eles. Minha mãe ia muito à igreja, meu pai não, eles brigavam o tempo todo, não tinham dinheiro algum. Então o skate foi como o meu primeiro carro. Eu subia naquilo e simplesmente saía.

Quantos anos seus filhos têm hoje?

Minha filha tem 12 e meu filho 8. É uma loucura, espero que eles não queiram ir embora.

Que tipo de música eles ouvem?

Meu filho gosta de coisas animadas. Quando eu coloco a estação de death metal no rádio, ele acha incrível. Já minha filha é aquele tipo de garota que gosta de Vampire Weekend e Tegan and Sara.

Enema of the State foi lançado quando você tinha 23 anos. Naquela época, como você imaginava que seria o futuro da carreira da banda?

Eu só sabia que era nosso melhor álbum. Eu não achava que ia fazer alguma coisa louca. Eu me lembro que saímos em turnê, na Warped Tour… O Eminem e nós estávamos em uma turnê [risos]. Eu não acreditava que algum de nós chegaria tão longe como fizemos, sabe? Fazendo o retrospecto, você olha pra trás e pensa “ah, entendo, eu entendo o porquê”. Mas, no momento? Um rapper branco de Detroit e três crianças feias de San Diego que mal podiam tocar – quer dizer, Travis sempre pôde tocar, mas isso não faz qualquer sentido.

“[O presidente da nossa gravadora disse]:’Vocês vão ganhar mais dinheiro do que pensaram que poderiam. Vocês vão ser mais famosos do que jamais imaginaram. Vão tocar para estádios lotados’… Eu olhei para ele e comecei a rir alto.”

Quais são suas memórias favoritas de fazer o álbum?

Nós trabalhamos em três estúdios durante um período de três ou quatro meses. Nosso primeiro álbum levou três dias para ficar pronto, nosso segundo levou de quatro a seis semanas mais ou menos, e Enema of the State foi uma coisa de três ou quatro meses. E então a produção do álbum seguinte levou seis meses, e o posterior levou um ano para ficar pronto. Eu me lembro de ter me mudado algumas vezes durante esse período de três meses, mas nós fazíamos um monte de piadas, sentíamo-nos muito bem – sentíamos que soávamos bem. Essa foi a primeira vez que nós três sentimos que soávamos bem, então foi emocionante.

“Nunca houve uma banda de pop-punk que soava como canções de ninar em esteróides, pelo menos não no nível popular. Era com isso que eu costumava sonhar.”

O que você lembra como o mais desafiador de tudo isso?

O mais desafiador era tocar bem. Naquela época nada era feito em computadores, era tudo gravado em fita, então nosso desempenho tinha que ser perfeito, e nós não estávamos acostumados com isso – éramos apenas uma banda de garagem. Então, fazer algo assim foi uma experiência de aprendizado e nos trouxe até onde estamos.

O que você gostaria que alguém tivesse te falado antes do sucesso daquele álbum e da banda?

Para ter controle da nossa imagem, porque nós não sabíamos até onde as gravadoras mundiais nos comercializariam para ganhar dinheiro. Não fazíamos a menor ideia. Éramos tão ingênuos que correríamos pelados, mas eles fariam algo brilhante e colocariam em pôsteres e nos fariam parecer uma boy band erótica ou alguma merda do tipo. Estávamos chegando na cena do punk, mas a gravadora formou uma coisa toda em volta de nós que nós nem entendemos; nós fomos meios que pegos por isso. Então demoramos um pouco para sair dessa e voltar para quem realmente éramos. E é difícil fazer isso quando pessoas gastam milhões de dólares para fazer você parecer visualmente com algo que na verdade você não é.

Que tipo de coisas a gravadora pedia para vocês fazerem, ou o que te surpreendeu na forma como eles comercializaram vocês?

Eles faziam pôsteres de fotos estranhas ou organizavam uma sessão de fotos em que você pensaria que estava sendo engraçado, mas não perceberia o que ia acontecer depois. Em Take Off Your Pants and Jackett nós demos a volta por cima e fizemos um monte de mudanças.

Além da mudança estética, também houve uma diferença enorme na música, em comparação com o que vocês haviam feito anteriormente. Quão conscientes vocês estavam em relação a isso?

Nós sabíamos que o punk rock estava se aprimorando. NOFX foi uma banda punk que eu cresci ouvindo, e eles gravaram um álbum chamado Punk in Drublic, e foi incrível. Era mudança no jogo; aquilo soava bem. Se você ouvi-lo agora, provavelmente não vai soar bem, mas para a cena punk dos anos 80 e início dos anos 90, o punk nunca havia soado assim. Nós queríamos elevar o nível do álbum e Jerry Finn [produtor do Enema], na época, estava trabalhando com Green Day, Jawbreaker e Rancid – ele estava envolvido com as bandas de punk rock do momento e fazendo álbuns realmente grandes e bem produzidos. Então essa foi a coisa a fazer, elevar a forma de arte. Queríamos estar à altura dos maiores [risos].

Qual foi a última vez que você ouviu o Enema of the State?

Merda, não sei. Provavelmente 15, 14 anos atrás.

Continue lendo: Parte 2

 

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