Record Club relembra os 15 anos de Enema of the State

Autor Por Jorge Ferreira em 30/10/2014

Blink-182 – Enema Of The State

Quando foi a última vez que você ouviu o Enema of the State?

Como vocês já sabem, a Record Club, nova coluna mensal da Wondering Sound, reunirá os editores do site numa análise minuciosa a respeito de álbuns que causaram algum impacto em suas vidas e na cultura pop. O escolhido para a estreia da coluna foi o clássico Enema of the State, que, caso vocês não se lembrem, completou 15 anos em 2014.

Eles também conversaram com o Tom DeLonge sobre a importância do álbum na sua vida. Confira essa entrevista aqui e abaixo a tradução das melhores partes da análise da Record Club:

A irreverência juvenil de Tom DeLonge, Mark Hoppus e Travis Barker se tornou seu cartão de visitas, e as músicas do Enema capturaram o espirito da rebeldia adolescente daquela época. Retornando ao álbum uma década e meia depois, mergulhamos de cabeça nas 12 faixas durante várias semanas e conseguimos separar o joio do trigo.

Os editores

Joe Edward Keyes, Editor-Chefe
Jayson Greene, Editor Sênior
Puja Patel, Editor Sênior
Laura Leebove, Editora-Chefe
Claire Lobenfeld, Editora de Recursos
Lindsay Hood, Editora de Reportagens
Tess Duncan, Editora de Produção

Edward Keyes: Então, eu gostaria de começar pelo fato irônico de que, para a primeira edição do Record Club, a Laura escolheu um álbum no qual a primeira faixa traz o refrão “I need a girl that I can train” (Preciso de uma garota que eu possa treinar). O que, para mim, representa uma das coisas mais surpreendentes do Enema of the State. […] Ao ouvir o álbum pela primeira vez para o Record Club, eu fiquei chocado ao ver o quão machista ele era. Para vocês que cresceram ouvindo o disco: Como vocês registraram aquilo na época? E o que vocês acham disso agora? O que vocês tanto adoravam nesse disco?

Tess Duncan: Bom, eu cresci numa casa nem um pouco feminista. Meu irmão e irmã adoravam o álbum e foram até mesmo para um show do Blink (meus pais não deixaram eu ir). Durante um bom tempo eu não entendia sobre o que as letras falavam, mas, revisitando o disco agora, eu percebo o quão imaturo e misógino ele era.

Laura Leebove: Eu tinha uns 12 anos quando esse disco saiu, e não fazia ideia do que diabos eu estava fazendo quando cantava junto esse verso de “Dumpweed”, ou a maioria das outras letras. Eu apenas simpatizava com a música em si […]

Puja Patel: Eu tinha idade suficiente para perceber que esses caras estavam sendo irônicos. […] Eu acho que a mentalidade que devemos aplicar ao Blink-182 daquela época era que eles eram uns idiotas e sabiam disso. Se entediavam fácil, eram rejeitados, impulsivos, mal-educados e nem um pouco simpáticos. E é por causa disso que eles eram tão divertidos. Eles nos permitiam rir da cara deles.

blink-182-no-inicio-37a2a

Duncan: Sinceramente eu não acho que eles tinham alguma noção do que falavam. Até porque, se você assiste algumas entrevistas antigas deles, percebe que eles eram mesmo tão imaturos quanto suas músicas. Eles falavam sobre o quanto gostavam quando as garotas mostravam os seios nos shows e o quanto se orgulhavam do seu humor indecente.

Greene: Sim, […] e o fato deles exibirem a Janine Lindemulder, uma atriz pornô, na capa, se preparando para fazer uma “enema” (lavagem intestinal) – algo tão grotesco e bizarro até mesmo para mencionar – traduz bem a personalidade deles e as suas visões sobre sexo. Afinal de contas, quando você é mais novo e não pratica bastante, o que é o sexo se não algo nojento e divertido que os corpos fazem?

Keyes: Sabe, estou feliz que você tenha levantado essa discussão, Jayson, porque uma das coisas que me surpreende nesse álbum é que não existe muito sexo nele. Em “What’s My Age Again?”, ela tira a calça dele, mas ele liga a TV. Em “Mutt”, ele desdenha do casal que só quer saber de transar. Em “The Party Song”, que a Jess mencionou, ele tem repulsa pela garota que vem “fácil demais” ou só pensa em se exibir.

[…]

Leebove: Eu ia falar agora mesmo sobre isso, que as músicas dão a impressão de que eles, na verdade, tinham medo de sexo e de garotas. Acho que isso retoma meu conceito das letras serem super misóginas nesse disco.

Lindsay Hood: Que bom que você falou sobre a Janine Lindemulder, Jayson, porque eu havia me esquecido completamente sobre isso e, quando a vi novamente na capa, eu fiquei horrorizada. Ainda mais por vir acompanhada de uma avalanche de músicas sobre “como treinar mulheres”, ou sobre como seria bom se as mulheres fizessem exatamente o que os homens quisessem – bem, uma atriz pornô é simplesmente a fantasia perfeita de tudo isso. E, como o Joe bem colocou, também existe um medo inerente de mulheres e sexo. Então, basicamente, o que o álbum quer dizer é “Eu tenho medo de garotas, galera”.

o-JANINE-LINDEMULDER-BLINK-182-570

“Então, basicamente, o que o álbum quer dizer é ‘Eu tenho medo de garotas, galera’.”

Duncan: Na turnê que eles fizeram em 2000, Tom fala que “Dumpweed” é sobre garotas que são mais inteligentes que garotos, e o quão frustrante é o fato de que você não pode treiná-las para fazer o que você quiser, como um cachorro. Como por exemplo, em “Dysentery Gary”, o Tom canta “Where’s my dog?”, depois de ser rejeitado pela garota que ele queria.

Patel: Preciso perguntar uma coisa, garotas: na primeira vez que vocês escutaram esse álbum, alguma vez vocês sentiram que os caras da banda estavam falando diretamente para vocês? Porque o refrão estridente de “The Party Song”, por exemplo, onde ele diz que “some girls try too hard” (algumas garotas se esforçam demais), veio como uma vitória para minha insegurança adolescente. Sério, eu e minhas amigas ouvíamos as músicas e nos sentíamos bem depois. Era porque as garotas populares da época realmente se encaixavam num estereótipo de “gostosas” que “tentam impressionar pela maneira de se vestir”. Eu nunca quis ser como elas mas, para alguém que era praticamente invisível para os caras da minha idade, aquele refrão era como um sonho realizado, de certa forma.

Leebove: É importante mencionar que não apenas as garotas eram apaixonadas pelos membros do Blink-182, mas os rapazes também queriam ser como eles. Eu tenho amigos que começaram a tocar guitarra por causa deles e queriam usar piercing nos lábios para ficar parecidos com o Tom.

Duncan: Será que eles sabiam que eram vistos como modelos de irmãos mais velhos para um monte de crianças? […] Como caras mais velhos, eles estariam ensinando essas crianças a como reagir às dificuldades da vida. “Dysentery Gary” fala sobre o que fazer quando você não consegue a garota que quer (debochar do namorado dela); “Dumpweed” é sobre o que fazer quando a garota não faz o que você quer (ficar zangado, e culpá-la por tudo); “The Party Song” é sobre o que fazer quando você conhece uma garota desesperada por atenção (rir da cara dela mas recorrer à ela quando VOCÊ está desesperado).

Patel: Acho que a ideia desses caras de serem “irmãos mais velhos e descolados” para os garotos mais novos é demonstrada na obsessão da banda com essa certa faixa etária. Além de “What’s My Age Again?”, a questão da idade também figura em “Anthem” (“wish my friends were 21”) e em “Adam’s Song”, no qual um garoto solitário sente saudade da época gloriosa em que tinha 16 anos. A música mais “madura” e sentimental, na minha opinião, onde percebemos realmente o medo do amadurecimento, é “Going Away to College”.

Hood: Acho que quando você está no colegial, uma das maneiras de parecer “descolado” é demonstrar uma atitude mais malandra e esperta para coisas como sexo e garotas, ou até mesmo para enfrentar garotos mais fortes que você. Então o álbum se encaixa nesse tipo de insegurança, e essa é uma das razões pelo qual se fixou naquela faixa etária.

Patel: Sim, com certeza, Lindsay. O disco Millenium, do Backstreet Boys, saiu naquele mesmo ano e foi um sucesso. E o Blink fez piada com a banda. Dito isso, eu deduziria que os fãs das duas bandas eram do mesmo grupo de amigos. Os Backstreet Boys eram rapazes com quase a mesma idade que os caras do Blink, mas com uma visão totalmente romântica e ridícula do amor jovem: caras sensíveis que queriam abraça-la e consolá-la enquanto você ficava em casa chorando porque eles não estavam por perto. O Blink-182 era um grupo de idiotas que não estavam nem aí se você quisesse sair com eles ou não (ou pelo menos fingiam que não ligavam). Como você disse, eles pareciam mais descolados por causa disso.

Blink-182 - Karaokê - All The Small Things

Leebove: Eles eram vistos dessa maneira estereotipada mesmo – quando eu conversei com ele algumas semanas atrás, Tom DeLonge disse que eles não faziam ideia de que iriam ser comercializados daquela forma (como pinups masculinos para capas de revistas adolescentes femininas) e, como esse rótulo não se dissipou, eles passaram a se levar um pouco mais a sério depois desse disco. Acho que eles foram rotulados dessa maneira principalmente porque Enema saiu numa era em que videoclipes eram, de fato, grande parte da programação da MTV. Então eles estavam de fato competindo com o NSYNC e os Backstreet Boys pela atenção dos espectadores.

Jayson Greene: Exatamente, Laura, eu lembro que eles eram definidos comercialmente como uma “boy-band” às avessas. E era só armação mesmo. O clipe de “All the Small Things” é uma paródia de um clipe típico de boy-band, que explora toda a (falta de) sensualidade deles. Me parece que eles eram posicionados estrategicamente como uma boy band de punk rock para o ensino médio, basicamente.

Hood: Mas talvez o fato dessas boy-bands serem agrupadas no mesmo rótulo tenha a ver com o que estávamos discutindo mais cedo: a total aversão do Blink-182 ao sexo. Fazer apologia à atividade sexual, de certa forma, faz com que ela aparente ser “menos assustadora”. Até mesmo quando eles estão pelados no clipe de “All the Small Things”, o foco está no humor e não na sexualidade.

Keyes: Minha opinião é de que, como um disco pop, ele é bem satisfatório. No entanto, essa mistura de glam metal sendo tocado na velocidade punk rock é bem estranha para mim. Não sei se foi só comigo, mas alguns solos do disco me lembram bastante esse estilo.

Duncan: Sem dúvidas, é uma mistura estranha, Joe. Ela apela para a criança que adora metal e para aquela que adora punk, mas acaba entregando algo muito grudento. Todas as melodias eram bem claras para que todo mundo pudesse cantá-las em coro, da mesma forma que uma boy band.

Leebove: É, na primeira vez em que ouvi novamente esse álbum, fiquei muito empolgada ao ouvir os primeiros riffs de “Dumpweed”. Dá para sentir a presença massiva do produtor Jerry Finn (RIP) nesse disco que foi, sem dúvidas, um dos mais brilhantes álbuns de punk rock de todos os tempos, e que chegou a influenciar uma porrada de outras bandas.

Greene: Se eles tinham noção ou não do conteúdo das suas músicas, eles certamente sabiam o que estavam fazendo quando as tocavam. O disco inteiro tem uma qualidade incrível. Concordo com o que você diz sobre a influência metal, Joe; acho que o Blink-182 elevou a eloquência do hair-metal ao nível do pop-punk. A linha de guitarra por trás da voz do Tom no refrão de “Dysentery Gary” é definitivamente inspirada no disco “1984”, do Van Halen.

Além disso, uma nota: pop-punk é basicamente música para crianças. A leveza do som, a relativa ausência do baixo, as vozes agudas e infantis, as melodias “nyah-nyah”. Se eu não me preocupasse seriamente com o desenvolvimento psicológico da minha filha, eu tenho certeza que ela se encantaria imediatamente se eu tocasse “What’s My Age Again?” para ela.

Keyes: Ok, para finalizar: música preferida do álbum? “Mutt”, que eu gosto cada vez mais toda vez que a escuto, especialmente a parte “he tells himself that he is the bomb”. “All the Small Things” é provavelmente a minha segunda preferida.

Greene: “Going Away to College”. Quer dizer, é difícil dizer. A existência de “Going Away to College” é a única evidência plausível de que Mark e Tom tinham noção do que estavam fazendo ou não. Aquele refrão é tão perfeito em todos os níveis – musicalmente, emocionalmente, metricamente. “I haven’t been this scared/ In a long time” já é devastador em sua simplicidade – quem não se emociona com alguém que admite sua própria insegurança? Mas a maneira como ele desenrola o restante simplesmente me causa arrepios: “And I’m so unprepared/ But here’s your valentine/ Bouquet of clumsy words/ A simple melody/ The world’s an ugly place/ But you’re so beautiful…” E aí vem o título, que faz você se lembrar, intencionalmente, de “Milo Goes to College”, dos Descendents (a banda favorita do Tom), e adiciona ressonância à música. Acho que não existe nenhuma música romântica pop-punk mais bem escrita do que essa. É isso.

Patel: “Going Away to College” é a minha favorita também. Eu estava na oitava série e a ideia de começar algo novo (o colegial) era assustadora. Você poderia rabiscar o refrão daquela música em um armário (como a própria letra fala) e não se sentir envergonhada porque ele dizia exatamente aquilo que você sentia. Sei lá, parece que arranca seu coração pela garganta, sabe?

tumblr_m67cgp2OL51qic1ono1_500

Leebove: “Going Away to College” é muito boa, por diversas razões. Eu sei que isso é chato, mas eu não tenho uma favorita. “Adam’s Song” está no topo, com certeza, e “All the Small Things” também porque é divertida de cantar no karaokê.

Duncan: “Adam’s Song”, provavelmente porque dá para relacioná-la com várias coisas, mas talvez porque eu tenha passado pelos mesmos traumas. Ou talvez eu gostava dela porque sentia que era a única música na qual o Mark estava realmente demonstrando sua humanidade de forma plena? Ah, sei lá, eu adoro essas coisas depressivas. Mas também amo “Aliens Exist”.

Lobenfeld: “Anthem”, com certeza! É a única parte do álbum que foi realmente inspiradora para mim. “Home show, Mom won’t know?” Beleza, vamos fazer então!

Hood: Bom, eu tenho que admitir: eu odeio esse álbum. Mas se você está me forçando, então eu fico com “All the Small Things”. Ainda que eu pense que aquela garota deveria parar de frequentar os shows do cara e formar a sua própria banda.