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Grande amiga

Por laisizzle em 03/08/2012 às 21:12

Desceram duas amigas do ônibus, uma tentando equilibrar uma casquinha de sorvete e a outra com as duas mãos enfiadas nos bolsos da calça. A do sorvete suspirou de frustração quando ele quase caiu no chão e, ao olhar para baixo, viu um homem sentado na calçada. Ele estava segurando uma lata para tentar arrecadar moedas.

“Trocadinhos, moedinhas, por favor”, ele pedia. “Pra eu comprar um pãozinho…”

- Pode ficar – a menina estendeu a mão sem pensar direito, oferecendo o sorvete. – Você tá com fome – ela tentou explicar a atitude, desajeitada, enquanto a amiga e algumas pessoas que passavam a observavam.

O homem segurou com uma firmeza inesperada a casquinha. “Brigado”, ele murmurou, com o fantasma de um sorriso brincando na boca. “Que Deus te pague em dobro.”

A menina ensaiou um sorriso de volta, ergueu-se e voltou a caminhar com a amiga. Alguns passos depois, o rosto daquela que tinha dado o sorvete se iluminou de repente.

- Lembra daquela história de que, às vezes, Deus se disfarça entre nós para testar nossa bondade? – perguntou para a amiga, empolgada.

- Ah, sim – a outra rolou os olhos, afundando ainda mais as mãos nos bolsos. – Não vai me dizer que foi por isso que você resolveu dar comida, é?

- Claro que não – ela fechou a cara, quase ofendida. – Só lembrei da história.

- História, não, lenda – a amiga riu. – Quer saber de uma bem mais interessante? – a menina fez que “sim” com a cabeça. – Tem quem diga que quem faz isso é a Morte.

- Isso o quê? Se disfarçar de humana?

- É, se misturar entre a gente, testar nossas qualidades, conhecer o que realmente somos. E, como não dá pra fazer isso de uma só vez, a Morte aparece várias e várias vezes ao longo da vida. Sem despertar nenhuma suspeita.

- Credo.

- Credo, nada. Ela faz isso pra que a gente a conheça… Pra ficarmos familiarizados, sabe? Assim, quando chegar a hora e ela vier até nós definitivamente, não vamos ter tanto medo. Ela vai ser um rosto conhecido. Um porto seguro.

As duas meninas continuavam andando. A que tinha dado o sorvete virou rapidamente o rosto, tentando encontrar o homem com quem tinha deixado a comida minutos atrás. Não conseguiu vê-lo entre a maré de pessoas. Tinha sido assaltada por um arrepio quando a amiga contou a história, aquele que sentimos quando associamos, sem querer, uma hipótese que nos assusta. Alguns passos depois, no entanto, e o rosto dela se iluminou outra vez.

- Até que a Morte não parece ser tão ruim assim. Isto é, assumindo que ela seja algum tipo de entidade que toma alguma forma e se mistura entre nós. – ela tentou mostrar descaso, movimentando os ombros como quem diz “tanto faz”. – Simpático da parte dela, se importar em não nos deixar mais assustados do que devemos ficar. A Morte parece ser uma grande amiga.

Ao menos quem nos receberia seria alguém que conhecíamos, e não um estranho com uma má notícia, a menina pensou. Iria nos abraçar e nos conduzir, iria conversar bobeiras e nos acolher – naquele momento que, com certeza, deve ser o mais solitário que qualquer um de nós vai passar.

A amiga a fitava, sorrindo, como se lesse seus pensamentos. Quando ela a olhou de volta, abriu ainda mais o sorriso. “Bom saber que você pensa assim”, a amiga disse. “A Morte parece ser uma grande amiga”, ela repetiu a mesma frase da menina do sorvete.

As duas pararam a alguns passos da esquina; era ali que se despediam. Se abraçaram, disseram algumas formalidades e acenaram um tchau. Separaram-se, a amiga virou a esquina e a outra, antes de seguir em frente, voltou a olhar o homem que ficara com o seu sorvete. O achou, finalmente, e o observou por alguns instantes. Ele segurava o sorvete com uma mão e a lata de moedas com a outra, parecendo bem mais esperançoso do que antes. Se dando por satisfeita e sem encontrar nada no homem para suspeitar, a menina finalmente se virou e foi embora.

Nem se importou ou conseguiu ver a amiga que tinha a acompanhado a olhando, furtivamente, assim que se separaram. Nem notou que ela também a observou por um certo tempo. E muito menos percebeu quando a amiga pareceu sumir no ar passos depois de virar a esquina.

 

 Laís Cerqueira Fernandes tem 19 anos. Quando não está de greve, cursa o terceiro período da faculdade de Jornalismo. Ainda insiste nisso de ser escritora e tem altas divagações enquanto toma sorvete.


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