Blink-182 na revista Kerrang! (TRADUÇÃO)

Autor Por Danilo Guarniero em 15/01/2011

Leia abaixo a tradução completa das scans da matéria que a Kerrang fez com o Blink-182 no estúdio.

O Blink-182 está atualmente dando os últimos toques no primeiro álbum deles em quase oito anos — um dos mais aguardados de 2011. Mas, assim que nos juntamos ao Mark, Tom e Travis no seu estúdio em LA, descobrimos que enquanto eles podem estar mais velhos e sábios, eles ainda são o Blink que você conhece e ama.

Há uma câmera de vigilância instalada no beco atrás de um estúdio em Hollywood onde o Blink-182 está produzindo o novo álbum. Na maior parte do tempo, ela capta imagens do cotidiano. Mas não sempre. De vez em quando imagens ruins passam pelo monitor de tela plana do Estúdio A – apreensões de drogas, brigas, viciados injetando heroína, casais transando no banco de trás dos carros. Tendo pouca relação com as narrativas manufaturadas de sua fábrica de sonhos em celulóide, essa é a vida real em Hollywood – crua, sem roteiro e imprevisível, sem qualquer garantia de um final feliz.

Se quisesse, o Blink-182 poderia ter um fim de carreira elegante, digno de filme de Hollywood. Se Tom, Mark e Travis fossem fazer um “rockumentário” sobre a carreira recente deles, algum diretor esperto escolheria 29 de agosto de 2010 como uma data perfeita para envolver no projeto. Tom admite que quando saiu do palco do Reading Festival, ele estava uma bagunça emocional – entusiasmado, despretencioso, orgulhoso, abismado. Cinco anos antes, ele estaria saindo da banda que começou no colegial: agora o Blink-182 fez o maior show de sua carreira, para aproximadamente 100.000 pessoas. Há cinco anos ele estaria virando as costas para seus melhores amigos: agora há abraços, lágrimas e sorrisos largos enquanto a banda comemora uma volta completamente triunfante.

Por uma vez na vida, Tom estava literalmente sem palavras. A tela escurece, os créditos rolam. Não há uma pessoa na sala que não esteja com os olhos encharcados.

Porém, a história não acaba aí. Em setembro do ano passado um novo capítulo começava, quando Tom, Mark e Travis começaram a trabalhar no sexto álbum de estúdio da banda. Em alguns aspectos, dando este passo, o trio está se escondendo por nada: apesar de feliz por embolsar grandes quantias por performances ao vivo, nenhuma das grandes bandas de rock que se reuniram recentemente– Rage Against The Machine, Faith No More, Pixies, Sex Pistols — se comprometeu em gravar material novo, talvez com medo de machar seu legado. Sempre ousado, Tom não tem esse medo.

“Não estamos apenas gravando músicas aqui,” ele insiste. “Estamos tentando fazer uma obra-prima.”

O Blink-182 não estava em posição pra tocar nada novo para nós hoje. Nenhuma das 12 músicas que eles reservaram para incluir no álbum, que sairá no meio do ano, está acabada no momento. No entando, ao entrarmos no estúdio fomos acolhidos pelo som de Tom e Mark rindo enquanto posavam para a câmera.

“Pare com a pegação de pinto!” Mark se queixou num momento.

“Eu não segurei ele,” Tom protestou indignadamente com sua voz de choro nasal. “Eu só arranhei a pontinha dele.”

Travis Barker é um pouco mais quieto. Mas o sorriso que abriu em sua face enquanto ele assistia seus amigos trocando piadas juvenis alegremente dizia tudo.

“Tom e Mark foram até a minha casa algumas semanas depois que eu deixei o hospital por causa do acidente,” ele diz calmamente. “E imediatamente começaram as piadas de pinto de novo. Acenderam como uma lâmpada. Essas piadas nunca soaram tão engraçadas.”

Mark e Travis compraram esse estúdio há cinco anos. Com os brinquedos do Travis espalhados na área de recepção, ele passa uma sensação relaxante, de lar, apesar da maioria das casa não terem um pôster o Elvis Presley segurando um rifle M16. Tem alguns DVDs – The Sopranos, Nip/Tuck, Hostel e Nursery Rhymes & Bedtime Songs entre eles – uma grande TV widescreen, imagens da Famous Stars & Straps nas paredes, e bateria por toda parte: oito delas estão completamente montadas, outros tambores empilhados ordenadamente do chão até o teto.

Os membros da banda serão entrevistados separadamente hoje. Mark e Tom dão apertos de mão antes deles sentarem pra conversar. Travis prefere apenas uma batida de punhos.

Um de cada vez eles colocam uma garrafa de água mineral na mesinha na frente deles, apesar de ficarem intactas enquanto eles falam, e se aconchegam no sofá cinza da sala de recepção. Quando começam, Mark, Tom e Travis usam palavras como “progressivo”, “moderno”, “rápido” e “dinâmico” para descrever o álbum que eles estão fazendo aqui.

“Se eu fosse um fã de Blink e pudesse ir ao futuro para ouvir o que essa banda está trabalhando, eu ficaria muito animado,” disse Travis.

Uma palavra que é usada bastante durante a conversa é “respeito”.

“Todos nós aprendemos a ter mais respeito uns com os outros,” disse Mark, enquanto falava do quando o Blink-182 de 2011 é diferente daquela banda que entrou em um “hiato indefinido” em 2005.

“A gente se respeita agora, o que é o mais importante,” disse Tom.

Ironicamente, quando voltaram a fazer música de novo em outubro de 2008 — a amizade deles foi reformada após um terrível acidente de avião que quase tirou a vida de Travis – eles faziam um esforço consciente para mostrar respeito, o que quase acabou com a volta da banda, antes mesmo que tivesse começado.

“Tudo estava tão fresco e novo, era como se todos nós estivéssemos ao redor dessa chama que queríamos proteger,” relembra Mark. “Estávamos nos respeitando tanto, que era como se andássemos sobre cascas de ovos, e até era legalzinho. Mas percebemos que precisávamos ser uma banda adequadamente antes de começarmos a gravar. Agora eu sinto que estamos confortáveis o bastante na nossa amizade, não apenas para apoiar uns aos outros, mas também para dizer ‘Hey, aquela idéia é legal, mas e se a gente fizesse assim?’ sem achar que machucaria os sentimentos de alguém. Foi importante para a gente esperar um pouco.”

A gravação do sexto álbum do Blink está acontecendo de uma forma nada ortodoxa. Não há um produtor em cima deles. – o colaborador de longa-data da banda, Jerry Finn, morreu em agosto de 2008 – Ao invés disso, cada membro da banda tem seu próprio engenheiro de som. Eles usam não um, mas dois estúdios simultaneamente, dividindo o trabalho entre este estúdio e o de Tom DeLonge em San Diego. E mais incomum ainda, os três estão raramente juntos no estúdio. Eles se reúnem uma vez por semana para ressaltar as idéias e voltam a trabalhar nas partes individualmente.

Há motivos óbvios de para isso – os três têm famílias e outros compromissos além dessa banda. Mark tem que estar em Nova York toda semana para filmar seu programa de TV, “A Different Spin with Mark Hoppus”, na Fuse. Tom está na reta para o lançamento do ambicioso filme, “LOVE”, do Angels & Airwaves. Travis está atualmente trabalhando em outros dois álbuns – seu álbum solo de estréia, “Give The Drummer Some”, e no novo álbum do Transplants – e ainda ajudando seu amigo rapper Young Jeezy no próximo álbum dele. O baterista está trabalhando 20 horas por dia, e francamente, ele parece exausto. Todas essas atividades extra-curriculares podem levar um observador cínico a perguntar o quão unido está o novo Blink-182. Mas quando essa questão é levantada, Tom parece horrorizado.

“Por favor, não entenda dessa forma,” ele se precipita com os olhos arregalados. “Você não pode interpretar dessa maneira, simplesmente não pode. Quando uma banda entra numa sala e começa a tocar, há obviamente uma energia que é diferente e especial – e precisamos fazer um pouco mais disso, pra ser honesto – mas é difícil com as nossas agendas. Gravar um álbum envolve muito trabalho tedioso e as ferramentas estão diferentes agora. Não tem absolutamente nada a ver com falta de união. É apenas uma maneira mais eficiente de trabalhar.”

“Um ótimo trabalho acontece mesmo quando estamos na mesma sala trabalhando em idéias,” admite Mark, “mas esse método [que estamos usando agora] dá a chance de cada um explorar as idéias por conta própria, sem ter dois caras em volta. Antes, eu tinha uma idéia para uma música e a tocava no violão para o Tom via telefone, e aí a gente se trancava numa sala e começava a escrever. Mas agora nós podemos enviar arquivos de um estúdio ao outro e trabalhar individualmente. Quando éramos crianças tocando na garagem do Tom, não era como a gente imaginava uma banda trabalhando, mas funciona pra nós. Tirou bastante estresse do processo. Ficamos felizes por ter esse luxo.

Não haverá músicas que fazem referência ao hiato ou à reunião do Blink-182 no álbum. Mark escreveu letras sobre quebras na comunicação e na confiança, e tocou em temas como isolamento e confusão, mas jura que não tem nada específico com o que a banda passou. Tom também passou longe de escrever sobre a história do Blink.

“Quando você está inspirado a pegar uma guitarra e escrever sobre uma emoção específica, é uma coisa,” ele diz, “mas outra coisa é tentar forçar alguma merda.”

Falando com a dupla hoje, não tem sentido para o que eles passaram ser um assunto para não se tocar, mas ambos são afiados para seguir adiante. Quando questionado a refletir sobre a dor e a perda que sentiu nos anos em que estava separado do seu melhor amigo, Tom fala devagar e escolhe as palavras com precisão, como se estivesse ponderando o impacto de cada sílaba.

“Bandas são realmente animais estranhos,” ele diz, hesitante. “Se você está numa banda de rock de verdade, normalmente você é um indivíduo fodido que veio de um lugar estranho, de uma família estranha ou de uma infância estranha e você precisa ser alguém e desafogar algo. E em seguida você monta um grupo de caras fodidos e todos são amigos e isto é uma família, uma tribo. Depois você cresce e vira um adulto com todas as mesmas questões, mas você tem este pequeno império, esta criação preciosa, e isto exige investimento e cuidado, e isto é sua vida. Então quando isto desmorona… bem, quando bandas terminam não é a mesma coisa que sair do seu trabalho de fast food. E agora que estamos juntos de volta, nós sabemos o valor disto. Agora não há nenhum ego, nenhum orgulho, nada ficando no caminho.”

A coisa mais impressionante que você nota na companhia do Blink 182 agora é exatamente o quão preciosa a banda é para eles. Era uma vez, quando eles estavam desorientados pelo sucesso e pela fama, talvez acreditando em tudo e todos mais do que eles aceitavam, este pode não ter sido o caso.  De volta ao verão de 2002, enquanto o Blink estava se apresentando no Pop Disaster tour nas arenas dos Estados Unidos com o Green Day, eu entrevistei o Tom e o Travis sobre a banda paralela deles, o Box Car Racer, e perguntei por que eles precisavam de outra via para a sua criatividade, por que  não podiam simplesmente levar as influências inerentes ao seu álbum de estréia da nova banda – Fugazi, Refused, Quicksand – para o Blink 182. Suas respostas foram pouco convincentes, um pouco auto-satisfeitas: Fãs do Blink podem não estar aptos a processar este som mais experimental, eles se arriscaram, a fórmula do Blink estava funcionando, por que foder com uma coisa boa? A princípio, esta foi uma resposta que exibiu um desrespeito fundamental pela base de fãs do Blink. Esses dias se foram. Uma banda muito mais agradável, mais humilde e agradecida agora, eles insistem que não há nenhuma limitação, nenhuma restrição e, crucialmente, nenhuma tentativa de antecipar o álbum número seis.

“Nós temos que ser capazes de pensar que o Blink 182 pode fazer qualquer coisa,” Mark insiste. “Nós não podemos nos classificar. O novo álbum tem um âmbito maior do que qualquer coisa que o Blink 182 já fez –  isto expõe o que fizemos no último álbum [auto-intitulado de 2003], mas também remonta às gravações anteriores e se conecta com essas idéias também. E ainda é a nossa gravação mais completa.”

“Todos na banda querem fazer um álbum muito moderno,” Tom adiciona. “Todos nós obviamente crescemos no punk rock, mas Travis vive em um mundo hip-hop/drum ‘n’ bass/eletrônico, e o Mark vive em um mundo indie-rock – ele sempre fala sobre artistas incríveis, obscuros, os quais eu nunca ouvi falar – e eu vivo no mundo classic stadium rock e eu estou sempre referenciando grandes bandas dos anos 70 e 80, que são experimentadas e verdadeiras, então quando você mistura isso tudo junto é realmente único. Nós somos a única banda que está fazendo merda que soa assim. Quando você pega o melhor de tudo o que fazemos e reune sob o nome do Blink, é como tudo é possível.”

“E sabe de uma coisa?,” Mark pergunta. “Dirigir para casa depois de um dia no estúdio onde uma música progrediu de uma ideia em uma das nossas cabeças para uma música verdadeira que você pode ouvir é ainda um dos melhores momentos na vida. É tão emocionante agora quanto quando nós escrevemos nossas canções pela primeira vez juntos. É o sentimento mais absoluto. É imbatível.”

O relógio está correndo, e o Blink tem lugares para ir, pessoas para ver. Tom tem que voltar para San Diego. Travis tem que passar mais uma noite no Estúdio B, enquanto seu prazo para entregar o Give The Drummer Some se aproxima. E o Mark tem o engenheiro Chris Holmes batendo seus dedos na mesa de mixagem no Estúdio A, ansioso para voltar ao trabalho. Como foi Travis quem trouxe estes três músicos de volta, juntos como uma unidade, parece apropriado permitir somente a ele a última palavra.

“Após o meu acidente, nossas vidas foram postas em perspectiva,” ele diz silenciosamente. “Todo o estresse e argumentos e qualquer coisa que nos tenha feito brigar pareceram tão triviais, tão falhos, tão completamente sem importância. A coisa mais importante foi trazer de volta a nossa amizade. E agora que fizemos isso, eu acho que os jovens vão ouvir a banda que amam soar melhor do que nunca.”

Além do novo álbum do Blink 182, o baterista Travis Barker está se preparando para lançar seu primeiro álbum solo “Give The Drummer Some” em fevereiro. “Meu álbum é louco!” ele diz. “Fazer isto tem sido uma experiência incrível. Eu tenho uma quantidade absurda de convidados especiais nele – Eu nem consigo me lembrar da lista completa! Tem uma música do Corey Taylor, uma com o Slash, uma com o Tom Morello e RZA e Raekwon do Wu-Tang Clan, uma com o Kid Cudi, uma com o Chester Bennington, tantas pessoas legais, e são pessoas com quem tenho amizade. Algumas músicas são umas misturas de rock e rap, algumas apenas rock, mas eu acho que as pessoas que amam rock, as que amam rap e as que amam bateria vão adorar. A única pessoa que disse ‘Não’ para a participação no álbum foi Willie Nelson, que foi uma pena, pois eu realmente queria que ele participasse. Mas isto é algo para visar numa próxima vez!”

O guitarrista / vocalista Tom DeLonge também está ocupado. Atualmente ele está dando os últimos retoques no quarto álbum e filme que esta por vir do Angels & Airwaves, Love. “Isto é o que o Angels & Airwaves tem nos conduzido em toda a nossa carreira,” Tom sorri. “Originalmente, nós disponibilizamos o álbum Love gratuitamente no ano passado e isto foi uma experiência maravilhosa. O álbum foi baixado 800.000 vezes pelo nosso site, o que é fantástico. Em seguida nós gravamos outro material de 45 minutos, que são novas musicas e uma trilha sonora para o filme ‘Love’, que esta sendo re-sequenciado com o álbum original e lançado como um disco de 90 minutos/duas horas ao longo do filme. O filme está incrível pra caralho – as pessoas vão pirar nele. É algo filosófico, meditativo e maravilhoso, e eu acho que vai receber um monte de elogios da critica. Este é um grande momento para nós. Estou muito empolgado!”

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Tradução: @panzudo e @rutinha182. Obrigada ao @mrcl_tche e @duksfts pela ajuda!

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