Chegou a hora da pergunta

Autor Por laisizzle em 24/09/2012

Uma dessas noites atrás eu acordei no meio da madrugada, atônita, perdida no meio do meu edredom.Estava com aquela sensação de que alguém havia me despertado. Olhei em volta, ressabiada, só enxergando alguma coisa do meu quarto por culpa da luz do corredor acesa. Forcei a vista pesada com fadiga e nem sequer uma sombra suspeita eu constatei. Ainda o máximo de atenta que eu podia ser naquela situação, fui deitando de volta, lentamente, como quem diz para quem estivesse por perto para não se dar como vencedor.

Então ouvi os passos.

O som macio deles no corredor me acalmou – sabe, quando você já conhece tanto a pessoa que já caracteriza passos como os dela? Você a ouve subir a escada, andar pelo andar de baixo, pelo de cima, no quarto ao lado, e de olhos fechados consegue saber quem é. Eram passos conhecidos, que minha mente já havia decorado e categorizado no espaço da minha memória dedicado a alguém. Me virei rápido para o corredor, esperando.

O corpo apareceu na minha porta, metade para dentro do quarto, desconfiado. A pessoa era baixa. O cabelo reto e  curto, um corte impecável e simétrico característico dos anos 90. Não esvoaçava fio nenhum para fora do penteado, mas ele se balançava como um todo, sentindo um vento que a minha pele não notava. Fiquei imóvel, encarando o corpo e hipnotizada pelo cabelo, a única parte decentemente visível com aquela luz. Algo nele reluzia familiarmente e emitia um chamado que parecia vir na forma de um aroma passado. A mãozinha daquele corpo mexeu-se subidamente, escorregando pela parede, e aterrissou no interruptor com firmeza. A luz do quarto acendeu e eu consegui sentir minhas pernas bambas — só então eu percebi que eu estava paralisada de medo, o rosto cristalizado naquela expressão comum de terror: os olhos arregalados, as narinas infladas, os lábios compressos um ao outro tão fortemente que faziam minha boca parecer uma linha de carne só.

Encarei aquilo que estava me deixando aterrorizada bem nos olhos.

E a resposta foi simples, dolorosamente rápida.

Eu estava com medo de mim mesma.

Porque sim, era eu ali, parada na porta do meu quarto, me encarando com uma sabedoria e desdém anormais para uma criança de sete anos ou algo perto disso. O cabelo chanel pairando com vida logo sobre meus ombros jovens e aquele olhar amendoado, adornado com cílios longos e inclinados que hoje mal se notam atrás da lente dos meus óculos. Eu Criança fitou Eu Hoje e, se dando por satisfeita com minha reação apavorada, entrou no quarto com aqueles meus antigos chinelos pretos com alças verde-limão, com aquele shortinho azul xadrez e a blusinha sem manga num tom azul mais claro que eu me lembro de me ver usando naquela época — lembro de mim mesma fitando furtivamente os espelhos.

Meus braços mais morenos e menos longos alçaram minha Eu Criança em cima da minha cama, e minhas pernas moles se moveram para dar espaço para ela instintivamente.

Os olhos dela – ou melhor, os olhos meus – me fitaram curiosos. Ela sorria de um jeito tão pouco infantil e diferente do jeito que eu me vejo sorrir em fotos e em fitas de vídeo que um arrepio gelado tomou conta das minhas costas. Foi ali que eu percebi que era – só podia – ser sonho.

“Chegou a hora da pergunta”, ela me disse, calmamente. “Chegou a hora da pergunta”, ela repetiu e, em seguida, pulou da cama como se tivesse levado um choque e saiu do quarto numa rapidez que eu tenho certeza que não era capaz de acompanhar quando criança.

Abri meus olhos tão rápido quanto.

O ruim desses sonhos é que quando você acorda, está exatamente no mesmo lugar que ele aconteceu. Sua mente demora mais pra associar o que é a realidade e o que é fantasia, e você fica ali preso entre lençóis, um pouco apavorado, se perguntando se aquilo podia ser verdade.

Pouco antes de dormir, quando achava que já tinha esquecido, veio a pergunta – e aí?

           A criança que você foi teria orgulho do adulto que você é hoje?

Não consegui mais dormir – mas, em algum lugar do quarto, como uma espécie de pedaço de universo paralelo, eu sabia que estava ali. Não estava na porta do quarto, no canto atrás do guarda roupa, subindo na minha cama. Meu Eu Criança estava lá dentro de mim, de onde ela saía pra respirar mais frequentemente que o necessário, até.

Tem quem diga que fechar os olhos é olhar para dentro de si mesmo.

Fechei os meus. E me encontrei intacta.

 

Laís Cerqueira Fernandes tem 19 anos. Quando não está de greve, cursa o terceiro período da faculdade de Jornalismo. Ainda insiste nisso de ser escritora e tem uns sonhos bizarros.