A vida é engraçada, às vezes.

Autor Por laisizzle em 20/07/2012

Estava eu na locadora tentando decidir se eu levava uma comédia romântica ou um filme de terror – ou quem sabe os dois? Como vocês podem ver, sou uma menina de extremos – quando ouvi:

“E se esse mundo for o inferno de outro?”

Parei, congelada, em frente à prateleira de suspense. A voz veio de trás de mim, empolgada. Por alguns segundos, até achei que estavam falando comigo, mas outra pessoa interveio dizendo “Cara, o quê?”.

Relaxei. Eram dois meninos, eu via agora, olhando rapidamente por cima do meu ombro. Mais novos e menores do que eu, parados de costas para mim e fitando os lançamentos. Bom, pelo menos um deles estava; o outro olhava para o amigo, meio incrédulo.

“Eu tava aqui, pensando nisso, sabe”, o que estava sendo observado justificou. “Vi isso na internet outro dia. Sei lá. E se esse mundo fosse o inferno de outro?”

Ah, meu Deus, eu pensei.  Ele viu na internet. Só rezo para que não tenha sido numa imagem compartilhada no Facebook que parece que saiu de um Powerpoint motivacional. E se esse mundo fosse o inferno???? O que você faria para se redimir??? Compartilhe se você se você teria medo, curta se pra você tanto faz!!!!

“Que isso, cara”, o amigo retrucou. “Tem coisas boas por aqui. Não dá pra ser inferno.”

Mas o que a gente sabe do inferno?, eu discorria comigo mesma, em silêncio. Vai saber. Inferno pode ser aqueles cinco minutos que você passa do lado de fora do banheiro esperando o lugar ficar vago. Ou então aquele domingo que você acorda às oito da madrugada e não consegue dormir de novo. Já to mal humorada só de pensar.

“Não tem como saber, né? Às vezes a gente acha que o que acontece é bom, mas nem temos ideia do que é verdadeiramente bom…”

Imagina? Isso seria cruel. Passar uma vida sem saber o que te deixa feliz. Pensar que sabe o que é, só para depois se dar conta de que tudo que já sentiu era um mero vestígio, que tudo aquilo era uma sombra do que você realmente podia sentir, e você foi condenado a uma eternidade sem experimentar aquela sensação, jogado num lugar onde todos viviam nessa ilusão de uma tal felicidade e…

“Moça?”

Pisquei, focando nos dois rostos que estavam me olhando.

“Parecia que você ia falar alguma coisa com a gente.”

Então eu percebi – estava virada na direção deles, quase empoleirada na prateleira que nos separava em cada lado da locadora; a boca entreaberta e o olhar desfocado.

Sério. Esse é o tipo de pessoa que escreve esses textos para vocês lerem. Vai entender.

“Ah”, eu disse, brilhantemente. Vocês nunca teriam visto um “ah” tão expressivo quanto aquele. Me ajeitei de volta na minha antiga posição e fitei eles decentemente, abrindo a boca e soltando, claro, outro “Ah…”.

Gente. Como é que eu tenho capacidade cognitiva para escrever textos?

“Sabe o que é?”, eu continuei a falar, já que os dois ainda me olhavam um pouco inexpressivos. “Achei interessante a conversa, talvez…” e tossi, interrompendo a frase e dando um ar de importância pro que eu ia dizer. “Talvez o objetivo da gente estar aqui fosse mesmo descobrir a verdadeira felicidade. Se sentir pleno, sabe. Finalmente. De um jeito ou de outro. Passaremos por várias coisas, construiremos ao pouco a nossa noção do que é se sentir completo e, uma hora, vamos conseguir. Até lá, não dá pra desistir.”

Olha, gente, não dá pra lembrar as minhas palavras exatas, mas eu juro que eu  rimei! Para uma doida que começa a conversar com garotos no meio de uma locadora, pelo menos eu ainda tenho um discurso!

Os dois continuaram me olhando. “Ou então, a gente constrói nossa felicidade, né? Do jeito que a gente quer. Quem sabe é sobre construir, e não encontrar…”

Depois de alguns segundos do silêncio mais estranho que eu já participei em toda a minha existência – e olha que eu já soltei aquelas bombas do gênero “Vocês vão mesmo acabar com todo o sorvete de flocos?” no meio dos almoços de família –, um dos meninos, o que tinha começado tudo aquilo (aposto que com uma foto arrancada do PowerPoint, cara), virou pro outro e disse:

“Acho que ela é um sinal, cara.”

“Total”, o outro disse, sem nem parar de me olhar como se eu fosse o Stevie Wonder dizendo que conseguia enxergar. Então eles agarraram um DVD e saíram em direção ao balcão, murmurando sobre como deviam alugar aquele filme porque “era o que parecia certo”.

Um sinal. Eu! Vejam só vocês.

Também peguei um filme, me arrastei até a fila para pagar logo atrás dos dois meninos e fiquei pensando com meus botões que eu não tinha jeito, mesmo. Enquanto tamborilava os dedos na capa do DVD, fiquei pedindo ao acaso que me desse algum sinal também. Qualquer coisinha. Eu merecia, poxa, só para eu realmente ter certeza que era preciso mesmo focar em cada sensação boa, mesmo que ela seja pequena ou passageira, ou então que…

Fui interrompida por um som conhecido. Os dois meninos estavam saindo da loja e, no caminho, se embolaram na hora de passar pela porta e o fone de ouvido que um dos dois estava usando se soltou, preenchendo o ar com a música que ele estava ouvindo antes.

Era All The Small Things.

Olha só. Essa vida é engraçada, às vezes.

 Laís Cerqueira Fernandes tem 19 anos. Quando não está de greve, cursa o terceiro período da faculdade de Jornalismo. Ainda insiste nisso de ser escritora e jura, mas jura mesmo, que não tem esse costume de começar diálogos no meio de locadoras.