Como é que fala, mesmo, cento e ointenta e dois em inglês?

Autor Por laisizzle em 01/10/2011

Por favor, fechem seus olhos e se teletransportem para o seguinte cenário:

É uma tarde fresca do início desse século (olha, falando desse jeito até parece que somos grande coisa, né?) e uma menininha brinca distraidamente com um bonequinho de plástico do Robocop que pertencia ao seu primo. Ela tinha por volta dos sete, oito anos, e era daquelas crianças que não largavam do pé do ninguém (em outras palavras, ela enchia bastante o saco, sim) e, por isso mesmo, quando ouviu o já citado primo rindo no quarto com um par de amigos, resolveu deixar a brincadeira de lado e ir ver o que estava acontecendo.

A menina entrou no quarto, o boneco do Robocop ainda em mãos, e deu de cara com o grupo de meninos adolescentes rindo de videoclipes que passavam na TV. Mal notaram a presença dela. Decepcionada, olhou em volta do quarto por lugares onde poderia continuar brincando, e por ali permaneceu durante alguns minutos sem ser percebida, tomando cuidado para não apertar o botão que fazia o Robocop falar. Quando as risadas dos meninos aumentaram, ela se virou instintivamente para a televisão — foi aí que ela viu.

Três caras.

Três caras pelados.

Três caras pelados correndo por algumas ruas e fazendo baderna com uma música ao fundo.

Sério, eu já mencionei que eram três caras, mas três caras pelados?

O primo e os amigos riam ainda mais alto agora, e ela quis se juntar a eles, também achando cômico toda aquela situação. Foi aí que notaram que ela estava ali.

“Ai, meu D– Menina!”, seu primo gritou com ela. “Sua mãe vai me matar! A minha também! Shhhh, sai fora!” — ele balbuciou algo assim, os amigos dele sorrindo na direção da menina, divertidos. Ela fechou a cara, emburrada, marchando até a porta com passos de ferro. Aquilo não ia ficar assim.

Ela sabia que sua mãe era calma demais para essas coisas, mas a madrinha dela, mãe do seu primo? Ah, não. A menina sabia muito bem o que estava fazendo quando marchou até ela, que jazia sentada na mesa fazendo bonequinhos de biscuit. 

“Tia”, ela disse, serena, as linhas de expressão antes endurecidas agora leves como a de uma atriz. “Seu filho me expulsou do quarto dele.”

“Ele tá com os amigos”, a mãe da menina, sentada ao lado da tia, tentou amenizar o sobrinho. “Deixa ele lá, depois vocês conversam.”

“Mas gente”, a menina lançou um olhar piedoso na direção das mais velhas. “Ele e os amigos dele estavam vendo três caras pelados na TV!”

Foi o suficiente. Quando os amigos foram embora, a tia-madrinha deu um sermão no pobre primo — enquanto a menina, se achando vitoriosa, se viu encurralada sentada com ele em um cantinho escuro que chamavam de “Cantinho da Coisa Feia”, onde as crianças da casa ficavam de castigo. Sua mãe também a puniu por ter visto e depois dedurado o primo (como já foi dito e percebido, a menininha era dessas pertinentes a não largar o pé de ninguém, ainda mais quando a deixavam de fora das coisas). 

Foi a primeira vez que os dois primos ficaram de castigo juntos, no mesmo Cantinho, pelo mesmo motivo.

E foi também a primeira vez que eu vi blink-182.

Eu não saberia o quê ou quem era blink-182 até muitos anos mais tarde, mas o meu interesse por eles só bateu quando pus os olhos no clipe de What’s My Age Again e esse episódio – meu primo, minha madrinha, o Cantinho da Coisa Feia, a primeira vez que o partilhamos e o motivo: três caras, três caras pelados, que absurdo! – voltou à minha memória; é aquele tipo de acontecimento de infância que é marcante pra você. Não acredito, é o clipe dos três caras pelados! Não acredito! Preciso mostrar isso pro meu primo! E pra minha mãe! E pr– hey, não é que a música também é boa? Eu devia ouvir mais coisas desses… Desses blink-182.

Contei essa história (verídica, juro) porque essa semana, com o New Action182 “estreiando”, o prazer de poder vê-lo pela primeira vez me fez pensar em como alguns acontecimentos são marcantes, principalmente quando os vivenciamos pela primeira vez — sem piadinhas, tá, porque elas se esgotaram nessas colunas de outro primo meu, o BLD –, e nós sentimos isso. Como se nossa mente estivesse nos contando “hey, lembra disso aí, vai ser bem importante daqui pra frente”…

Viagens mentais à parte, essa minha lembrança de uma tarde de meados de 2000, 2001, me fez desejar que todos vocês pudessem ter visto a minha reação quando vi aqueles três caras (pelados) pela primeira vez — mas também me fez lembrar do dia que um outro priminho meu veio aqui em casa. Antes, nós dois fomos ao supermercado com a senhora minha mãe e, lá, ele me mostrou um DVD de “videoclipes de rock” que tinha blink-182, Green Day e Foo Fighters no meio, sabendo que eu gostava. Chegando aqui em casa, ele assistiu os clipes comigo e, encantando com o que tinha nele do Blink, All The Small Things, me pediu pra ver mais alguns clipes deles. Como eu acho uma gracinha meus priminhos mais novos querendo me agradar ou gostando de coisas que eu também aprecio, coloquei meu velho DVD de Greatest Hits do Blink pra ele assistir.

Foi mais ou menos no segundo clipe, Josie, que eu parei de ver a TV e comecei a notar meu priminho. Ele tava numa felicidade que só, o que também me deixava feliz — daí, PAN! Tive a idéia. Peguei uma câmera e registrei ele assistindo os clipes do Blink. Ele tem mais ou menos a mesma idade que eu tinha naquela tarde do início desse século, e talvez (só talvez, eu pensei), quando tivesse minha idade, ainda gostasse de blink-182. Então, eu, sabendo como é, mostraria esse vídeo pra ele.

Mas antes dele mesmo, farei isso: pra tentar relembrar a todos vocês, leitores queridos que me aturam, do sentimento que é descobrir algo ótimo pela primeira vez, vou mostrar primeiro aqui como uma forma de ilustrar o que eu to falando…

p.s.: Me perdoem as partes escuras do vídeo, foi antes dele notar que eu estava filmando ele. As partes claras são depois que ele notou (e depois que ele permitiu que eu filmasse e, claro, depois que eu escondi a câmera e esperei ele esquecer que eu tava fazendo isso pra continuar).

p.p.s.: pros que estão se perguntando, sim, meu priminho faz cover de George Harrison nas horas vagas. E sim, minha voz assombrará vocês, também.

p.p.p.s.: a mãe dele ainda não me matou.

Laís Cerqueira Fernandes tem 18 anos, é estudante de Jornalismo há mais de seis meses, ainda insiste nisso de ser escritora e adorava o Robocop e jura que vocês vão entender o título da coluna se virem o vídeo até o fim.